RSS
 

A ETERNA PAISAGEM III

07 ago

Olhos eternos sobre cacos

alocados no passado doem.

Uma flor tímida, um vaso

Ching, mas linha com cerol.

Rebocar o ontem frio

com cordas e roldanas frágeis

é a extrema-unção da noite,

o rechaçar do descanso.

Melhor ligar o velho rádio

e ouvir vários candidatos

proporem o melhor dos mundos.

Mentiras podem fazer sorrir.

E resgatar o sono perdido.

6.8.18

 
Sem comentários

Adicionado em - POEMAS

 

INFÂNCIA

26 jul

Filho único,

convivia com um casal

de irmãos:

ela, a Coleção Saraiva.

Ele, um disco de tangos

de Albertinho Fortuna.

E não brigamos

sequer uma vez.

25.7.18


 
Sem comentários

Adicionado em - POEMAS

 

AS CAVERNAS

28 jun

Nas redes sociais, o ódio

sente-se à vontade

como fossem sua varanda,

seu pier, seu travesseiro,

socos na porta reprimidos,

orgasmo, alimento, artérias

com sorrisos que engraçam

e colorem tais gifs raivosos.

Tudo envolto com a razão

oca, nascida no abstrato

que busca como radares

restos de sensatez e pudores

que ainda existem nas gentes

que começam a sonhar

de vez em se aninharem

cada qual em sua caverna.

Nas redes sociais, o ódio

é o Uriah Heep de Dickens.

Atira dardos na alegria

e defeca sobre o amor.

25.6.18

 
Sem comentários

Adicionado em - POEMAS

 

VIDA, ESSA PLURAL

12 jun

Nada cessa o filme vida.

Nem a bomba atômica

nem praga do Deus enérgico,

com a  ira que soçobra.

A vida não é só a vida

vivida, os fatos, o dia

nem  a noite,nem o gozo

descansado em arfardas.

(Inda há pouco dei vida

a Capitu renegerando

seu rosto das entranhas

de suas sílabas

solfejadas em compassos

ternários e altissonantes).

A vida preexiste

no desejo de se criar

novas vidas, granjeado

em encontros do destino.

É quando o amor se põe a sonhar.

Por vezes, por acidente

biológico, nas vontades

mais proscritas. Outras,

sem cultivo, emerge

na orquídea da surpresa.

E no quando desgarrado

da inocência,damos corda

à vida que nos despeja

do presente ao convívio

nefasto com os túneis

e becos do passado.

A vida da cachoeira

morta pelo homem vive

naquilo que a represou:

a eterna fotografia.

E os bandos de pássaros

passam tantos para que

se note que são tantos.

A vida segue  clara

depois da morte, por perto

da ausência, cultuada

no ar ou em lajes frias

como o lamento triste

do jovem imorredouro

Antonio de Castro Alves.

(Quero a imolação

pelo fogo, cinzas rápidas,

que ainda quentes sejam

doadas ao vento meu,

amigo de vida fremente

em muitos de meus versos).

A vida é o todo de tudo.

O mundo no plural.

A vida é assim, muito

além do se respira.

A vida sempre circunda

o tempo, beija,  ri dele

e o subverte. A vida,

enfim, não tem fim.


25.5.18
 
Sem comentários

Adicionado em - POEMAS

 

PEQUENO AUTORRETRATO

12 jun

Passos surreais e docemente barrocos.

(Às vezes penso que bicho é esse.

Oferto-me ao zoo, junto aos pandas.

Afinal tenho polegar e cara de afeto)

Gosto de jazz e da língua portuguesa.

E vivo em guerra contra dias obscuros.

A arte de reabrir as covas da alma

está no alinhavar do que se esconde;

só os autófagos quebram silêncios

e definir-se não é senão devorar-se.

Na borda do precipício de tantos totens,

emudeço as reservas confessionais.

Mas alguns versos saltimbancos

desvelam meus piões quebrados.

E me expõe nu como um medo de morte.

A poesia é pródiga em mostrar as cartas.

De mais, busco manhãs claras para colher

um pouco de lucidez para meu caldeirão

onde estão, sempre ferventes, o assombro

e a perene desconfiança no ser humano.


Assim, sou. Ou estou? Sabe-se lá!


1.6.18



 
Sem comentários

Adicionado em - POEMAS

 

DUELO

11 jun

O medo se esteira.

Aninha-se no cóccix

e entranhas de tudo

que respira e abre olhos.

