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‘2009 - O QUANTO DESÁGUA...’

O QUANTO DESÁGUA

13 nov
1.
O rio carrega
seu silêncio triste.
Busca um descanso,
que jamais existe.
O rio e a alma
têm a mesma face:
o quanto deságua,
o quanto renasce.
(9.9.08)

2.
A palavra fia meu rumo.
Tange minhas escolhas, me
efervesce. E quando noite
em mim,  mesmo às vezes
pálida, me amanhece.
(23.7.08)

3.
Os sapos cantam
na escuridão.
Os grilos também.
Poesia? Bandeira?
Não, apenas solidão.
(19.8.2008)

4.
Estrela guia,
canção perene
da manhã, doce
Cecília, à esfinge
em ti me assemelho:

- qual de minhas faces perdeu-se em teu espelho?
(25.9.08)

5.
Nova porta, novo labirinto;
me tonteia
como um cálice de absinto.
Mas o chamo de novo caminho,
mesmo sabendo que minto.
(21.6.08)

6.
Trem de ferro.
Janelas de luzes íntimas invadem olhos da memória.
Passam açudes.
Passam açoites.
Passa a minha história.
(5.8.08)

7.
Foge do labirinto
de tua falta de brisa
e do dia que não te nasça
revestido de festa.
Esconde de teu coração
este tempo que passa
e planta tuas flores
no tempo que te resta.
(7.8.09)

8.
Não façamos projetos de casas,
barcos, apólices; coisas
que aterrem nossas vidas.
Tenhamos apenas asas
e incessantes partidas.
(14.8.08)

9.
O olhar é um poema sem palavras.
Que não se lê,
nem se pode pegar.
Enigmático e brando
como um raio de luar.
(29.8.08)

10.
Cavalgo ventos mais lentos
que a erupção do tempo
em que o mundo se pendura.
Perco em todas as trocas,
Carícia desbotada,
Sorriso que ainda se debate,
sou um necessitado da ternura.
(26.8.2008)

11.
Não preciso de muito nos dias atuais.
Apenas o desdobrar deste momento:
colheita da vida
na seara do pensamento.
(25.8.2008)

12.
Somos um eterna madrugada,
quando falamos à sós.
Momento em que buscamos
a verdadeira estrada:
a que nos leva para dentro de nós.
(15.8.08)

13.
O leitor absorve
e se enriquece.
Enquanto o ledor compartilha
sua messe.
(4.6.08)

14.
Na manhã de febre,
quero tudo que há no mundo de uma só vez.
Sinto-me repartido como nunca.
Um fone de ouvido me diz,
de forma reclusa, que minha alma
é irmã da alma de Zélia Duncan.
(1.11.2008)

15.
Ah! Poesia,
noite singela e não vens.
E cansas o meu olhar.
Vem! Se queres,
traze-me o sono.
Só não me impeças de sonhar!
(21.6.08)

16.
Não tenho medo do futuro.
Nem de ter esperança.
O que me estremece
e me tira do chão
está onde minha vista alcança.
(11.4.09)

17.
Escrevo versos
para que o momento pretende.
Incoeso, necessita de rebites.
Sôfrego, arqueja ao lirismo.
Sou poeta porque
às marés minha alma tende.
(1.10.08)

18.
Uma lágrima cai.
Aí se sabe que um ai
nunca é festa;
ai subtrai.
(8.3.07)

19.
Ó minha ode pequenina,
toma-te da emoção
e beija (por mim)
o coração
de Cora Coralina.
(24.6.08)

20.
Ao vento ciciante,
a visão me fascina:
gotas de chuva saltitam
numa réstia de luz
na água azul da piscina.
O olhar desperta a alma,
o instante me ensina.
(14.5.09)

21.
Não preciso que morras de amor por mim.
Nem que me beijes como fera.
Tampouco me louves a cada instante,
em oração.
Não, não  é preciso.
Mas se me disseres que um verso meu te emociona,
aí me sentirei amado.
Amado como nunca fui.
Porque meu verso é o meu coração.
(1.11.08)

22.
Neste pré-outono,
quero minha rede.
Pendurar delírios
na minha parede.

Não sei se o cultivo
pelo pensamento
deixou-me vontade
de florir pensamento;

mas sim a certeza
do inadequado
ao susto de hoje.
Tempo esquinado.

Não quero gavetas,
nem plantar remédio.
Eu quero o que ganhei,
Inclusive meu tédio.

Todos sonhos juntar
dentro do meu bornal;
o que ficar de fora
deste universo

que seja o meu quintal.
(17.4.09)

23.
Não preciso de um soluço
e uma palavra frágil mas direta
no instante teu em que me debruço
para mostrar-te minh´alma inquieta.
E se neste instante me ouvires,
nele serei teu eterno poeta.
(10.1.09)

24.
Quantos são os arcados
da emoção.
O quanto se é.
O quanto se foi.
O quanto em vão.
(5.3.07)

25.
O que não tenho me assalta.
Perdas ficam como um laço.
Mas não troco dias livres
pelo ouro que me falta
e sorrio sob versos
às perguntas que me faço.
(1.4.09)

26.
Enquanto o capitalismo
enche o mundo de lixo
e a incompetência comunista
o homem de ilusão,
a poesia me enche de preguiça
sem qualquer pudor
ou busca pela razão.
(12.5.09)

27.
Coisa esquisita, a morte.
Esquisito não estar mais.
Não ser mais.
Coisa esquisita nunca mais pensar.
Coisa esquisita a morte ser esta coisa tão viva.
Ser coisa, não ideia.
(25.4.09)

28.
Soberana do artifício,
a mente escarça-se. Bulício,
poeira, chafariz.
Não há dia e nada fica.
Rosto ou cicatriz.
Hoje estou sem sintonia
como se fosse uma folia.
(27.8.08)

29.
O sonho é criança.
Faz contraponto à vida,
mercê sua vontade.
E a vida faz do sonho uma pipa
e a empina na tempestade.
(4.8.08)

30.
Da gaiola da minha vida
só se libertam meus sonhos.
Penso que um dia me levarão em asas da quimera.
Mas, fruto absoluto da dor, que sou, temo:
como viver sem essa espera?
(4.8.08)

31.
Não mais escreverei.
Agora meu canto será o silêncio.
Se quiseres um poema meu olha meu rosto
Lá estarão todas as palavras que de mim esperas.
Se nada disseres
e apenas um sorriso irônico estampares,
terei  teu olhar como um novo verso,
e junto cantaremos a poesia da natureza.
(11.11.08)

32.
como fossem fortes ventos
a água do rio
e o tempo
roubam momentos
(3.12.05)