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‘(2017) CESTO DE FAGULHAS’

AMAS COMO VÊS; CRIAS

03 mar

Fora a noite

de dentro

da ogiva em que me destravas.

Fora outros gatos

dentro

do cérebro soturno.

Fora das páginas dos livros

vale o que sonhaste:

árvore solitária.

Que fora do caule

uma folha cai em dança metafórica;

traz algo como a morte.

Fora do invisível

que veda seus olhos e sentidos,

resistes.

Fora de tudo

amas o que inexiste

em mim.


 

CESTO DE FAGULHAS

03 mar

Desço pelas ruas pisando a noite.

Fatos mortos se intervalam entre si

sem pausa, como um folheto

em velhos almanaques. Ávidas

recordações espocam transitórias.

O tempo não resiste às lembranças.

O tempo inexiste a um cérebro espesso.

O pensamento rompe qualquer noção

de datas ou agendamentos confusos.


Estou agora nesta madrugada fria

desafiando serenos e ratos,

mas carrego comigo o sol do Rio

ao pensar em pessoas que sei vivas

que caminham na manhã

as quais invento por vontade,

por uma saudade

ou sonoridade de um mar melancólico

na quase certeza de uma dor já evitada.


Atravesso triunfalmente um beijo

de língua que ficou num sábado

qualquer do Universo ou aquele

acorde de quinta aumentada

que faltou para ela quando me agradava

com The shadow of your smile em ré menor.


O que eu quero mesmo é estancar o sufoco

de tanto de mim dentro de mim.

E que o tempo se revigore

e me remova das noites irmãs;

que eu seja apenas passos.


Para a oferenda indivizível de chão.

Sem o espírito da escuridão

e seu cesto de fagulhas,

chafariz de névoas antepassadas.

 

REDENÇÃO

03 mar

Eu, como Lennon,

não acredito em mais nada.

Nem na minha pretensa indiferença,

nem a tudo que foi acabado,

pronto a ser servido.

Acredito apenas nas minhas inseguranças

tornadas sangue.

(fazem festa dentro de mim)

Mantenho um sorriso largo

atrás da porta

a tomar contas das manhãs.

Assim me absolvo.

2.7.13

 

BRASIL

02 mar

Despejo meu lirismo na latrina do Rei.

Sufoco o dia como os Pios de Roma,

posto trazer em si um novo Sol,

que prenuncia algo de novo,

de reiterados embriões.

Estou noctívago e barroco.

Penso que o momento cansa a vida,

sua vítima dileta.

Mas descubro que o país

já me aterrou muito mais.

Essa falta de traquejo em dor

cívica me embaraça:

acabo misturando horrores.

O que o tempo traz.

O que o tempo abandona.

O que o país estarrece.

O que nos vicia.

Se o tempo nos cadaveriza,

o Brasil me apunhala aos poucos.

Lâmina afiada nas mídias retalham

corpos e credulidades. Confianças

extenuadas de tanto atoleiros

no barro desta estrada

que nos conduz

do parto até a morte. Não tenho

clarificado em mim se a cada dia

sou um brasileiro velho que toma a chuva

do tempo ou do país. Sei que ambos

não mais riem de minha idade.

Nem o tempo nem a Nação.

Mas da esperança, sei não.

 

LUTA

02 mar

Um poema danado e lutador

como um peixe,

brigou muito para mostrar

que a arte pode servir

de guia ao pensamento

e ajudar a pobres humanos

a se colocarem acima de reses.

Mas de nada adiantou.

Nestes tempos em que vivemos,

o poema danado e lutador,

feito peixe,

caiu na rede.