O medo se acasala

e despeja mais proles

a cada movimento

que a Terra meneia;

o medo imantado

no ror de cabeças,

as chuvas tisnadas

de lâminas afiadas.

O medo desencanta.

Sem acordes e escalas

abafa sons e silêncios

nas fendas e trapézios.

O medo vem do parto,

dos leites maternais,

escolas, dos afagos

proibidos ao corpo.

O medo é a equação

destes tempos novos:

mais a vida se alonga

menos temores findam.

O medo não está no ar,

não mora no Universo

nem debaixo das pontes.

Está em tudo que somos.

O medo é introduzido

como um ácido coletivo,

com bad trip, cobras

e cruzes que alucinam.

O medo sobrevive à morte.

E conhece seus punhais.

Por isso a soberba inata,

a baba sobre todos nós.

Não há medos no medo.

Mesmo sem a face clara

apresenta várias vestes

diante da nudez humana.

O medo é o irmão do homem.

Nascidos no mesmo berço.

Quando um extirpar o outro,

a humanidade perecerá.


9.6.18

 
Sem comentários

Adicionado em - POEMAS

 

DO ÔNIBUS

09 jun

Escuto a fala da moça

que explode dentro do ônibus:

num instante estava vivo

e assim por nada, morto.

Todos os meus sentidos

se tornam estrangeiros.

As palavras abarrotam

minha cabeça de ratos

e paro de raciocinar.

Olho para a rua. Penso

no movimento da Física.

Pela janela, duas mãos

pequenas comemoram

um álbum de figurinhas.

Esta dor ausente jorra

sobre meu ser um alívio.

Vem-me jogos de bafo

sobre ladrilhos vermelhos

em sombra de verdes

avencas. Conforta-me

ter vivido este antes.

A surdez desaparece

e os ratos se evadem.

Este tempo comprimido

na memória me dá a plural

inexatidão dos anos.

Um vento resignado

leva embora o fogo

da verdade ecoada

no retorno dos rumores.

A moça agora já sorri;

já vive outro instante;

aciona o sinal e desce

no ponto sem surpresa.

Aonde a morte e o batom,

que retira da bolsa,

são doados pela vida

na mesma e fatal bandeja.


8.6.18


 
Sem comentários

Adicionado em - POEMAS

 

O CAMINHO DA VIDA

01 jun

(pensando em Kurosawa)

Na minha cidade não havia bondes.

Mas sei que os perdi. Várias vezes.

Um dia, peguei o destino e me fui

a um lugar aonde não soube remar.

Encontrei bondes que não eram meus.

E meus barcos e velas submergiram

no asfalto de minha indefinição.

Voltei. E continuei vendo bondes

imaginários passando dodeskaden

defronte meu coração de fantasia

no relógio imenso e febril da estação

do trem que velejava por cafezais.

Talvez por isso não me tinha cais.

Nem mar, baía ou costa navegável.

Apenas vielas e córregos interiores

pensados como uma imensidão.

Hoje sei que foram sonhos o que perdi.

Um a um foram embora sorrindo

um amarelo de abandono. Passei

a locomover-me por versos singrados

ou com trilhos, que se tornaram a fábula

de mim mesmo. Com montanhas, bondes

e lagos. Todos eles de era uma vez.


31.5.18

 
Sem comentários

Adicionado em - POEMAS

 

MOVIMENTO

31 mai


O corpo move-se nos sulcos do tempo

como carro de boi nos sertões dos livros.

Mesmo parado, ebole em  si mesmo.

Transforma-se a segundos imperceptíveis.

No que não se escuta no alarido

do silêncio. O corpo fina-se a olhos cegos,

sem o instinto da escuridão. Esvai-se

como um sono bom. Dita o compasso da vida.

É o corpo que não pára, não o tempo.

O tempo pára quando o corpo quiser.


30.5.18

 
Sem comentários

Adicionado em - POEMAS

 

PNEUMA

28 mai


O verso fez ninho em minha cabeça.

Quando em silêncio, flutua

no meu pensamento. Horas cheias

de Drummond, João Cabral, Erasmo

Carlos, Monsueto Menezes, Bocage.

Palavras saltitantes para um cérebro

alquebrado. Acho que devo consultar

o pneumologista do Bandeira.

Ando respirando versos.

Se ele pedir para dizer trinta e três,

capricharei no “auriverde pendão

da minha terra”. Sem tossir.


26.5.18

 
Sem comentários

Adicionado em - POEMAS

 
Page 1 of 7312345»...Last »