RSS
 

‘(2011) TREM DAS PALAVRAS’

VÍCIO DAS CINZAS

04 jan
“Como em turvas águas de enchente,
Me sinto  a meio submergido
Entre destroços do presente”
MANUEL BANDEIRA
Pontilho um sorriso de entardecer
no filamento de uma lembrança
que agoura a chamuscar o momento.
Acontecimento que se debate.
Ponte arcada soçobrando o tempo

a estreitar arranjos impossíveis,
a vasculhar sôfregas tentativas
de renascimento, parcos consertos,
bandagens no feito, tolos reparos.
O que foi antes passa a ainda é:

perfume de loja, espinho fresco
de ponta acerada, arraigada.
Flama no segundo dorido, sem fim
que se espera, acalora ou alivia
posto ser tempo que não se divide.

Brota em em mim o desejo da cortina
eterna a exaurir o vício das cinzas.
 

HAICAI

04 jan

Fugaz, viça e cai.

Maneira da cerejeira

ser flor samurai.

 

HAICAI

04 jan

O raio de luz

dentro da noite flutua.

Partilha da lua.

 

DEVASTAÇÃO

04 jan
Penso na região do Araguaia:
lona de ringue sem beijo
civilização maia
impotência sobre o desejo
rastros apagados
veneno de tocaia
terminal ameaça
mastros quebrados
livro do século XVIII com traça
edênica querência abrasada.
Amanhá pensarei sobre o nada.
 

NOSSO AMOR

04 jan
Queres que sejas dor?
Então vem lenta.
E vem assim,
como quem tenta.

Se puderes,
traz sal e pimenta;
a lua deixa na lua
a água que fique benta.

Se vieres, anda como gato,
procissão, folhagem,
sem unhas, sem o suor
da última viagem.

Se queres, sê a dor.
Mas não a de ferir:
a dor raiz
a  dor do só dar.

A dor do jeito que
a dor nem gosta.
A dor que intervala,
nem sempre disposta.

A dor, se queres ser,
a crua ao relento.
Se queres cinza,
pinta a aparente

dor da gente,
a dor cavada,
mina de prata.
Escora, semente.

4.9.2009
 

ENCONTRO

04 jan
Quero adormecer neste abraço.
Quentar a vida neste toque.
Revoar como pipa multicor.
Segurar essa forma no espaço
para outro momento,
outro verso, outro eclipse, noutra dor.
Invocar o sabor neste entrelaço
e ungir o que virá, no cumprir
do arquétipo que adeja,
e ver num estilhaço
essa placidez sertaneja
desflorescer na volta
a um tempo de cansaço.
 

CONTO NUM POEMA

04 jan
Na sétima cornija,
num dia de garoa como todos os outros,
encontraram-se na ladeira do Verso Manco,
sobriamente vestidos, timidamente viventes,
Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa.

O Carlos, ao ver o outro possuído de Mestre Caieiro,
quis ser mineiramente gentil, dizendo logo um verso:

“sou um homem dissolvido na natureza,
estou florescendo em todos os ipês”   (1)

Mas o outro, com vontades de vicejar
em outros riachos,
de forma deseducada,
foi embora num estremecer corpóreo.

E fico o Fernando, que após sacudidelas,
ajeitou os óculos
e pouco solene murmurou ao colega de grandeza:

” – Vou ao Abel”     (2)

(1)  Versos do poema Tempo de Ipê, de Drummond.
(2) Frase dita por Pessoa, no escritório em que trabalhava, várias vezes ao dia, quando saia para beber um trago de aguardente, no comércio de Abel Pereira da Fonseca.
 

O VELHO G&E

04 jan
O ventilador da biblioteca traça,
em pêndulo eólico,
um mapa invisível. Distribui
seu aceno simbiótico entre livros. Emite
um grito que o vento abafa,
enquanto uma flanela encalmada
acaricia sua aranha ferrenha.
Gotas de um óleo balsâmico o revigora,
mas abisma a poeira amiga, que o afaga
nas noites sem sopro, de silêncio
consorte. E assim, efígie do tempo,
aguarda sua condição humana
quando a manhã o torna poesia.

4.7.2008

 

LEVE FANTASIA

20 abr

“Já que nesta gostosa vaidade

Tanto enlevas a leve fantasia”

Camões

Os lusíadas – Canto IV-99-2

Não se retira o medo do amor ao mito.

E passam anos, séculos e se enaltece

Sempre a busca do poder infinito

Que o homem à bula envaidece;

Salta sobre escrúpulos sem rito,

Morde ouro, crava dentes, se esquece

Do brilho da estrela que o governa

E se morre, deseja a  glória eterna.


O homem é o mesmo do rupestre.

O mesmo cego da Idade Média.

Mata o que respira, o silvestre;

Coloca os seus muros na ideia

Que ter é a essência de um mestre

Da vida e da luta em alcateia.

Nada foge de sua cerimônia

Nem a divina mata da Amazônia.


Mesmo com o sessenta, flor sonhada,

Nada restou em nada que se ame.

Estamos na caverna, qual morada

Do sempre, sem que a luz do céu derrame

E nos traga a redenção esperada

Ou que a irmã virtude nos reclame.

Mas sabemos: o tempo envelhece

E a religião nada leve tece.


Que também singra em busca de seus mares,

Mas de forma estranha, nos ensina

Que a pobreza de seus antigos pares,

A boa nova que não mais  fascina

É o que permeia sempre nossos ares

E arrecadar mais é o que determina

Ao homem buscar valer sua sorte

E enquanto vive, vive a eterna morte.


Não se ouve o brado do velho louco

Porque ele já não há neste destino

Tentar novos gritos é muito pouco

Porque fomos forjados em desatino

E as nossas vozes neste timbre rouco

Jamais terão a graça do menino

Que trouxe amor mas deixou dilema:

Poder amá-lo sem ler seu poema.


28.8.2009

 

A MOÇA DO BANCO JARDIM

21 nov

Mais que a saia
as mãos na testa como pérgula.
No pulso dourado
barbante raro
com nós e fitilhos.
A arte se completa no artefato.

(Meu coração é que doura
em sorriso grato,
acompanhado do outrora,
convidado à revelia;
semiotização que a praça revigora)


A saia ao sol enciúma a tarde:
dois mil trezentos e setenta e dois olhos olham, sinto.
Olham como fosse de Marte.

14.07.2010