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‘PROSA’

LEMBRANÇAS

14 jun

O primeiro encontro com emoção que tive com o futebol, foi no último jogo da Seleção Brasileira em 1958, contra a Suécia, anfitriã do torneio. Confesso que não estava entendendo muito aquele deserto das ruas, rádios ligados em alto volume, olhos lacrimejantes e outras coisas mais. Só cheguei ao prumo da seriedade daquele jogo, quando entrei na cozinha de minha casa e vi minha mãe ajoelhada no chão, pedindo a Santo Antonio de Pádua “Ajuda o Brasil, meu Santo Antonio!” (esse clamor viria a calhar nos dias de hoje). A cena que vi, trouxe-me à realidade. A coisa toda era séria mesma. Futebol mexia com todos, e comigo deveria ser assim também, mesmo com 7 anos de idade acabados de completar. Bem, acho que a fé de minha mãe em Santo Antonio valeu. E Garrincha e Pelé deram uma pequena ajuda. Brasil Campeão do Mundo! Ah! um detalhe: era dia de São Pedro.

13.6.19

 
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CRÔNICA DO DIA

26 mar

Ouvi muitos xingamentos na minha vida. Meus ouvidos escoraram muitos. É bom que se diga que a maioria não foram dirigidos a mim, e sim os ouvi em alguns conflitos presenciados e, na maioria deles, ditos ao léu como forma de desabafo ante situações de futebol e política, na sua maioria.

O mais corriqueiro, claro, é o de atacar a honra da mãe de outrem, com variadas estruturas, como o tradicional e mero filho da puta, ou o passar o filho para o feminino e xingar tanto homem com mulher. Também já ouvi ser usado como filho das ou filho de uma. E até um eufemismo simpático “quem não fizer tal coisa, a mãe não é santa.” Varia ao gosto das bocas, que adoram poder xingar.

Jesus, doce criatura, quando os fariseus passavam da medida (e sempre o faziam), sonorizava um “raça de víboras!”.

Mas eu gostaria de mencionar uns mais inusitados: um amigo de infância que ao sinal de qualquer raiva, lascava um “vai bundar com o Frederico!” Ora, o verbo bundar, um neologismo de primeiríssima classe na criação dos mesmos, pode ser fácil o entendimento. Mas e  o tal Frederico? Algum sentido fálico para um simpático nome. (Tive um grande amigo assim chamado, era juiz de futebol; partiu antes do apito final, saudade.) Durante anos fiquei matutando (coisa de avô) o Frederico inserido neste sem dúvida palavrão, dada a forma vociferada como era exprimido.  Acabei por abandonar a dúvida  e a pesquisa. O tempo passou, não mais ouvi ninguém o utilizar. Sumiu da história.

Agora, tinha um tal de Joecy, que fugiu de sua casa para acompanhar um circo, que além de bom de briga, era um ás do xingamento. O que mais usava era menos raivoso que tantos outros que ouvi, porém gritado de forma sempre enigmática. Em qualquer contenda, lá vinha o Joecy, de alcunha Mister, com o seu formidável “seu cara de onguborutu, feição de bode mocho!” Segundo apurei tinha aprendido com seu pai, um nordestino com muito orgulho do nome que carregava, o seu Virgulino.

25.3.19

 
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CRÔNICA DO DIA

24 mar

A chuva daquela tarde caíra mensal. Foi que entendi do que a moça do tempo disse na TV. Uma grande jarra despejando água num copo. Não me furtei à imagem. O pensamento se evade com a precisão de um raio sobre um mapa mundi colocado na mesa de nossos olhos fechados. O mestre Lupicínio matou de vez quaisquer tentativas de elaborar versos neste sentido com o genial “o pensamento parece uma coisa à-toa mas como é que a gente voa…” E nessa profusão que a mente provoca, olhando as águas de março (o Tom, nem diga) ancoro em recordações da primeira enchente que pude presenciar de perto. Assisti todas etapas, do temporal ao caos que as águas provocaram no jardim da cidade, situado na praça central, com a queda de árvores, destruição dos bancos de madeiras,e a fonte luminosa, destruída.

