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‘2002 - TEMPO DO MEU TEMPO’

24 jul

2015-07-24 12.51.54

 

MEUS VERSOS

21 nov

Meus versos estarão prontos

Assim que eu morrer

Pois são versos consagrados à vida

O exercício de ceder


Meus versos estarão ao lado

Do dia que anunciar a morte

Pois são versos detalhistas e frios

Como minha própria sorte


Meus versos estão no fundo

Da alma em profusão

Pois são versos irrequietos

Que pululam no coração


Meus versos estarão cegos

Assim que a luz expirar

Pois são versos de escombros

Nascidos sem luar


Meus versos serão eternos

Quando todo o mundo acabar

Pois são versos atlantes

E devem voltar para o mar


Meus versos ficarão doidos

Assim que o riso passar

Pois são versos do palhaço

Que mesmo morto, continua a rodar

.

 

LITERAR

21 nov

receio os dogmas de como fazer

recheio os poemas de puro prazer


abomino as cartilhas que dão de beber

ilumino os cantos com bem dizer


ponho na roda mestres do entristecer

vou ao canto do amanhecer


se tenho que expressar e viver

abstenho dos tempos de aprender

 

ELEGIA ATUAL

21 nov

ninguém me escuta

ninguém me lê

ninguém me chuta

ninguém me vê


ninguém me cheira

ninguém me fala

sem eira nem beira

saio da sala


não que não tente

acender a luz


ninguém me mente

ninguém seduz

.

 

DESTINO

21 nov

enquanto a vida passa
e os olhos assistem
a poesia cutuca

 

CASULO

21 nov

por mais que lugares

toda minha vida morei dentro de mim


ciranda que falta o ar

consciente a divagar – provi linhas próprias


perpétuas desforras

escondi do espelho a face do mundo


morei sempre em nós

retalhei a vida e não retirei a casca


o que fiz e não

foi o abandono ao sol

.

 

REALIDADE

21 nov

não me abasteço mais

de Drummond ou Kerouac


tempos de intrigas

necessidade de feijão


a velha louca abandona

o cemitério


traz consigo dores

e uma preguiça jamais expiada

.

 

TEMPO DO MEU TEMPO

21 nov

temo o tempo que passou

o não colhido

temo o tempo de aportar

o do fruto


temo o tempo, o pior tempo

o dessa lua

temo tempo absurdo

de que nada morre


temo o tempo que não tenho

e o que devo

temo o tempo de lembranças

e a quem ficou devido


temo o tempo da espera

o encolhido

temo o tempo de dizer

o que ficou elidido


temo o tempo do meu tempo

o tempo danado

mais que amor o temor de um tempo

que não me foi dado


temo o tempo acordado

e o tudo sonhado

neste tempo de estado

de um tempo ansiado


temo o tempo de cócoras

e olhar vagueado

neste tempo de vigília

de olhos cerrados


temo o tempo de temer

que é temporário

tempo de todas as forças

em sentido contrário


temo-te

tempo


temo-te

tanto

tempo de

pranto

temo-te


temo-te

nos cantos


temo-te

vento do tempo

voltário


temo-te

muito, movente

tempo vário”


o tempo é temerário

aos olhos

dos que cruzam a ponte de um rio seco

.

 

DISPERSÃO

21 nov

ao amigo fraterno alço súplicas

ele me orienta: vender hot-dogs

como sempre, os muros

desta vez, Confúcio


e como nada percebo

nossa conversa deriva pelo irreal

ansiamos encontros no bar

no remoto bar da esperança


lá ouviremos uma cantora maltratada

e reclamaremos dos psico-terapeutas

.

 

A UM AMIGO

21 nov

amor é palavra e é mais que ambíguo

pode ser amiga

pode ser solidária

pode ser undo

pode ser janela

pode ser um mundo

pode ser por ela


amor é palavra e é mais que ousado

pode ser serena

pode ser levada

pode ser de mãe

pode ser pequeno

pode ser um raio

pode ser ameno


amor é palavra e é mais que gasto

pode ser ouvida

pode ser que basta

pode ser por uma

pode ser por ser

pode ser imune

pode ser padecer


amoramigo

é mais que palavra

e deveria valer

.