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‘- POEMAS’

DO APOCALIPSE ÍNTIMO

26 set
espectros da noite assombram
curvas da tarde como maré:
alta onda que avança lambendo
o fim do dia de um fim de ciclo

paixão posta a termo
um de profundis na pele
o último sexo pleno de trombetas
queda de wi-fi
boca toda seca
nos dedos
nos bolsos
nas gentes
nos dentes cerrados
nos gemeres e sentidos e cios
nos afazeres incompletos
no olíbano que no ar lento queima
no tuíte sem lógica para um quê

na toca o baseado no toco
resto de nina no piano
o copo
o corpo
espada ouro paus
as costas
as dores
o embaçar dos óculos
dos olhos
do amor

nuvem de penumbra a proclamar
que o dia está morto

o ocaso não foi além
de se sentir aquém
 
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LEITURA

03 jul

Deparo com a palavra desconhecida.
Tento intuir o que seja, o que me diz.
Apelo ao contexto da frase, do parágrafo,
da história,, do que já percorri, do copo
sempre cheio do autor. Nada.
Despudorada, rainha e fatal,
Desafia-me e chama de tolo.

Vou ao dicionário.
Lá está ela. Soberba,
já sem o mistério de antes,
mas com o mesmo sorriso de anjo
e meretriz que adivinho que desde
a escolhida. Se pudesse falaria a ela.
que a sonoridade que retumba
é maior que o seu reles significado.
Talvez a desabasse deste brilho
que atordoou minha vida
de leitor atento, pobre buscador
de vocábulos que me sejam
a combustão dos meus dias.

Não sigo mais a leitura.
Cai  sobre mim um engano de vida toda.
Uma incógnita avassala o pensamento:
ao ler, não sou o dono do meu olhar;
as palavras, frases, linhas e a solidão
do autor que me olham. Que me lêem.
Eles, no instante de leitura são meus olhos,
porta de entrada de meu ser, de quem,
com amável e guerrilheira aventura,
tomam posse. Sem licença ou pressa.

27.6.17

 
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JORNADA ÍNTIMA

22 mar

No espelho,
meu rosto permanece
desde a primeira claridade do dia
como roupa amarrotada
jogada aos pés da cama.

Na rua, um fusca disputa
em decrepitude com o dono
e o banco em que senta. Diz
um bom-dia achado na memória.

O mar me chama e rejeito
a ideia de turismo e cachaça.

Sinto estar no exílio
em qualquer lugar que permaneça:
cidade, quarto ou biblioteca.

Um verso rebate a noite já morta
tentando impor uma cortina
ao que já nasceu devassado.

Mas o dia em meio a tudo isso
traz pequenos afagos ao coração:
os olhos do cãozinho abrem
caminho ao que escondo de mim
tentando suprimir momentos.

Por fim, iluminando o mundo,
minha neta que vem chegando,
anuncia-se como fogo de esperança.

Aí me vem o arrependimento
de não confiar nos bons presságios
da manhã que não abracei.

E de não ter sequer cortado a barba.

17.3.17

 
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POEMA

11 fev

Nunca se acolha.

Deixe-se à deriva,

em versos soltos;

loucas rimas nuas,

palavras tão livres

como um coruja.

Escreva uma carta

para seu exterior.

Avise que tardará

seu retorno ao chão:

quando a angústia

deixar seu ar voltar

e seu grito emudecer.