Ainda carrego os rostos dos engraxates, desolados por perderem seu espaço de trabalho. Bem no meio da praça, atravessando a rua, um cinema com todos seus cartazes estragados, e a Fulaninha, loja de bilhetes de loteria com seus vidros quebrados. O vento fora de uma força jamais presenciada. Um velho cão de todos me olhava triste. Ele sentira a natureza mais que todos nós, por ser todo percepção, sem que tivesse necessidade de procurar razão para tudo aquilo. Uma noite digna de São Bartolomeu (exagero do cronista). E a manhã já se remoçara límpida, com seus raios de Sol procurando formar um arco-íris. O rio já se acalmara, mas ainda mantinha perigosa velocidade em seu correr. O mundo ia se ajustando, precisando de uma limpeza. Foi o que pensei, depois que entre muitas falas ouvidas, a do Ziqui sobrepôs: – “A água é castiguenta, ela quando cai, é pra limpar as coisas ruins que nóis fazemos. E se cai forte e ventando assim, é porque a coisa tava feia, acumulada nos pecados! É muito chifrudo nessa cidade! Brinca com Deus, brinca!” E ninguém apontou ser uma frase machista. Apenas riram. Nas chuvas daquele tempo era assim mesmo.

24.3.19

 
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CRÔNICA DO DIA DE SÃO JOSÉ

20 mar

Fiquei muito feliz com a escolha do escritor Inácio Loyola Brandão para a Academia de Letras. Um grande talento da literatura e do jornalismo brasileiro. Além de ter sido o arauto da coxinha de Bueno de Andrada e transformado a mesma em celebridade de farinha, batata e frango, com um preço que condiz com a fama adquirida. Mas não é por isso que pinço da minha memória o Inácio, e sim o seu hábito de sempre carregar uma pequena caderneta, onde anota fatos do cotidiano para, com sua brilhante criatividade, transformar em literatura, e da boa. Daí eu imaginar esse modus operandi nas viagens de ônibus urbanos atuais, onde as conversas aos celulares pululam (em voz alta), e de quantas cadernetas seriam necessárias para o devido recolhimento dos eventuais casos com potencial a serem consagrados em crônicas, contos e outros que tais.

Basta uma viagem um pouco mais longa e pronto: negociações, mexericos à Candinha, reclamações das patroas, as moças que trabalham nas creches, o calor insuportável que aumenta a cada ano, os buracos de Ribeirão, críticas ao prefeito (outro dia vi uma jovem chamando o alcaide de Faz-me-rir, pensei na cantora  Edith Veiga; viram como se viaja na imaginação?), churrascos acontecidos “a cerveja estava quente” , árbitros de futebol e seus intermináveis erros,  e muitos outros assuntos que serviriam tranquilamente de fonte de inspiração para quem milita com as palavras. Mas sem dúvida, o maior personagem destes telefonemas é o marido. Inclui-se aqui o namorado, o amante ou o crush (na minha época apenas um refrigerante com gosto de laranja), ou seja o parceiro. O carrasco que ali se transforma em enforcado por vozes estridentes.  E dá-lhe histórias! Tem os casados e quem o traz é a amante, mas também pode ser a esposa reclamando do “bebum carnicento” que tem em casa (juro que ouvi isso), o namorado que gosta de maconha e não cumpre com suas obrigações (?). E dentro dessa classe, o assunto de ouro no pódio é o referido não gostar de trabalhar. Penso que percentual teria no triste quadro de desemprego no Brasil. (Pensamento bobo, mas não se segura a mente).

No dia de ontem, ouvi uma conversa completamente inusitada. A começar de  quem falava ao pequeno celular: um grisalho, com uns 70 e tantos, reclamando de sua esposa.  Conversando com o seu compadre. A senhorinha era uma alegre pessoa, adorada pelos netos, mas era viciada. Uma pobre viciada (palavras dele), perdida mesmo. Em bingos!

Ah meu caro novo imortal, se puder, dê uma viajada num ônibus urbano (ainda tem aqueles elétricos em Araraquara?). Recomendo.

