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‘POEMAS DIVERSOS’

INSANA GAZA

14 jun

Cada lado tem o que finge trégua.

Cada vida tem o que tange entrega.

Na parede antissanidade,

os tempos asseguram no homem

de sempre – o da escuridão,

a lança da morte do poder

e do desejo, a involutiva força

sem memória,  o leito seco do rio

da vida,  que se esgarça ao beijo

do míssil, que se revela ao desnecessário,

que se esfarinha ao poder de Deus,

que se marina como peixe

mesmo se dentro da escola

ou segurando bonecas.

Cada lado sua loucura,

cada canto sua alegria

cada cego que torna inválido

o cérebro da humanidade.


2.8.14

 

IL PRIMO

14 jun

Ao Drummond

Antes de tudo, um sorriso

de criança. Antes de qualquer

verso  que nasça do quadro

na parede. Antes da festa

de interior que vire universal.

Antes de ganhar na loteria,

campeonato encruado,

saída do poema cá dentro,

pular a fogueira da aporia,

e o tudo. Então, antes do tudo,

o sorriso de uma criança,

nasça onde nasça.

Antes de tudo, o sorriso.

Antes do Modigliani,

da Parker 51, do posto

de capitão, gritar “toqueiro-primeiro!”

Enfim,  nada que preceda

o sorriso desdentado

e sedento de ambrosia

de uma criança. É isso,

antes de tudo,
do Gênesis, do Big Bang

e dos dinossauros,
bem antes da fé, o sorriso.
Da criança que, um dia,

já foi o mundo.


21.11.13

 

OUTONAL

14 jun

A música silencia a dor.

O verso emudece a humanidade.

A flor é instante mesmo sem cheiro.

O prazer é uma garrafa de água mineral.

Nua, a alma

não aceita contradanças.

(início, fim

ou alguma coisa entre?)

9.10.16

 

TEMPO DE DESVÃO

04 jun

Mornado o renque de estames

que conduziu como vagões

minha vida desde o instante

que sem pré-consulta vim

aviltar as horas de fados

recíprocos e dissonantes,

tenho a sensação de concrescer

em linha rumo ao termo;

ao que denoda a passividade

que esperei como refúgio

nesta fase outonal cujos medos

pulverizam-se em ex-lutas

ao se ter a mescla do não retorno,

da fila que impele,

da entrega maciça de perimir,

da constatação do ciclo.

É quando a caverna da alma

abre o recôndito  à mente

e se busca o peremptório

lugar no mundo outro tanto

prometido, que por tempos

escarnecidos, surge, chave

de um corte inesperado,

que se espera, remando em águas

furtivas, em posses e desejos

que a cada passo nestes dias,

manifestam-se inócuos e frios,

agora com o discernimento

a tolher um passado sonhado,

aunado em tentativas

da inexistência do amanhã.

É quando temos o tempo

fora das nossas amarras,

flutuando em torno, como

sombras, desvaneando

amanheceres longe

do que denominamos chão.


7.12.05

 

MANHÃ DE SOL

28 mar

Saio para a caminhada

e volto com um poema.

Um poema que tinge a pressa.

Que tangencia as expectativas

atléticas. Um poema que ignora

a realidade, sequer nota

os rebentos dos poros.

Um poema além do corpo.

E do mundo.

Saio para a caminhada

e o canto revigora-se.

Enquanto as pernas apenas doem.

28.3.17


 

RECEITINHA

19 out

Ao fazer poesia livre-se de tudo.

E do resto também. Somente

a palavra dada presente.

Nada mais. No momento

da poesia evite o mundo

e o que está fora do mundo.

Não diga nem e nem amém.

A poesia antes de tudo

é liberdade plena e toda sua.

Antes de se incorporar ao Tudo.

17.10.1

 

PORTAIS

18 out

a queda de Lúcifer deu olhos

universais ao Milton

a poesia de Milton deu pernas

sensoriais ao Blake

nesse corolário mágico

eternizaram a palavra eternidade

10.10.16

 

13 out

As palavras vêm em retalhos

salvar o domingo. Caem

sobre meu rosto como chuva.

Um pequeno poema escorre

sobre meu corpo e tatua

em sangue a folha de papel

despudorada e faminta.

9.10.16

 

MADREDEUS

09 set

Quando a voz de Tereza

em conluio com a Beleza,

mostrou minha inocência,

morri. Havia um silêncio

absurdo em  todo o mundo.

Abracei duas lágrimas

bem vivas. Como um novo

parto, Portugal pousou o Tejo
em mim como um corte.
Ressucitei-me de um barco
que não singrava mares.

Apenas flutuava sobre

o Espírito da Terra.

8.9.16

 

ATUAL

04 set
de um lado
um
doutro lado
outro
o do meio
leva o reio
e grita fora Sartre!
26.8.16