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‘(2009) ESSÊNCIAS DA NOITE’

A ESQUINA

21 nov

p/ Mario Pinheiro de Carvalho

A esquina era aquela;
sonho e esquisitice de risos sem futuro.
Era da cidade, mas a esquina era dela.
E  nos possuía nas noites em que tentávamos o fardo de viver
descobrindo sustos, despavoridas inquietações,
que se agarravam na essência da fúria probabilista.
A esquina era bela.
Onde sentávamos com o cigarro sem fósforos,
esperando o fogo da juventude aclamar mais um dardo atingido.
A esquina era sequela
aos tempos e vidas incontáveis, de vidas de passagens,
passeios e tristes fracassos e buscas por tentar entender o pão do dia.
Mas a esquina não era ela.
Era a que abrigava conversas sentadas,
madrugadas de um espinho camaleão,
de jogos interiores de cada um que recusava o passo,
antes o estilhaço de se ancorar no insabido.
A esquina era viela.
E por mais espaço, era própria de um pequeno mundo
de pequenos mundos, esconderijos de todas as sensações
em que éramos das cavernas, das inquisições,
do encarne positivista dos pais,
da dormência obliterada de uma fálica nação
sempre a servir-nos uma espera fria,
que, mágica, transformava,
em momentos de esquiva, a esquina em cela.
No meio-fio, rutilantes entraves insinuavam ambições
do que era o próximo segundo,
do que nasceria no amanhã,
no que fiaria nas nossas mentes,
nos livros, nas repetidas conversas, nos filmes,
na canção gratificante de um tempo rico de canções,
maiores que o próprio tempo,
que não deixaram a esquina ser mazela.
A esquina era a cancela
para todos os lados do vir a ser
ou para o alto da escada sem degrau ou rampa
para o acesso de tantos sonhos que,
só ao voar, chegaríamos em tempo de triturá-los
e experimentar o sabor de tudo que a vida,
hábil e dadaísta, proveria a todos enquanto peça
da humanidade que respira como alvorada onde está o tudo:
no meio da esquina paralela.
Nisso, íamos nascendo.
Enquanto o barro secava-se não ao sol,
mas ao cio da lua,
a esquina era a costela.
.

 

CHORO NOTURNO

21 nov

“Eis porque minha alma ainda é impura”

MARIO DE ANDRADE

Longe de ti.
Perto de ti não respiro. Sofro
pela inépcia na noite e teu pêndulo
que chamas amor – noite vem – noite não.
Pela lógica que é minha e que passas
remota. O não entendimento
é quase gráfico, subalterno
a todos os argumentos. A prisão
ao cigarro em nada é free.
Bebo o prazer de ter dor e fumaça.

21.08.2008

 

NOITE ALUCINANTE

13 nov
01.05.2009

01.05.2009

 

NOCTÍVAGO

07 nov

“Yo solo describo em mundo. Estoy solo.

La soledad es amiga de los roces del cuerpo.”

VIRGÍLIO LÓPEZ LEMUS


Temo que seja dor
o que escondo do olhar no espelho.
Temo que seja desta dor
o enlace da melhor parte.
A de escombros da noite.
O do momento ateu.

Longe dos engates
que o tempo traz,
a luta por paz
nos alija da mandrágora,
que origina a delícia.
Frutificamos pelejas,
à espera da chuva,
a nos abrandar
enquanto debaixo da terra.


.

 

SINOS SILENCIOSOS

07 nov

Porto no bolso a espera
na síntese do que emboca,
a cada dia que deslizo
dentro de meus mares.

Que rejeita os sinos
os fogos e o gozo
que morrem em véspera
do que me anunciei.

Tudo se posta tarde,
passado e côncavo
na saudade de mim
quando nunca fui.

Um espelho torto,
dragão e fomentador
nem me reflete
nem me abjuga;

apenas mostra um rosto
que fustiga o que de mim
escorre e não me deixa
nascer o que me conclui.