19.3.19

 
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CRÔNICA DO DIA

18 mar

Meço a distância entre minha casa e a padaria, percurso que faço todos os dias caminhando (salvo se manhã de chuva forte; as fracas combato com um colorido guarda-chuva), sem utilizar nenhum padrão de distância que conhecemos e nem o entediante contar passos, coisa de velho que não adquiri. A minha trena são os bons-dias. Hoje, por exemplo, foram onze. É claro que pensei, no retorno, em time de futebol. Mas foram onze saudações dignas de um congresso da ONU. Várias idades, cor, religião e se quisermos acrescer novos tipos, vamos incluir as feições faciais, das quais tentamos subtrair o humor e quiçá pensamentos. E chego à uma conclusão, lógica e portanto simplória, que esses cumprimentos, antes de tudo, são uma festa matinal. E com direito a ser altamente terapêutica, pois ao exalarmos um bom-dia sorridente, efetuamos a verdadeira inteiração com conhecidos e estranhos, e como somos egocêntricos desde os primeiros segundos do dia, já demonstramos o quanto educados e por que não, altivos e superiores. Assim mostramos uma de nossas máscaras diárias sem o menor perigo de rejeição. Senhores, senhoras, jovens de mochila, comerciários esperando o busão (assumo o apelido para dar mais cor a esta minha pequena crônica), enfim um painel humano considerável em suas diferenças de vida. (Buscar pãozinho fresco para a esposa virou tratado de sociologia). Enfim, o bom-dia é melhor que qualquer coisa nas manhãs, melhor que caminhada, Tai Chi Chuan ou academia ao ar livre. É uma maravilha. Apenas às vezes, um pequeno acidente pode acontecer e o panorama mudar climaticamente. É quando encaramos muito um sorriso e esquecemos de cuidar do chão. Há gente que fez o mesmo trajeto antes , acompanhado de seu cãozinho, que desdenhou da calçada e deixou sua pequena lembrança para que eu a pisasse. Nesta hora, de chuva ou um límpido sol, raios caem sobre minha cabeça. E o cumprimento passa a ser daí em diante de uma forma levemente interrogativa: bom dia?

18.3.19

 
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23.8.16

04 set

OS SAPOS


Vi quando o sapo saiu da floresta em frente. Vi o outro saindo também. Deduzi o casal. Atravessaram o asfalto molhado e pararam defronte a garagem do vizinho. Pensei tragédia. A fêmea poderia estar prenha. Com uma vassoura gentil, encaminhei os sapos de volta à floresta. Pensei que ele pudessem me convidar para as águas que se ouvia. Mas chegou o carro do vizinho:

- “Varrendo a rua, poeta?”

Pensei nas bocas dos dois sapos. Tinham sorrisos amarelos.

 
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12.2.16

13 fev

O BERIMBAU


Duas estantes quais colunas jônicas, fornecem como gêmeas estáticas, uma fresta que desnuda a parede, ocupada por um berimbau que em paisagem invade e desafia minha tristeza.

Soberbo, no seu retiro destila-se em lições de sobrevida: a inação tem sua beleza.

Um berimbau não tocado continua berimbau, sempre.

Como um rio na seca com cara de estrada boiadeira ainda tem rio aos olhos chorosos que quem o vive; ainda é rio nos mapas do Google. O berimbau quer acender este dia acomodado na displicência da fenda.

Acho  melhor ouvir João Gilberto, fuga única da possível aventura    de me autoemoldurar.

 
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16.5.15

27 jun

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O poeta passa a vida escrevendo uma autobiografia não autorizada.

 
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A.F.E.

20 abr

A Ferroviária de Araraquara volta ao cenário principal do futebol paulista, galgando novamente a Primeira Divisão depois de 20 anos de ostracismo. Volta ao lugar que sempre foi seu, seja do ponto de vista técnico ou da tradição que esta camisa enseja.

Uma coisa interessante na história da Ferroviária é de que ela é legítima irmã do América de São José do Rio Preto. Ambas foram fundadas pelo mesmo “pai”, o engenheiro da E.F.A. Dr. Antonio Pereira Lima.

Até seus uniformes e distintivos são parecidos.

Como isso não é noticiado pela imprensa esportiva, faço-o com prazer.

Gosto do futebol do passado e a Ferroviária está nele com a dignidade de um grande clube.

Parabéns!

 
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O CHICO

11 fev

Vinha descendo pela rua mais movimentada.

Menino ainda, descobrindo mistérios.

Vinha e descia e passou defronte da loja mais sonora.

Loja com nome de personagem de Alencar.

Ouviu quatro, três ou duas vozes?

Nem sequer pensou nisso.

O que o aturdia eram palavras, Pedro pedreiro penseiro que esperava. Assustou-se. Pode-se fazer isso? Era tão forte que aceitou emocionado a música como invasão. Pode-se fazer isso?

Entrou na loja. A moça e um sorriso triste explicaram que era o último disco, que outra moça e outro sorriso (de vitória, quase escárnio) já segurava uma cédula novinha, sem dobras, de cem.

Mas a moça do balcão tentou um consolo com outro disco, do próprio compositor.

Comprou como um desafio e correu com o coração para casa.

Colocou na vitrola (aquela do braço automático, de se colocar discos em pilhas) e ouviu Ole, Olá, que o picou.

Tentou administrar a respiração, mas chorou escondido.

E nunca mais foi senão poeta.

11.2.2015

 
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