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‘POEMAS DIVERSOS’

29 jun

Um anúncio de bar

me puxa pelo braço:

dois disso mais um

daquilo pelo preço

de menos um seja lá.

Não me apetece.

Mesmo assim com

olhos de estômago

no amarelo cartaz,

descomo um poema

e penso no Oswald.

10.4.17

 

EUCLIDIANO

16 jun

forte tino

sol

enxada à pino

solo

crendospadre, desatino


a sorte

o corte cerce

de ser dor, destino

30.10.91

 

FILMES TCHECOS

16 jun

I

A vingança da viúva negra

Foi logo após o amor

Não foi o machado

Não foi o fuzil

Foi logo após o amor

Tudo de passou em branco e preto

Com agradável cheiro de eucalipto

II

O adolescente criou

Sentiu nos olhos a incapacidade de grande guerra

Logo amou

Fardado de leviandade

Coçou o ouvido esquerdo

E morreu

A fumaça da locomotiva

Contou esta fábula

Em dezesseis milímetros

III

Afirmou a covardia

Temendo não mais lavar seus pés

Na água quente (morna)

Ficou a vender

Botões e fitas de rendas

Sangradas e inexistentes

Deixou-se lamber pelo cão pedrês

Sonhou um homem iluminado

No mundo fascita

Sonho cadáver no seio da manhã

Das marchas e diáspora

Era (foi) um ladrão de verdades

14.12.74

 

A RECORRENTE

15 jun

A minha solidão nasceu

de uma esquina não dobrada,

num tempo descompassado.

que não guarda certezas

lembranças  ou imagens.

Pode ser até um todo do tempo

que tive, um sem cessar carrossel

sem música.

Fiquei só por estar ao longe

do que não me faria sentir estranho.

(na verdade

nem sei se minha solidão nasceu

pode ser uma natimorta

e a esquina nunca existiu

e eu apenas um alguém

com a cabeça sob um eterno sereno)

12.7.18

 

MULETAS ELETRÔNICAS

15 jun

Um relativístico a quicar

defronte olhos cansados

de ritos, quase mitos,

impregnam-nos de muletas

eletrônicas.

Imagens já obsoletas

as que nasceram

no último por do sol,

trôpegos em Android,

fraturas em IOS.

Não há mais tempo

de expiração. Vivemos

um preceder dentro

de um brejo.

16.6.16

 

POTE DE OURO

15 jun

O poeta sabe onde pisa

se pisa no seu vácuo.

Um estado assim

de considerar como seu

pote de ouro,

sua cabeceira da cama.

Sabe andar nas estrelas

e não cultiva flores no chão.

O poeta finca

mistérios não seus,

mas nunca nina

suas palavras consumadas.

O poeta é todo busca

mas não sem fim

posto a poesia ser finda

em si mesma, companheira

eterna de instantes.

Com um palito de fósforo:

único, solitário e essencial.

19.11.11

 

GÊMEOS

14 jun

Entre eu e Fernando Pessoa

há, além do junho,

um Mário, como maior amigo.

De resto, doei-lhe

meus olhos a vida inteira.

25.1.13

 

REBELDIA

14 jun

A minh’alma,

dona de seu nariz,

já me deixou claro:

“não podes comigo”

Mas prometeu

momentos em

que eu possa

orgulhar-me dela.


Enquanto espero,

sinto-me como

os dois Taviani(s)

tentanto domar

Gian Maria Volonté.

(Engraçado é que eu pensei neste poema

como um libelo contra a delinquência

metafísica.Acabou-se em viagem.

Entre continentes e metáforas inoportunas;

no final, tem até um sorriso meio alquímico).


21.7.13

 

A LUTA IMAGINADA

14 jun

Uma guarânia pinça

jeitos de lutas de ontem.

Feitos deixados, morgados

em sabor de abandono.

Sono e cartapácio imóvel

como estante do tempo,

como gestante de entes,

como negligentes crivos.

Motivos infremes de apesares

mascarados de vontade,

descerrados de fazeduras.

A luta que não houve

passou, mas rastros

incidiram sobre atritos.

Detritos de covardia no dia

em que a noite escorreu.

Volto a um grito latino

deixado para trás.


Volto sem campo

nem brigas de ferozes,
como pensamento.

Ribalta para a poesia.


11.10.14

 

LABIRINTO

14 jun

Perdi o silêncio da vida.

Um sopro marítimo

e desavisado me atordoa,

como o sustentar de pequeno

míssil. Adensa dentro de mim,
contínua e ortodoxamente,
um canto de febre.


26.1.16