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‘2017 - VOZ’

FOBOFOBIA

21 mai

Ao Guto


três pessoas passam:
cruzam
trocam caminhos com meu temor

três pessoas passando ao redor:
instintos babilônicos
decretam-se em sustos
entrelaços
- pés em redes flutuam
no átimo da calçada e pavor

três pessoas no espaço e no tempo:
sorvedouro de pedaços de vida
instante do olhar encriptado
síntese de mordaça
o anonadado

três pessoas passaram e deixaram sem saber
como um prelúdio de morte um rastro de asfixia

três pessoas ao longe:
soçobram raios de sol inférteis
pequenos tremores de aguardo
pela nova estação

 
 

REVOLVER

21 mai
(da crônica da Ely)
o ciclo fechado
tenta
fustiga
soluça por um novo horizonte
a decisão chora
sobre a lâmina
abrir esta porta
é despactuar
com o destino
que corta fundo
a possibilidade da linha reta
entre tempos desiguais
 
 

GALHOS SECOS

21 mai
a poesia se desmancha nas barbas negras
do Estado Islâmico
o verso não resiste à degola da ausência lírica
na obsolescência de um estado onírico

tudo se torma pasmo
bárbaro
destruidor

uma estrofe nasce feito punhal
malévolo
insensato
tonel fechado com sete demônios

a ira divina abatando feito foice num Ocidente
de dentes arreganhados
lábios ressecados
gargantas aprisionadas
gritos mudos em pânico

homens que não são homens
galhos secos apenas

frutos descompostos
podres adubos
 
 

O HORROR

16 mai
a degola do Conde D’Eu
a degola da Ilha do Desterro
a degola de Canudos
a degola em nossa imaginação
a degola do Isis

a degola como imagem tácita do horror
degola nossas retinas e compreensão

 
 

SORRISOS SEM LEMBRANÇAS

16 mai
na Síria
dias moídos
homens considerados repolhos
as mulheres e crianças
(femininas que são)
couves-flores
caem do caminhão nas estradas

na Síria
dias tarados
a imbecilidade campeia
amorfa e decidida
na cabeça dos homens
que um dia nasceram
sob sorrisos sem lembranças
sob a maternidade incrédula
sob a memória disfarçada
sob um sol de um país multado
transformado em depósito de legumes podres
e
futuro de sepulcro

na Síria
dos dias inférteis
existe um país a se exumar

 
 

PIT BULL IDEOLÓGICO

01 mai
aquele cão
não
uiva em cerimônias
de luar

aquele cão
não
deixa marcas de urina
mas é uma usinas
de marcas

aquele cão
não
dá a pata
da a data
para você viver
ou morrer

aquele cão tem poder
de foder

lhe dar ração
e fazer você comer
 
 

27 mar

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DESACOMPANHADO

27 mar
Afastem o poema de Philip Glass.
Afastem o poema de Renoir.
Afastem-no de Cartier-Bresson.
Eles têm em seus bolsões e cavernas
sua própria poesia.
Livrem o poema daquele piano
que infecta a palavra escolhida
como a filha herdeira,
como a pepita antes encravada
nas profundezas de seu âmago,
como a gota de orvalho
que matou sua sede na última madrugada,
como o seu melhor orgasmo.
Dê ao poema apenas o branco do papel
onde brilhará como a vida lhe requer.
Dê ao poema apenas o branco do papel
onde brilhará como a vida lhe requer.
Dê ao poema a solidão desejada,
de onde ele compartilhe sua beleza nua,
sua força lapidada a duras escolhas,
seu partejar catártico,
seu painel de adjetivos e vírgulas recusados,
seu recado às involuções do mundo.
Seu papel no mundo.
O seu mundo. Deixem o poema
transpor seu dialeto a que foi finalizado.
Deixem-no respirar. Em paz.
Só assim a poesia o cavalgará
por campos da sutileza das palavras ecoadas.
Ou de seu sagrado silêncio.
 
 

LIÇÃO DE POESIA

25 mar
Ando bêbado de Mario de Andrade.
Matando saudade da língua portuguesa,
flano por uma São Paulo
cujo tempo, estático,
fixa seu porvir apenas na aurora.
Nâo há minutos, dias ou tardes:
apenas versos escorrem
pelo Tietê. Inundado de Brasil
 
 

POEMA RABUGENTO

25 mar
musicar um poema
é desmusicar um poema

como um prêt-a-porter
no Davi de Michelângelo