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‘2013 - LUZ DE ALPENDRE’

05 jan

Alfredo Rossetti

LUZ DE ALPENDRE

POESIA

 

2013

05 jan

LUZ DE ALPENDRE

1ª edição

Capa e projeto gráfico

LAU BAPTISTA

Revisão

AMANDA FURLAN

FICHA CATALOGRÁFICA

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Rossetti, Alfredo

Luz de Alpendre / Alfredo Rossetti -

1. Ed. – Ribeirão Preto, SP

Editora Coruja, 2013

108 pg.

ISBN – 978-85-63853-37-0

1. Poesia. Literatura, A. Rossetti

org. II Título

CDU 631:45

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Editora Coruja

Rua Américo Brasiliense, 1108

Ribeirão Preto – SP

www.editoracoruja.com.br

 

AVISO AOS NAVEGANTES

05 jan

À SOMBRA DA POESIA


Que dizer de um poeta quando é Poeta Maior?

Já conhecia o Alfredo Rossetti de Colheita dos Ventos, livro que me deixou desconfiado do que agora, com este Luz de Alpendre já não deixa dúvida alguma: trata-se de poesia para estar entre as melhores que se praticam no Brasil.

Grande parte de sua produção poética é vazada em versos curtos heterométricos e estrofação irregular, como é a poesia de nossos tempos. Da tradição poética, o que o Alfredo anda retém, como uma espécie de memória, um de seus temas recorrentes, são as rimas, muito mais como recurso sonoro, como eco natural, do que o esquema rígido que muitas vezes força o poeta a desviar-se do sentido pretendido. A rima do Alfredo acontece naturalmente, quando o próprio verso a pede. Ela é inteiramente ocasional.

Seus versos mantêm a tensão rítmica que os diferenciam da prosa pela justeza e seleção das palavras, que se atraem, se aglutinam, que formam uma unidade indissolúvel. Seu vocabulário é rico, com verdadeiros achados como no final da estrofe abaixo:

E nós, pobres criaturas lentas
(porque o somos no amor)
nos socorreremos atrás,
feito bote sem poita.

Rico sim, o vocabulário, na variedade e propriedade de seu uso,  contudo extremamente econômico.

Ainda sobre a sonoridade de sua poesia, é um belo exemplo de aliteração o poema que segue:


MOMENTOS VAGOS
Ás vezes,
vesgo,
dou vezo
a um verso
indistinto do que haveria ser.
E sai assim:
inverso,
calmo e indigesto.
De soluço que verga ao vil minuto.
Que nem acabara de nascer
já pende ao não ser visto.
Verso mesmo de guardar
na japona do tempo,
revezada,
onde as coisas que se veste
são como versos de às vezes.

Jogos de luz e sombra, a constante plasticidade dando muitas vezes corpo a questões metafísicas, eis uma poesia que encanta por seu intenso lirismo, mas que perturba por tudo aquilo que levanta da condição humana. Ainda sobre o lirismo de sua poesia, deve-se destacar que o Alfredo não geme e não chora, ao falar de si mesmo (na infância, a que recorre muitas vezes; na atualidade, em sua condição de poeta). Seu lirismo é do tipo que se pode chamar de eriçado, cheio de ironia sobre si mesmo e sobre o mundo que o cerca.

Entre a diversidade de temas de que se compõe este livro, como o tempo, a memória, a infância, o non sense de que muitas vezes se tece a vida, pode incluir a própria poesia, ou metalinguagem, como preferem os acadêmicos. Um bom exemplo está no poema em prosa abaixo:

ANGÚSTIA QUE VIVIFICA
Ao Sr. Lara
- Basta estar feliz (ou supostamente) para que as palavras fujam de mim. A poesia vem do que me amura. Da falta de sintonia com a vida à margem do caos e com o que restou como traços que se perdeu num dia que, acreditem, era de sol.

O alpendre já está iluminado. Entre, por favor, e sente. A poesia vai começar.



Menalton Braff

 

05 jan

Dedico este livro a Silvio Zanatta


Que pressa foi essa,
Meu compadre?

Deixou-me aqui
Com meu copo cheio
de tuas ausências.
A.R.



“Absorto, descuidado e tolo,
Me vem o susto
De algazarra de maritacas.
E de rios pretos e ribeirões.
O choro de águas solitárias”
(Fausto Menestrel)



Não só poesia que faço.

Não só verso que componho.

O que tenho feito de meus tempos

é burlar minha loucura.


(A.R.)

 

ANIMA

05 jan
Escamoteio a vida à Ulisses/Bloom;
espertos sorrisos à deriva.
(nunca fui o que me escolheram ser)

A razão de minha alegria;
desconhecimento que acolchoa
o infindável retorno
à solidão de tantos rostos em redor.

Descubro-me em mote:
sou eu quem teço e desteço.
 

O SERVIR FUGAZ

05 jan
No caos da tarde,
na fogueira de palavras soltas,
túmulo das verdades incontestes,
um verso nasce
como uma flor despreparada.

Vem procurando altivez
ao sabor randômico.
Vem auscultando as dores do mundo
e os fitos que o espera,

mas aos poucos torna-se coeso
em sua missão de inserir-se
ao campo do absurdo
onde seus iguais refletem.

Vem como soldado de palha
mas com o tino lírico
e serve no átimo de tempo
que lhe é proporcionado a servir,
antes do repouso à força
em páginas de livros,
em arquivos difusos
como vales de sombras.

Promove o que é de vida:
lágrimas e discordâncias;
vem inteiro poesia
ou frágil broto a debandar;
mas vem
ao mundo como uma rima de arrumação.

(Escatológicos no servir,
o verso e a flor
sorriem ao mundo dos homens
e desaparecem)
 

O DONO DO POEMA

05 jan
A ti não importa
como escrevi o poema.

Mesmo porque as palavras
já não são mais minhas.

Serão tuas, se quiseres.

Corrijo: já são tuas,
mesmo que não quiseres.
 

MEMÓRIAS 1959

05 jan
a música caipira
em mim
era um canto de galo
na aurora paulista

e a danada duma água fria
violando meus olhos
 

FITA

05 jan
A diferença entre a vida
e o cinema está na claquete.

Para viver não há de ser
a partir de um bater seco
e um grito algures.

Nossos batimentos são outros.
Com melindres, ambíguos.
 

LEMBRANÇAS

05 jan
“J’ai plus de souvenirs que si j’avais que si mille ans.”
BAUDELAIRE
O caminho ao passado
torna-se funda suicida
quando a manhã alberga
pedras da noite.

Até a volta
da estação das forças,
vadiemos nossos passos
por vias do esquecimento.