RSS
 

‘2005 - DIA DE CHUVA’

VERSOS PARA QUEM ME AMA

03 jul

Não veja apenas a infrutescência
de minha vida. O vago, o corriqueiro,
onde há o céu sem astro,
o opaco.
Não se sirva somente da iguaria falsa
e inapetente,
usada apenas onde não engrinaldam
nossas videiras.
Entranhe por raízes que,
expostas ou não, bramam por servir
aos laços mais proximais
em doações benfazejas, como a do amor.
Deixe o olhar assimétrico
incapaz de alumiar caminhos fortunosos,
os que dirigem às escarpas por vezes ruidosas
mas de constante semear.
Aproveite à desmedida
o farto amostral em oferta de um coração poeta.
De um espírito sequioso
em afugentar as dores de sombras.
Eu estou me oferecendo,
desconhecido e congruente,
não querendo ser mais de um,
e ter a face clara a formar uma lembrança:
de um ser que realmente existiu.


31/03/2004

 

DIA DE CHUVA

01 jul

Tomei minha velha mala
e coloquei objetos.

Os que mais gosto lá foram: o pente
(de osso de javali),
um brigue em miniatura,
um vaso com limpa-viola,
um poema da Francisca Júlia,
o mar de chapéu na foto da Tina Modotti,
uma folha de papel-de-seda
com uma lista de vacilos,
que remontam aos tempos do Old Parr.
Um sem número dessas coisas.

Antes de fechar a tampa,
não evitei que minha alma se enveredasse junto.

São ações nesses dias que,
quando acordamos,
sentimos que o destino,
inapelável, insatisfaz.

30.10.2003

 

ODE À APOSENTADORIA

01 jul

Poupe-me
das dores do mundo.
Poupe-me
de dores reles
das que querem um também reles analgésico.
Poupe-me
das Das Dores
e seu maldito rosário de ametista (falso)
e sua cara
de eterna cólicas (real).
Poupe-me
dos suores desnecessários
que urgem em avizinhar
quando há notícia
do ócio declarado.
Poupe-me
do dinheiro
e da falta do dinheiro
e dos que gostam muito do dinheiro
e os lanceiros modernos
e seus M.B.As. evaporáveis.
Poupe-me
de tudo que cansa:
à volta, em torno, debaixo das cadeiras,
nas telas dos cantos,
nos crachás, nas pilhas de livros,
dos relógios que ainda querem corda,
do quanta,
das quantas vezes mastigo,
dos sapatos que não mais existem.
Poupe-me
dos presidente dos E.U.A.
e de todos os cretinos que aparecem na TV,
que inundam as favelas
e os quartos de empregadas
de todas as zonas sul
nos quadrantes de viver
em câmaras de ar-condicionados
que vendem sorrisos
(em idioma bárbaro)
inescrupulosos.
Poupe-me.
Mais que nunca das inevitabilidades,
de todas elas, das que tem cheiro
e das outras também. Aliás,
de tudo que é necessário.

A começar por escrever versos.

23.10.2003