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‘2017 - VOZ’

15 out
Lançamento em 3.6.2017, na Biblioteca Padre Euclides, Ribeirão Preto-SP

Lançamento em 3.6.2017, na Biblioteca Padre Euclides, Ribeirão Preto-SP

 
 

15 out

Slide2

 
 

15 out
Para Lucas, Vítor e Theo.




Je ne sais où je suis venu
et où je me inquiète.
Je vis entre la logique et la folie.
Par consequènt, poète.
A.R.






Agradecimentos a Nara Rossetti, pela força.
 
 

15 out
“pra todos ouvirem minha voz
mesmo longe”

O CANTADOR
Dori Caymmi e Nelson Mota




“Se um poeta é dispor de uma voz,
não de um sotaque, nem mesmo de um timbre…

E ser poeta é reunir inúmeras vozes, é deixar-se identificar pela pluralidade vocal,  pela multiplicidade somática, pelo repertório variado de imagens e signos, de conceitos protegidos acusticamente.”

A POESIA EM AÇÃO
Eduardo Portella
 
 

15 out

CAPÍTULOS VOZ 1

 
 

VENTO MEU

15 out
há um vento meu
que não sei se real
ou invento d’arte

já veio como tufão
em verso de brisa leve
já secou roupa molhada
derrubou porta fechada
já confortou meu rosto
levou meu chapéu
trouxe areia pros olhos
poesia nos cabelos dela

não sei se é um vento d’arte
ou um invento meu
só sei que tem faces:

uma me carrega a calma
outra me traz castidade
às vezes eriça meus pelos
liberta demônios rapaces
que assoviam nos sentidos
tem o canto a anunciação
que embala as palmeiras
um vento sim, que inventa
a voga na nota na flauta doce
(podia me levar para o mar)

há um vento todo meu
real ou invento d’arte
de olho nas minhas cinzas
 
 

CENAS & CAOS

15 out
Tenho um roseiral cheiroso
na minha cabeça.
Meu coração confuso
traça ritmos desgovernados
e o roseiral, pobre de ação,
sucumbe ao tremor da tarde;

eterna a luta dos pássaros
que em mim comem sobras
e só voam quando o inverno
vem aonde pouco se espera.

Tenho um roseiral tenebroso
quando fujo das esquinas.
Meu coração só desperta
se trago versos lacônicos
e o roseiral, rico de fel,
ressurge ao lamber dos lábios;

eterno o passar de intenções
que em mim brotam armadilhas
que nunca voam no estio
nem nas madrugadas úmidas.


tenho um roseiral acintoso
quando bato em retirada.
Meu coração cansa sempre
antes que eu diga a palavra
guardada desde a primeira
máscara que nem lembro mais;

terna a ambição de viver
que em mim perdura
que nunca saiu de dentro
da sombra de outra sombra.

Tenho um roseiral cheio
de rosas vermelhas
mas não colho nunca
e o tempo se encarrega
de trazer o mofo pelo vento.
 
 

BUCÓLICO

15 out
pela janela
a rua se abre
vazia

um pássaro bica o silêncio

tudo seria claro
puro e manhã
se lembranças fossem mortais
 
 

UM VELHO VASO

20 set
solidão é não enxergarem você
como você
não suspeitarem de sua alma
não quererem sua sensibilidade

olharem você sem zelo
(sem vê-lo)
com olhares de sorrisos inarmônicos

solidão é estar rodeado
e permanecer como pedra
temor de escuro
cinema abandonado
um buraco na madeira podre
que sustenta o velho vaso de antúrios

solidão é olhar você até doer
sua invisibilidade
que só se esvai
quando se retorna ao estar só
com palavras mudas
- almofadas de silêncios
 
 

DA DOR SEM DOR

18 set
como soluço contido
vômito que não fora
hora apartada do dia
a pele que empola
(na memória apenas)

a dor sem dor é abismo
mais: vontade de dormir
tempos sem medidas
de morrer mais de uma vida
sangria seca pedra e poeira

a dor sem dor sendo muda
não porta regougo nem foto
do pus que torto produz
o semblante medo espelho
parto simples do agouro

a dor sem dor – neblina
e noite sem riso copo vazio
vastidão de alegorias
colheita de tristeza
encontro do gestual pênsil

a dor sem dor é recordar
é constranger a estrada
que se guiou e não chegou

a dor sem dor de ser cego
por dentro da dor de dentro
da dor invisível
em que não se credita

a dor que grassa
que nasce pelo baldado
morre dúvida, não passa

a dor sem dor
é a dor do que foi feito
a dor sem dor
dor do desfeito