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‘2005 - DIA DE CHUVA’

24 jul

2015-07-24 12.51.04

 

DIA DE CHUVA – NOTAS

21 nov

Um crítico de literatura, cujo não não nos ocorre no momento, assim definiu a poesia: “Sincera e perfeita transposição artística da substância essencial da criação”. À definição acrescentamos, à título de corolário, as modulações estéticas, de musicalidade e pictóricas, que plasmam no espírito do amador de poesia a ética veracíssima da angústia, porque a motivação do poeta tem raízes na sua angústia. “…pois quem está bem consigo e no seu canto, não pinta, não compõe, não escreve. Vive!” (Luiz Zanin Oriccio)

Vive ou não tem substância? A coragem consiste em ultrapassar a erudição e conquistar aquele trágico domínio da ação com expressões pessoais, sem que nada existe!

Ter a face clara a formar uma lembrança:

de um ser que realmente existiu


Para nós, DIA DE CHUVA, longe de ser um poliedro cristalizado, é um azougue lírico, inquieto e atrevido, que de algum modo procura abrir as janelas do Vaticano ao sol e à ventilação vivificante.

“A expressão é um tanto demasiado ampla quando demasiado restrita…para aquele que fala, corresponde em si mesmo…o ouvinte, que sempre metade em toda linguagem… as estende ou restringe segundo a intenção daquele que fala” (Eduardo Guimarães)


Tudo isso que escrevo não me dá o tom da dor


É óbvio, tratando-se de poesia verdadeira, basta a angústia, motivadora, ativa!


Apparício Lara Filho

Ribeirão Preto, 16-VI-2005


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“buscando formas

buscando versos

como os óculos, sem olhos.

Poemas sobre a mesa”


(Silvio Zanatta)

 

NÓS

21 nov

Somos duas praias, areia branca e brisa zéfira.
Entre nossas vidas, o vasto oceano
e navegantes desauridos.
Entre nossas vidas pedras milenares,
que abalroamos em ímpeto infantil
quando não afastamos em sequer milímetros
as pretensões deíficas, ínsitas nos nossos sonhos.
De um lado, a procela que produz o sal,
de outro, eternas marés de equinócio.
Em torno, o amor continente,
a relutar por todos os tempos.

19.04.,2004

 

MEU PAI

21 nov

Dois sonhos príncipes, através de nuvens de calor,
trouxeram meu pai,o morto.
Veio adornado por duas senhoras sem rostos,
capitaneadas por Maria. A Maria não minha mãe,
mas a minha mãe.
Meu pai falou em soluços. Eu lhe pedi perdões,
pelos não feitos. Meu pai rechaçou noutros soluços.
Retalhou sua ausência. À vontade do beijo,
retalhei minha vida inteira.
Falei direta e ambiguamente. Às vezes
caia em mim. Às vezes doía em mim.
Falei-lhe do que nunca falara. Do que acentuara,
do que ficou como gaze.
Falou-me em soluços de que tudo ia bem,
diferente do quando não havia ausência em nós.
Falamos de amor. O tempo todo em amor.
E aí, a visão se dourou e acalorou o frio do encontro.
Apagou as feridas do olho, deixou à mente
submergir todos os fatos, as fotos;
convenceu o beijo a inexistir.
(mas vá controlar os poros!)
A falta dói sim, a saudade move o punhal
em direção ao afago clamando abrir
todas as feridas, todos os risos, até mesmo
os inexatos, mentirosos.
Todos os incertos monossíbalos.
As aranhas da paredes, as flores de plástico
do vaso de duas vidas perdidas em abraços.
De festas de despedidas, os outros abraços,
aqueles sem data, ficaram sem nós.
Para hoje, silenciosos mas comoventes
que não sei se doídos ou letárgicos.
Mas de mar dos homens. Dos pais,
dos filhos, dos santos, duendes, criminosos,
sábios, de tudo que prefulgura.

