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‘- POEMAS’

MOMENTO

26 nov

com a sensação

de que não queria

estar aqui agora

junto com a sensação

de que agora não

saberia dizer onde

gostaria de estar

23.11.18

 
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O MURO DE PEDRAS

26 nov

fixo no muro de pedras

outro olhar

o da fantasia

vejo rostos disformes/

mitológicos

que deveriam assustar

posto estarem na posição e essência

de espelho de labirintos

pronto a vasculhar o que penso (e vejo)

enquanto doido

na banda

em que transito a maior parte do tempo

a razão – censora da mente

previne serem as pedras colocadas por gente

supõe um pedreiro que não tinha tempo

para carregar um escultor em si:

sobrepôs pedras como seu ofício

sem a doença de pensar em legado

(jamais sonharia em desvendar almas)

mas o muro ali está

pequenas manchas

(heras?)

me repartem

entre nossas existências

a janela que sequer se surpreende

como cúmplice de um vagar de espírito

os rostos ali pontificam espectros:

máscaras que um dia terão vida

aprumam versos de como resistir

contra a irrealidade de pântanos

que tende a deixar marcas

21.11.18


 
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PÁSSARO DE INVERNO

26 nov

trago a vida de hoje

como  passos sem roda

na cidade despreparada

para sonhos lentos. junto

com escadarias (muitas)

coleciono anacronismos.

meu pai sentenciou

num dia de riso de largueza

cínica: sou do contra:

tomo banho em águas de rio

ainda não passadas.

nas  tardes

sento em nuvens

por aí

pulverizado

como um plural.

19.11.18

 
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CASA DE ONTEM 5

19 nov

a rua solarenga de minha infância

me intuía:  as diferenças

entre os seres que lá habitavam

mostravam que daí seriam a vida

e suas vielas a arcar – colorário

de frestas

muros múltiplos

e esperas da morte

(anos depois sinto que meus sustos

foram falsos – já tinha em mim

todas as jornadas sentidas)

17.11.18

 
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A NOTA

09 nov

um nota desafinada

no piano da sala

um fá sustenido ali na terceira oitava a ecoar cacete

sobre o mundo em dias esgotados de tanta elegia

poderia ser de um noturno sem força

ou da mazurca que sobre o pentagrama marcha

com o  desleixo da nota na exiguidade do prumo

ser de um acorde a nota mais suja, a servir

de berço ao improviso mais negro, mais belo

um balanço ao corpo curvado de tanta memória falsa

a nota seria um rastro de fogo para a sala

que não existe mais

a ilusão de sonoridade que saísse como um bicho

sai da terra, filha da tecla desajustada e inútil

na  verdade apenas a aguda locução

de um bico, nascida na portinhola do cuco

no alto do estar só

do também ser nota alta como um grito

a embalar tardes e intuições

destas do agora desespero

por um piano que, pelo afã de existir,

nunca esteve naquela sala

3.10.18

 
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DESATINO

03 nov

Sou a nascente das solidões

perdidas em camas e casas

sem lençóis e telhados à vista,

com tapumes e olhos tristes.

Sou o sem irmãos ou o irmão

de coisas e fantasmas do éter

das ondas do rádio, imaginadas

aventuras e invejas de santos.

Eu sou de terras não minhas,

mas que sempre me desnudaram

frente aos monumentos dos largos,

dos mármores e lápides e pompas

em que sucumbi por um olhar

de falso entendimento, um riso

ou estranhos encontros da vida

com outras tantas desbotadas.

Eu sou da água que escorreu

por anos por sobre a calçada

que nas noites se transformavam

em palcos que se congraçavam

por gritos e correrias a afastar

horas de se afligir com a vida,

temores e culpas ancestrais

semeadas por mentes de gelo.

Sou o que recorda sem saudade.

O que luta no fugir ao que teima

em reacender totens e prazeres

que não passa fácil por ser dor.

Sou o de ter ficado sempre à janela.

Mas a fechada, de frestas venezianas.

O que via me ajudava a desamparar

todas as palavras e gestos de afago.