2.2.17

 
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O MUNDO EM MARCHA… À RÉ

08 fev
estamos no intervalo do tempo
em que soltaram os cães
sobre a
sobra do que era cidadania
sob rédeas e coleiras nos pescoços
dos 99% da humanidade
estão aproximando asteroides
letais sobre as cabeças
dos 99% da humanidade
falam-se em muros
em mulheres obedientes
decretos assinados em ritmo de blitzgried
quiçá a volta da escravatura
para
no mínimo aos 99% da humanidade
uma degola à tarde
outra pela manhã
saciando o mundo de Debord
aplacando a volúpia de poder
a que assistem desanimados
uns 99% da humanidade
os que comem biscoitos da Nestlé
os que tomam Coca
os que levam balas de fuzil
viram alimentos quando se alimentam
por isso pode fazer falta:
grãos que são
enchem o papo
de quem o tem imenso
sem fundo
furado
(é bom os 1% repensarem
e se coçarem
senão a farra humana acaba)

27.1.17

 
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TOM

25 jan

o Tom é tudo
é o acorde que não dói
a nota que sorri
o passarinho assanhado
a nuvem ligeirinha
a mata em jogral
o rio do assobio

o Tom é tudo
é o tom do Brasil sonhado
é o som do sempre nunca mais
é a manhã do amanhã
é o dia que substitui todos os dias
é a chuva da promessa de vida
é o coração

é nosso, o Tom

me dá um abraço, Tom?
é só para eu chorar um pouco
25.1.17

 
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O PARTO

24 jan

O poema se alça por si mesmo. Quando grita e flui. Quando as palavras arfam e amedrontam de brilho. Tornam-se pedras de valia, pedaços de mundos unos, desabrochadas placentas. Quando não obedecem a um grito, a uma ação de espreitar a dor, a fúria, seja com olor ou sangue e despejo no caldeirão que o habita, que o recebe, que o hospeda vida afora, onde aguarda o que será a deriva de um sentimento para o transformar em flor, riso ou desabafo noturno; aquilo que a forja criará com vocábulos recolhidos em brenhas de poesia. Estranhas de novas vidas, parturientes e alucinadas, ao perceber novas roupas, novos condões, as tezes que o poema lhes propôs ao tirá-las de seus berços perenes de um dicionário. Nesse momento, o amor, inesperado e encapsulado aflora como ser matinal, como um rosto aparecido na esquina da vida, curva no caminho do Sol, festa e ar em forma de nuvens a bradar poesia e vitória: está pronto e renascido aquele que vem onda, correnteza e avalanche: o poema e sua história. Vem de mil formatos e tinos e compreensões, vem rasgado, inteiro, alto som de bardo, silencioso como a última dor da noite, bêbado como um acordar, choroso como  abandono, espetáculo como o luar. Chega despejando cactos, redistribuindo beijos, como cálida reprodução de ovos, chega parasita do corpo, aprisionando os sentidos, explodindo vícios, lambendo o chão de tanto orgasmo, sem temer sequer a gaveta que, sabe ser seu destino, sua lápide, seu profundo leito. Vem cumprindo seu papel: o de carroça que traz à tona da vida o desespero de alguém, a inquietude dos seres que não se satisfazem com a dúvida de viver, com a força do cinza, ou com a sempre mente noctívaga e obliterada. Vem para o mundo já se proclamando como o grande mensageiro daquilo que chamamos farsa.

21.1.17

 
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21 jan
A minha certidão de nascimento
prova que nasci em certa data.
Mas a prova de que ainda vivo
são minhas contradições, que,
quando lógicas, revigoram-me.

20.1.17
 
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09 jan

Faço uma ponta no mundo
(fugaz e exclusa) como poeta.
A palavra tornada minha
no nosso colóquio, foge
carregando minhas dores
em suas costas – redistribui
seu afeto por uma ou outra
esquina e esvoaça relâmpago
depois junto ao sol poente
resguarda como se fosse (e o é)
serva da natureza humana.

6.1.17

 
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08 jan

Chegaste tão mansa
que pensei outra coisa.
Com o sentido ocasional
da surpresa pensei amor.
Há muito só em partidas
sem o que se pense ou doa
chegaste como um sonho
acomodado no passado
da foto
de cigarro entre os dedos
e um olhar de Kerouac.
Chegaste a benvinda
de outrora, chegaste
como quem chega
fora de hora.


5.1.17

 
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