“Assim, tornamos pai, um ao outro
como nossos dias de certames
absolutamente panteístas. Volver ao tango,
à Grande Guerra, às fitas de cinema, a um tempo transitório.
Lembra-te pai, quando os dias te atropelaram?
E tuas fotos ficam em preto e branco?
Pois hoje elas são mais bonitas. Lembra-te, pai,
da voz do Rei da Voz? Das mãos do Oberdan?”

Agora sou eu em lágrimas, desfranzindo a cena;
torno ao restivo de saudade, nesse despertar indistinto.
E maria retorna ao descompasso do descanso,
do estar de um imenso vazio.

18.04.2001

(90º aniversário do Alfredão)

 

TOM DA DOR

21 nov

Sofro por sufocar sentimentos ocultos,
mundanos, pequenos choros
com objetivos indefinidos, transitórios,
cujos danos pontificam um mal estar
inoportuno, doentio, tudo por representar;
(infinitas personas)
Sofro pela angústia de não ser e ser
ou de viver com a alma emprestada,
diversa, de sangrias; se quero cantar,
vejo cantores, se desejo um poema,
limito-me a escutar poetas perdidos.
Quando me visto em traje que tem que ser
do não ser, do viver sem viver.
Tudo isso que escrevo apenas serve para identificar
covardia, circunstancial, mas covardia.
Tudo isso que escrevo não serve para nada
e medito a cada instante sem necessidade de registro.
Tudo isso que escrevo tentarei reescrever mais tarde
quando contar todas as histórias.
Tudo isso que escrevo não qualifica o temperamento
de quem não sou e essa merda de verbo.
Tudo isso que escrevo não me dá o tom da dor.
Apenas me deixa chateado.

27.11.1994

 

ALHEIO

07 ago

Sinto que minha história escapou-me entre os dedos.
Como se morasse no quarto ao lado.
Uma nau, embora sem estar à deriva,
chegou a ancoradouros estranhos,
seguindo rotas absurdas.
Uma espécie de inexistência vivida
entre um mundo perfeitamente justificado
e não aceito
a um mundo desconhecido,
que se perpetuou inerte
como uma visão,
embora presente o tempo todo.
Assisti da janela a vida passar pela rua.
E não atendi aos milhares de aceno.
Não segui o comboio por medo das esquinas.
Preferi ficar varrendo o chão,
sem sentir onde seria o chão,
sem amalgar para mim um chão.
Hoje, percebo quase toda minha vida em parêntesis,
com tempos confinados entre eles.
Os que estão fora são pequenas luzes de presépio,
pequenos poemas que me doam sorrisos,
momentos acariciados.
Tudo isto faz com que minha existência
seja de pouco anos, forjadas em palavras.
O que se mostra na face são frascos fechados,
expostos em móveis frágeis, esmoídos
por dias passados em continentes distantes,
ou pequenas ilhas sobre o oceano
de águas agitadas e turvas.
O que se mostra não sei mais o que é.
Dentro de mim, mas desconhecido.
O ser que é alheio a si próprio.
Por vezes sono, em outras fel.


15.01.2004

 

SONHO UNIVERSAL

06 jul

Ontem à tarde o sol suspirou de amor.

Solfejou um minueto,
eclipsou sua clave.
Parecia loucura, mas
era mesmo o gênio
que doura o trigo,
morena o rincão:
o natural prêmio.

Não há nada demais no suspiro.

Se tudo que vive
ama, tem de amar
quem à vida cria,
fertiliza e cura.
o que faz até desbrotar,
se não lhe há benção,
respeito e ternura.

E a lava sensual na terra respingou.

E dois raios fugiram,
pois era festa;
febris nos mananciais
amainaram todas
as dores da terra,
derreteram a treva,
escancararam os portais.

Ontem à tarde o sol suspirou de amor.