O Universo estava lá fora com setas

que medravam ao mais simples olhar,

ao toque prístino que amortalha.

Sou o de olhos fechados a ver a vida.

Posta naturalmente, a miopia

impõe-se como uma clara visão

do que se ancorou no passado,

por vezes praia, em outras lama,

como as pretensas religiões,

fogaréu na Terra, cinzas no Céu.

Sou mais um verso inacabado,

rascunho que se perdeu a cópia.

O livro fechado em palavras

escorridas pela mesa de madeira

antiga, que resiste, em gritos secos

ao que ouso chamar de Destino.

31.10.18

 
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03 nov

1.

um pacto fervilha entre nós e feridas

como um rito de castidade

como um pecado alado

um poço sem eco

um mínimo

de sangue de loucos e babosos ancestrais

de uma caverna no Himalaia

de uma oca da serra do Roncador

da sacristia ausente da sensatez

a poesia sem disfarces

vive

bêbada de tantas caras a ela imposta

seu mundo é a complacência

mesmo com o claro riso claustrofóbico

2.

ao longe é a expressão de minha vida

ao longe do tempo

ao longe do lugar

ao longe das gentes

ao longe da fogueira

ao longe da era

ao longe do casulo

ao longe das atas

ao longe das asas

só me contrariei quando dentro

do desejo

não tão longe assim

3.

sou o filho de algo

não fidalgo

que perambula entre cacos

e perguntas

sou filho do não entendimento

entre o verão e a primavera

sou a cria entre patologias

não desconfiadas

não afloradas

que morrerão depois de mim

(palavras pelas frestas

da inexistência)

:sou o não sou

4.

por falta de desespero

nunca gritei

  • cancela a cancela!

por acomodamento e sono

nunca bradei

  • cancela a cancela!

por ser quem sou e fui

sequer sussurrei

  • cancela a cancela

todo o caminho para mim era toca

sapatos e calos

5.

pedaços esgarçados são arrancados

de nossa história

a cada morte de quem amamos

25.10.18

 
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OUTONAL

19 out

tempo de morrer

(amigos e inimigos)

conhecidos

aquele radialista

o compadre poeta

o fotógrafo

o da esquina (tanto tempo faz)

o mundo cheio

de gente nova

fica vazio

fica menor

fica o mundo

a sós

16.10.18

 
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À SOMBRA DAS URNAS

15 out

A arandela quebrada

insinua que a tristeza

instala seu mal cinza.

Pela mão que aciona

a tela que traz o vário,

que faz como um raio

espalhar fel como bala

por todo o momento

que átimo antes flor

silvestre em foto era.

Inundados para sempre

sem trégua ou lanche

que as tardes de ontens

supriam em vontades

mais domadas, filhas

do pensamento, Musas,

diferente das de agora,

espumantes chafarizes

de ausência da Ética

e de tudo o mais claro

que se possa respirar.

Mentes sem armistício,

longe da flecha da paz,

olhos do touro no olho

do matador, às urnas vão

destilar algo não cívico,

ao largo da humanidade.

Entremeios, a cidadania

rareada cada postagem,

cada notícia, cada fala,

sofre um abandono pátrio,

ao se descobrir toda nua,

emudecida pelos tempos

que formatam nosso hoje.

11.10.18

 
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DIRETO DE UM DIA COMUM

06 out

No caminho há pausas

para o cavalo alado

que pasta na mente

e nos sonhos. Mesmo

que sejam despojos,

insistem  em perolarem

dentro da perplexidade

do frágil permanecer.

Do roto espanto – a vida

a estocar frutos e sinais

de que à tudo resiste

se há algo que se ame.

Como a cola nas patas

do inseto sobre o chão

que exempla a luta vã

mas necessária ao dia

em que foi de Sol, cães,

pessoas sem olhos,

fúrias  e ancoragens

até o íntimo ocaso,

de bares e colcheias,

(a utopia do entardecer)

a partejar a incerteza

de que ainda estamos

no baile que um sultão,

doido de tantos desejos,

promove à sua roda

e nos intima a dançar.

28.9.18


 
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