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‘- POEMAS’

ESTAMPA DA PRESSA

21 mai
1.
o tempo  hoje farfalha
sobre rodas que nem o chão tocam
nossas mãos não mais se sujam
ao som de facas cortando laços
nem a resposta da dúvida acelera
por não ter a dúvida a prosa
por não ter nem mais a rosa
senão a rosa da tela sob comando
de pequenos botões ocultos
no acende/apaga que não é mais vagalume
não é mais Morse
não é mais relutância de bêbado
nem um disco voador sobre o teto
nem um verso do poeta em azedume
o que não foi
não será
não importa
visto que tudo é presa fácil
para a  vasta civilização
que precisa se preocupar em ser
de dentro do próprio tempo
este tempo sem volta
necessitando ser reconhecível

2.
não há mais espaços vazios
dentro dos tempos vazios
a que assistimos passar
não há folha que cai
não há um sorriso de retaguarda:
só um caminhar frontal
incessante
cego
impaciente.
conversas ceifadas e encontros
memoriais não há mais
nem tempo de solidificar
imagens de calendários
não há calendários nem parede
em todos os olhares
apenas a estampa da pressa
como desespero de junkie
volúpia de poder
falta de ar que implorauma janela aberta

não há como sequer apalpar
o que se incrustou de vez
neste desorientado alípede
que um dia
não remoto,
chamávamos de agora

tudo virou amanhã neste planeta.

 
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JORNADA ÍNTIMA

22 mar

No espelho,
meu rosto permanece
desde a primeira claridade do dia
como roupa amarrotada
jogada aos pés da cama.

Na rua, um fusca disputa
em decrepitude com o dono
e o banco em que senta. Diz
um bom-dia achado na memória.

O mar me chama e rejeito
a ideia de turismo e cachaça.

Sinto estar no exílio
em qualquer lugar que permaneça:
cidade, quarto ou biblioteca.

Um verso rebate a noite já morta
tentando impor uma cortina
ao que já nasceu devassado.

Mas o dia em meio a tudo isso
traz pequenos afagos ao coração:
os olhos do cãozinho abrem
caminho ao que escondo de mim
tentando suprimir momentos.

Por fim, iluminando o mundo,
minha neta que vem chegando,
anuncia-se como fogo de esperança.

Aí me vem o arrependimento
de não confiar nos bons presságios
da manhã que não abracei.

E de não ter sequer cortado a barba.

17.3.17

 
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POEMA

11 fev

Nunca se acolha.

Deixe-se à deriva,

em versos soltos;

loucas rimas nuas,

palavras tão livres

como um coruja.

Escreva uma carta

para seu exterior.

Avise que tardará

seu retorno ao chão:

quando a angústia

deixar seu ar voltar

e seu grito emudecer.

2.2.17

 
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O MUNDO EM MARCHA… À RÉ

08 fev
estamos no intervalo do tempo
em que soltaram os cães
sobre a
sobra do que era cidadania
sob rédeas e coleiras nos pescoços
dos 99% da humanidade
estão aproximando asteroides
letais sobre as cabeças
dos 99% da humanidade
falam-se em muros
em mulheres obedientes
decretos assinados em ritmo de blitzgried
quiçá a volta da escravatura
para
no mínimo aos 99% da humanidade
uma degola à tarde
outra pela manhã
saciando o mundo de Debord
aplacando a volúpia de poder
a que assistem desanimados
uns 99% da humanidade
os que comem biscoitos da Nestlé
os que tomam Coca
os que levam balas de fuzil
viram alimentos quando se alimentam
por isso pode fazer falta:
grãos que são
enchem o papo
de quem o tem imenso
sem fundo
furado
(é bom os 1% repensarem
e se coçarem
senão a farra humana acaba)

27.1.17

 
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TOM

25 jan

o Tom é tudo
é o acorde que não dói
a nota que sorri
o passarinho assanhado
a nuvem ligeirinha
a mata em jogral
o rio do assobio

o Tom é tudo
é o tom do Brasil sonhado
é o som do sempre nunca mais
é a manhã do amanhã
é o dia que substitui todos os dias
é a chuva da promessa de vida
é o coração

é nosso, o Tom

me dá um abraço, Tom?
é só para eu chorar um pouco
25.1.17

 
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O PARTO

24 jan

O poema se alça por si mesmo. Quando grita e flui. Quando as palavras arfam e amedrontam de brilho. Tornam-se pedras de valia, pedaços de mundos unos, desabrochadas placentas. Quando não obedecem a um grito, a uma ação de espreitar a dor, a fúria, seja com olor ou sangue e despejo no caldeirão que o habita, que o recebe, que o hospeda vida afora, onde aguarda o que será a deriva de um sentimento para o transformar em flor, riso ou desabafo noturno; aquilo que a forja criará com vocábulos recolhidos em brenhas de poesia. Estranhas de novas vidas, parturientes e alucinadas, ao perceber novas roupas, novos condões, as tezes que o poema lhes propôs ao tirá-las de seus berços perenes de um dicionário. Nesse momento, o amor, inesperado e encapsulado aflora como ser matinal, como um rosto aparecido na esquina da vida, curva no caminho do Sol, festa e ar em forma de nuvens a bradar poesia e vitória: está pronto e renascido aquele que vem onda, correnteza e avalanche: o poema e sua história. Vem de mil formatos e tinos e compreensões, vem rasgado, inteiro, alto som de bardo, silencioso como a última dor da noite, bêbado como um acordar, choroso como  abandono, espetáculo como o luar. Chega despejando cactos, redistribuindo beijos, como cálida reprodução de ovos, chega parasita do corpo, aprisionando os sentidos, explodindo vícios, lambendo o chão de tanto orgasmo, sem temer sequer a gaveta que, sabe ser seu destino, sua lápide, seu profundo leito. Vem cumprindo seu papel: o de carroça que traz à tona da vida o desespero de alguém, a inquietude dos seres que não se satisfazem com a dúvida de viver, com a força do cinza, ou com a sempre mente noctívaga e obliterada. Vem para o mundo já se proclamando como o grande mensageiro daquilo que chamamos farsa.

21.1.17

 
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21 jan
A minha certidão de nascimento
prova que nasci em certa data.
Mas a prova de que ainda vivo
são minhas contradições, que,
quando lógicas, revigoram-me.

20.1.17
 
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09 jan

Faço uma ponta no mundo
(fugaz e exclusa) como poeta.
A palavra tornada minha
no nosso colóquio, foge
carregando minhas dores
em suas costas – redistribui
seu afeto por uma ou outra
esquina e esvoaça relâmpago
depois junto ao sol poente
resguarda como se fosse (e o é)
serva da natureza humana.

6.1.17

 
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08 jan

Chegaste tão mansa
que pensei outra coisa.
Com o sentido ocasional
da surpresa pensei amor.
Há muito só em partidas
sem o que se pense ou doa
chegaste como um sonho
acomodado no passado
da foto
de cigarro entre os dedos
e um olhar de Kerouac.
Chegaste a benvinda
de outrora, chegaste
como quem chega
fora de hora.


5.1.17

 
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POÉTICA

22 nov


Ler o silêncio.
Ouvir o branco do papel.
Falar com o luar.
Regedor, o verso
cheira a casca de ovo
e põe-se a sachar
na palavra
sabores da noite.

17.11.16

 
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