7.12.17

 

A TOPADA

03 set

na esquina do semáforo

daltônico e estrábico

topo com Che Guevara:

boina estrelada

olhar reservado ao futuro

cara de El penado 14

tensas rugas no pano negro


vinha pelo peito de um moçoilo

imagino (com maldade)

que o confundira com roqueiro

da velha guarda


Che não sorriu

nem olhou para mim

não leu em meu rosto

a poesia de mitificação

cruzou-me com a indiferença

ao som surdo da concertina

a ecoar estranhamente

por Sierra Maestra


desatinado mantive meu dogma maior:

Pelé es mejor que Maradona


30.7.16

 

LEITURA

03 jul


Deparo com a palavra desconhecida.

Tento intuir o que seja, o que me diz.

Apelo ao contexto da frase, do parágrafo,

da história,, do que já percorri, do copo

sempre cheio do autor. Nada.

Despudorada, rainha e fatal,

Desafia-me e chama de tolo.

Vou ao dicionário.

Lá está ela. Soberba,

já sem o mistério de antes,

mas com o mesmo sorriso de anjo

e meretriz que adivinho que desde

a escolhida. Se pudesse falaria a ela.

que a sonoridade que retumba

é maior que o seu reles significado.

Talvez a desabasse deste brilho

que atordoou minha vida

de leitor atento, pobre buscador

de vocábulos que me sejam

a combustão dos meus dias.

Não sigo mais a leitura.

Cai  sobre mim um engano de vida toda.
Uma incógnita avassala o pensamento:
ao ler, não sou o dono do meu olhar;
as palavras, frases, linhas e a solidão
do autor diante de mim é que  me leem.
No instante de leitura são meus olhos,
porta de entrada de meu ser, que,
com amável e guerrilheira aventura,
tomam-me posse. Sem licença ou pressa.

27.6.17



 

JORNADA ÍNTIMA

22 mar

No espelho,
meu rosto permanece
desde a primeira claridade do dia
como roupa amarrotada
jogada aos pés da cama.

Na rua, um fusca disputa
em decrepitude com o dono
e o banco em que senta. Diz
um bom-dia achado na memória.

O mar me chama e rejeito
a ideia de turismo e cachaça.

Sinto estar no exílio
em qualquer lugar que permaneça:
cidade, quarto ou biblioteca.

Um verso rebate a noite já morta
tentando impor uma cortina
ao que já nasceu devassado.

Mas o dia em meio a tudo isso
traz pequenos afagos ao coração:
os olhos do cãozinho abrem
caminho ao que escondo de mim
tentando suprimir momentos.

Por fim, iluminando o mundo,
minha neta que vem chegando,
anuncia-se como fogo de esperança.

Aí me vem o arrependimento
de não confiar nos bons presságios
da manhã que não abracei.

E de não ter sequer cortado a barba.

17.3.17

 

POEMA

11 fev

Nunca se acolha.

Deixe-se à deriva,

em versos soltos;

loucas rimas nuas,

palavras tão livres

como um coruja.

Escreva uma carta

para seu exterior.

Avise que tardará

seu retorno ao chão:

quando a angústia

deixar seu ar voltar

e seu grito emudecer.

2.2.17

 

O MUNDO EM MARCHA… À RÉ

08 fev
estamos no intervalo do tempo
em que soltaram os cães
sobre a
sobra do que era cidadania
sob rédeas e coleiras nos pescoços
dos 99% da humanidade
estão aproximando asteroides
letais sobre as cabeças
dos 99% da humanidade
falam-se em muros
em mulheres obedientes
decretos assinados em ritmo de blitzgried
quiçá a volta da escravatura
para
no mínimo aos 99% da humanidade
uma degola à tarde
outra pela manhã
saciando o mundo de Debord
aplacando a volúpia de poder
a que assistem desanimados
uns 99% da humanidade
os que comem biscoitos da Nestlé
os que tomam Coca
os que levam balas de fuzil
viram alimentos quando se alimentam
por isso pode fazer falta:
grãos que são
enchem o papo
de quem o tem imenso
sem fundo
furado
(é bom os 1% repensarem
e se coçarem
senão a farra humana acaba)

27.1.17