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‘(2017) CESTO DE FAGULHAS’

TOM

25 jan

o Tom é tudo
é o acorde que não dói
a nota que sorri
o passarinho assanhado
a nuvem ligeirinha
a mata em jogral
o rio do assobio

o Tom é tudo
é o tom do Brasil sonhado
é o som do sempre nunca mais
é a manhã do amanhã
é o dia que substitui todos os dias
é a chuva da promessa de vida
é o coração

é nosso, o Tom

me dá um abraço, Tom?
é só para eu chorar um pouco
25.1.17

 

O PARTO

24 jan

O poema se alça por si mesmo. Quando grita e flui. Quando as palavras arfam e amedrontam de brilho. Tornam-se pedras de valia, pedaços de mundos unos, desabrochadas placentas. Quando não obedecem a um grito, a uma ação de espreitar a dor, a fúria, seja com olor ou sangue e despejo no caldeirão que o habita, que o recebe, que o hospeda vida afora, onde aguarda o que será a deriva de um sentimento para o transformar em flor, riso ou desabafo noturno; aquilo que a forja criará com vocábulos recolhidos em brenhas de poesia. Estranhas de novas vidas, parturientes e alucinadas, ao perceber novas roupas, novos condões, as tezes que o poema lhes propôs ao tirá-las de seus berços perenes de um dicionário. Nesse momento, o amor, inesperado e encapsulado aflora como ser matinal, como um rosto aparecido na esquina da vida, curva no caminho do Sol, festa e ar em forma de nuvens a bradar poesia e vitória: está pronto e renascido aquele que vem onda, correnteza e avalanche: o poema e sua história. Vem de mil formatos e tinos e compreensões, vem rasgado, inteiro, alto som de bardo, silencioso como a última dor da noite, bêbado como um acordar, choroso como  abandono, espetáculo como o luar. Chega despejando cactos, redistribuindo beijos, como cálida reprodução de ovos, chega parasita do corpo, aprisionando os sentidos, explodindo vícios, lambendo o chão de tanto orgasmo, sem temer sequer a gaveta que, sabe ser seu destino, sua lápide, seu profundo leito. Vem cumprindo seu papel: o de carroça que traz à tona da vida o desespero de alguém, a inquietude dos seres que não se satisfazem com a dúvida de viver, com a força do cinza, ou com a sempre mente noctívaga e obliterada. Vem para o mundo já se proclamando como o grande mensageiro daquilo que chamamos farsa.

21.1.17

 

21 jan
A minha certidão de nascimento
prova que nasci em certa data.
Mas a prova de que ainda vivo
são minhas contradições, que,
quando lógicas, revigoram-me.

20.1.17
 

09 jan

Faço uma ponta no mundo
(fugaz e exclusa) como poeta.
A palavra tornada minha
no nosso colóquio, foge
carregando minhas dores
em suas costas – redistribui
seu afeto por uma ou outra
esquina e esvoaça relâmpago
depois junto ao sol poente
resguarda como se fosse (e o é)
serva da natureza humana.

6.1.17

 

08 jan

Chegaste tão mansa
que pensei outra coisa.
Com o sentido ocasional
da surpresa pensei amor.
Há muito só em partidas
sem o que se pense ou doa
chegaste como um sonho
acomodado no passado
da foto
de cigarro entre os dedos
e um olhar de Kerouac.
Chegaste a benvinda
de outrora, chegaste
como quem chega
fora de hora.


5.1.17

 

POÉTICA

22 nov


Ler o silêncio.
Ouvir o branco do papel.
Falar com o luar.
Regedor, o verso
cheira a casca de ovo
e põe-se a sachar
na palavra
sabores da noite.

17.11.16

 

MANHÃ E REPÚBLICA

22 nov


invento o dia: Renato Teixeira
leite Ninho
café sem cafeína
e a indecisão do açúcar

a água quente no copo
na preguiça
(eta! mistura de tempos
e perdas)
traz meu compadre
desta vez memória inteira

a viola cavalga a alma em pêlo

15.11.16

 

20 out
(para Fernando Pessoa)
sou alguém desajeitado
o tempo inteiro

quando falo
quando coço
quando amo
quando olho um Dali
quando colho nêsperas
quando mergulho na vida
quando conto piadas limpas

nas mentiras do dia
sou alguém tolamente desajeitado

fumando
as cinzas me desgarram como moscas

só me recomponho nas palavras
que espalho
na argila que modelo
no meu remo de cores

aí, solitário e nu
sou uma poça de água
a refletir uma lua de aquarela
quase humana

18.10.16

 

A VIAGEM

24 jul

Folhas soltas no chão e alguns livros.
Janelas de Iñárritu alvoraçam as margens
por onde a trilha se esboçou e se fez
por conta das superposições imagéticas.

Fado sem retorno pela seara iconoclasta
que desembaraça teias e franjas humanas
postas à serviço de inteligências forjadas
e patíbulos de cabeças presas a monitores.

No início, logo na primeira esquina, o fel
na figura de anjo decaído; joga o laço estreito,
mas ares eudemonistas, antídotos, me livram
como livram sempre aos homens que leem.

Por isso, bonança prematura, um livro se abre
em crucifixo, escancara vísceras sob palavras
como um fardo dentro do breu marítimo
e grita ao vento leste que siga seu desterro.

No meio do caminho, um poeta, preso em timidez,
subverte seus próprios versos de cocaína pura,
nascido de calvície, paletó e gravata, de beleza
intensa de quem pode desafiar Juno, caso queira.

De quem se torna pai e mãe da poesia que se faz
do lado explorado do mundo, cantos de arrastar
seus pés em folhas secas, enquanto o movimento
perpétuo da terra, recebe a orquídea redentora.

Além dos rios que atravesso, um cantar socialista
de cheiros de bem-aventurança, mudam o trajeto
de uma humanidade de leis e castigos misantropos,
doando além de amor, ar puro às pituitárias afogadas.

Há vielas de espadas, becos de ritos anunciados,
cavalo voadores, heróis cinematográficos, dores
expostas em palcos, onde egos resplandecem
como chafarizes a bicos de pena já  amarelados.

Mas há o refletir constante, a dúvida em Aristóteles,
o porquê de respostas infalíveis, o abraço que tonteia
quando por caminhos do cérebro adentram em prima
vez flores novas que se elucidam ou se tornam mistérios.

Por fim, dia posto, canto de arrebol, pássaro estranho
e mágico se faz ouvir por todas as ágoras doadas
pela natureza a seus filhos, os que partejam em si,
renascem em si, às vezes cegos, mas sempre vivos.

 

A TARDE QUE FORA TARDEZINHA

24 jul

(churrasco atrás do muro)

o que vem da festa
loquaz, indigesto
uso perdulário
de fonemas ilegítimos
quebra a sintonia,
o modelo, o divino
parte a medula
do silêncio lusco-fusco
acende a maneira
de galimatias
e inimigos da leitura,
da bonança, peso
jogado dentro
do sossego (supremacia
filosofia) do binômio
descanso/cama