E à noite,
pavoneou-se todo
e pôs o mundo cabalmente a sonhar…


07/02/2002

 

OS NETOS

04 jul

À noite,
uns disformes com copos de bourbon
roubaram o sorriso de anil.
E apesar de tudo, traziam sorrisos nos lábios.
Vilipendiaram a casa da esquina,
da vovó Anna;
pisaram no tapete da sala
com botas encharcadas
de lama, e apesar de tudo,
traziam sorrisos nos lábios.
Lancearam os caminhos de crochê,
puseram nos bolsos perto dos galhardões
o camafeu com a imagem da Vênus.
O pires de leite do siamês foi lançado além da janela.
Onde foram ceifadas rosas e sonhos jardineiros.
E apesar de tudo, traziam sorrisos nos lábios.
Depois, comeram as broas de fubá
preparadas para os netinhos do amanhã,
e os impediram de estudar.
E eles gostavam de Ética.
E apesar de tudo,
traziam sorrisos nos lábios.
Os disformes, à noite,
portadores de copos de cristal,
fizeram o sinal-da-cruz.
E vovó Anna pensou que tudo era sonho,
desses que passam depressa,
que Deus intercede.
E pela manhã, já estava morta.
Dessas mortes de avó,
com sorriso sereno de cruz no peito.
À tarde, a casa já era deles, que sorriam
e colocavam fitinhas coloridas
nas golas dos casacos de lã,
tecidos pela vovó.
As cortinas foram fechadas
para um novo sol.
E os netos que ralharam pela mudança de destino,
eram frágeis, e os asseclas dos disformes,
também com copos de bourbon,
tiravam-lhe os casacos tecidos pelo amor de seus pais,
cultivados no período de semeio,
quando então eram orgulhosos de sua terra.
Nesta hora,
os homens tinham outro sorriso no olhar.
Um olhar blasfemo,
de choque.


24/12/2002

 

O COLÉGIO DO ESTADO

04 jul

Toma por susto
a volta da escola.
Permanente
nos olhos de menino.
O susto maldizente,
o que esfola,
fronteira do jantar
e o ensino.
Um rito de vida
entre sofrimentos.
Do solitário sabor
de ser pequena ilha
às aglomeradas palavras,
ensinamentos.
Um aprendizado soturno,
indutivo à trilha.
Toma por susto
todas as pessoas no caminho.
Onde janelas abertas e claras
raiam um riso.
Parece até paz
(será assim?), um ninho
que barganharia
pelo futuro inciso.
Quantos olhos não estariam sob cobertores?
Bem quentes,
anafados em beijinhos e mimos de anjo.
O caminho degrada as dores,
troca dores.
A dor da inefável impureza
da vida de arranjo.
As dores da escola,
mais amenas.
Melhor que as de chegar;
a dor na troca de olhares.
E o anseio de outras dores,
as dores dos cinemas,
do café na geada,
no tiro do peito,
as dores dos altares.
A dor nos olhares
eram o horóscopo do sono.
Das vidas que não a sua,
mas na convivência
do abandono,
diferente das vidas
das janelas acesas na rua.
Mas, nessa noite,
o olhar resolve confortar.
O fitar na trégua,
de um também riso,
que que desconfiado, que mareja.
E o caminho de volta
foi esquecido;
agora pretender
o desejo de dormir um sono de menino,
que adeja.
E o sono será de sonhos
com  regalinhos.
Com aqueles anjos todos,
que habitam os telhados vizinhos.

24/6/2004

 

AMOR OBSTRUTIVO

04 jul

Naquela casa tinha um ferrolho na porta.
Trancado por chaves imensas.
Jogadas no pântano de um amor obstrutivo.
Mas ao lado, esquecida pelos anos e senhorio,
tinha também uma janela aberta.
E por ela, um dia, entrou um poema.
Esvoaçando pelos quintais
com tal indissolubilidade
que os corredores ofereceram-lhe logo
o próprio âmago da casa.
(naquela casa tinha também uma estante com livros)
E o ferrolho, meândrico,
não teve outro caminho senão acabrunhar-se
à serviço do cinismo.
Naquela casa,
aprendemos a ser eternamente moleques
a equilibrar em peitoris,
transcedendo palavras e sonhos.
Sempre burlando a nossa existência.

27/11/2003