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‘2009 - ESSÊNCIAS DA NOITE’

21 nov
"Mas esquecemos. O dia perdoa" - Drummond

"Mas esquecemos. O dia perdoa" - Drummond

 

NOITE PASSIVA

21 nov

A noite que não é negra
é noite sem entrega,
sem presságio de noite.
Noite sem refrega.

A noite que se nega
é a noite de meio termo,
sem tango, que desmaia;
do que não é enfermo.

A noite que se regenera
é noite que não se ouve,
silêncio que não grita.
Grito de garganta fria.

A noite que anseia o dia
é a noite que escapa,
círios que se apagam.
Bola na caçapa.

A noite sem defeito
é noite com trégua.
Algo que não se mira,
noite do não feito,

noite sem escravo,
sem soluço, sem medo.
Que se cala e não crava
unhas no quando degredo.

Noite que termina,
que fisga espaços.
Nesga pantomima.
Noite aos pedaços.

 

VERSOS DA NOITE II

21 nov

Frívolo cantador de suores distantes,
desvendo o que refuga num poema arrepanhado.

Ante a flor de pétalas dissonantes
se cismo, retiro do pulsar um abismo
de estupor da angústia ávida pelo fado.

Um salto em torno da vaga por mais alto a paliçada
da trajetória aflita, cumpro e excluo da madrugada
o calor de que não sei se desdita
e encaro na natureza da dor do nada
que dentro de mim se agita.

É quando um verso que não morre alteia
o que está imerso, e na cisão da falta teia
salta e à pena ensina:

tudo isso que escorre é o viver da noite finita,
que me abrange como um lago que socorre
e ao se enfeixar com o alvorecer, se jardina.

E como espectro de mera fita, declina.

 

ESTRELA INCÓGNITA

21 nov

A insegurança irrompe-me
em qualquer lugar
em qualquer segundo.
Mas uma estrela,
de tutela indecifrável
irradia o sim fecundo.
Uma espécie de aragem
de sorriso aberto.
Mãos que ameigam e me trazem
de volta o mundo.

 

NOITE TRANSFIGURADA

21 nov

Vários tons
de cores nota e ânimos
vão somem voam vêm sobressaem do limbo.
Então tecem

vários tons de noite.
Noite adentro de vozes
desarmoniosas
em perfeita harmonia de vários humores
pecam afligem sangria da paz
quiçá flores.

Vários tons de fixas regras
irão tornar o único desejo reflexos
apanhas
entregas negras de

vários tons que colhem do século tecidas curas.
Feridas puras.
Gritos no pedestal do seco abissal.
Ciclo onidirecional.
Banza fúsil em ternuras.

 

MALUCO REALEZA

21 nov

Raul é tão eterno
quanto seu nome
ao contrário

 

NOITE SEM FIM

21 nov

cruzes em pé
espada flamejante
na beira – na costa
sono delirante
criança amendrontada
fixas ondas – cortes
rápidos – fixas ondas
viagem interior
vaga atormentada
tapas de cima
de lado – do outro
cálice de ouro
cheio de incenso
um coro, besouro
imagem cimentada
cruzes em pé
espada flamejante
no dia aziago
nunca terminante
nunca fica o nada
peça de couro
vira chicote
na plena noitada
cálice de ouro
cheio de vida
vida sem mote
vaga chicoteada
declive no quando
confete e serpentina
mesmo saudade
mesmo sem retina
declive tesouro
descanso do cálice
de tapado de outro
sopro que anima
cruzes em pé
espada e dardo
chega e sai
nunca que cai
no quase soluço
madrugada se esvai

 

FÉDON

21 nov

noite escura
noite clara
a morte procura
o que a sabedoria aclara

noite escura
noite clara
o plenilúnio perdura
o triste enluara

noite escura
noite clara
a espera pelo sol tortura
a eternidade ampara

noite escura
noite clara
o noûs abjura
o veneno da tara

de uma idade obscura
mediana, insensata
que ainda não se mostrara

 

SOLIPSISTA

21 nov

A porta aberta,
cigarro aceso.

Dentro da noite
de dentro da sala
de dentro do escuro,
ruídos túrbidos
atiram pedras
ao pensamento.

Sem clarão de lua
a penetrar no espaço
do homem que vira bicho
se não dorme;
que vira lixo
se não se domina,
aguarda-se o que virá.
Sem saber se virá.
Sem perceber
se o remirá.

Quanto mais a noite
adentra, mais
a impossibilidade,
adventícia e nêmesis,
cresce, para nunca mais
desgrudar.
.

 

NOITE DE NELSON FREIRE

21 nov

O piano angelita oscila
entre tangível e eldorado.
A mais sensível gota
de existência nos olhos
do artista. Pálpebras que
remetem avisos. Ao íntimo
desconhecido, via mãos
grávidas da entrega.
Ao maestro: cada segundo
deve repelir o estatismo de viver.

Orbitam as retinas em meio
à emoção compartilhada
com centenas de outros olhos
que esteiam os ouvidos da noite.

Noite de música vista, descortinada.
Noite de cena final, lua
da Casa de areia.
Noite de condão, diluvial.
Noite e olhos. Fixos, marejados.
.