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‘2017 - VOZ’

VENDREDI, 13

03 jul
Vejo-te, sem graça, arrancar
um fio de cabelo indesejado.

Da janela do quarto assisto
um homem correr do sábado.

Um ônibus passa bem devagar
apinhado de histórias e sinais.

Acena-me, como mão náufraga,
envolto em pálido ladrilho
branco, um espelho enlutado.

Daí não ver o que meu rosto
traduz nesta manhã
em que a poesia das ruas,
dissolvida em notícias cruentas,
envergonhou-se do meu olhar.
 
 

FOBOFOBIA

21 mai

Ao Guto


três pessoas passam:
cruzam
trocam caminhos com meu temor

três pessoas passando ao redor:
instintos babilônicos
decretam-se em sustos
entrelaços
- pés em redes flutuam
no átimo da calçada e pavor

três pessoas no espaço e no tempo:
sorvedouro de pedaços de vida
instante do olhar encriptado
síntese de mordaça
o anonadado

três pessoas passaram e deixaram sem saber
como um prelúdio de morte um rastro de asfixia

três pessoas ao longe:
soçobram raios de sol inférteis
pequenos tremores de aguardo
pela nova estação

 
 

ESTAMPA DA PRESSA

21 mai
1.
o tempo  hoje farfalha
sobre rodas que nem o chão tocam
nossas mãos não mais se sujam
ao som de facas cortando laços
nem a resposta da dúvida acelera
por não ter a dúvida a prosa
por não ter nem mais a rosa
senão a rosa da tela sob comando
de pequenos botões ocultos
no acende/apaga que não é mais vagalume
não é mais Morse
não é mais relutância de bêbado
nem um disco voador sobre o teto
nem um verso do poeta em azedume
o que não foi
não será
não importa
visto que tudo é presa fácil
para a  vasta civilização
que precisa se preocupar em ser
de dentro do próprio tempo
este tempo sem volta
necessitando ser reconhecível

2.
não há mais espaços vazios
dentro dos tempos vazios
a que assistimos passar
não há folha que cai
não há um sorriso de retaguarda:
só um caminhar frontal
incessante
cego
impaciente.
conversas ceifadas e encontros
memoriais não há mais
nem tempo de solidificar
imagens de calendários
não há calendários nem parede
em todos os olhares
apenas a estampa da pressa
como desespero de junkie
volúpia de poder
falta de ar que implorauma janela aberta

não há como sequer apalpar
o que se incrustou de vez
neste desorientado alípede
que um dia
não remoto,
chamávamos de agora

tudo virou amanhã neste planeta.

 
 

REVOLVER

21 mai
(da crônica da Ely)
o ciclo fechado
tenta
fustiga
soluça por um novo horizonte
a decisão chora
sobre a lâmina
abrir esta porta
é despactuar
com o destino
que corta fundo
a possibilidade da linha reta
entre tempos desiguais
 
 

GALHOS SECOS

21 mai
a poesia se desmancha nas barbas negras
do Estado Islâmico
o verso não resiste à degola da ausência lírica
na obsolescência de um estado onírico

tudo se torma pasmo
bárbaro
destruidor

uma estrofe nasce feito punhal
malévolo
insensato
tonel fechado com sete demônios

a ira divina abatando feito foice num Ocidente
de dentes arreganhados
lábios ressecados
gargantas aprisionadas
gritos mudos em pânico

homens que não são homens
galhos secos apenas

frutos descompostos
podres adubos
 
 

O HORROR

16 mai
a degola do Conde D’Eu
a degola da Ilha do Desterro
a degola de Canudos
a degola em nossa imaginação
a degola do Isis

a degola como imagem tácita do horror
degola nossas retinas e compreensão

 
 

SORRISOS SEM LEMBRANÇAS

16 mai
na Síria
dias moídos
homens considerados repolhos
as mulheres e crianças
(femininas que são)
couves-flores
caem do caminhão nas estradas

na Síria
dias tarados
a imbecilidade campeia
amorfa e decidida
na cabeça dos homens
que um dia nasceram
sob sorrisos sem lembranças
sob a maternidade incrédula
sob a memória disfarçada
sob um sol de um país multado
transformado em depósito de legumes podres
e
futuro de sepulcro

na Síria
dos dias inférteis
existe um país a se exumar

 
 

PIT BULL IDEOLÓGICO

01 mai
aquele cão
não
uiva em cerimônias
de luar

aquele cão
não
deixa marcas de urina
mas é uma usinas
de marcas

aquele cão
não
dá a pata
da a data
para você viver
ou morrer

aquele cão tem poder
de foder

lhe dar ração
e fazer você comer
 
 

27 mar

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DESACOMPANHADO

27 mar
Afastem o poema de Philip Glass.
Afastem o poema de Renoir.
Afastem-no de Cartier-Bresson.
Eles têm em seus bolsões e cavernas
sua própria poesia.
Livrem o poema daquele piano
que infecta a palavra escolhida
como a filha herdeira,
como a pepita antes encravada
nas profundezas de seu âmago,
como a gota de orvalho
que matou sua sede na última madrugada,
como o seu melhor orgasmo.
Dê ao poema apenas o branco do papel
onde brilhará como a vida lhe requer.
Dê ao poema apenas o branco do papel
onde brilhará como a vida lhe requer.
Dê ao poema a solidão desejada,
de onde ele compartilhe sua beleza nua,
sua força lapidada a duras escolhas,
seu partejar catártico,
seu painel de adjetivos e vírgulas recusados,
seu recado às involuções do mundo.
Seu papel no mundo.
O seu mundo. Deixem o poema
transpor seu dialeto a que foi finalizado.
Deixem-no respirar. Em paz.
Só assim a poesia o cavalgará
por campos da sutileza das palavras ecoadas.
Ou de seu sagrado silêncio.