RSS
 

‘(2013) LUZ DE ALPENDRE’

CONSTANTE RECOMEÇO

05 jan
“como a imagem da faca
que só tivesse lâmina”
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
O susto revigora, atenua
o tédio, mesmo que não tenha
escuro ou outrora.

Começo que vive
é recomeço que não avisa,
traz fogo ao agora.

O susto aprimora
o espanto, faz-se
instante que deflora.

Porque se não se espanta
frente ao novo que se apresenta
a vida fica presente, apenas

o futuro rápido não aponta
e desaponta o fato morto
de ficar sempre ao já visto

por todo o tempo que previsto
por todo rumo que absorto
por todo fato sem registro.

O susto provoca o nascer
da hora que recomeça.
Momento desta pororoca,

é como se refizesse certa peça
do objeto vida vazia,
dor que se troca

com susto chamado espanto
que parte em vários raios o dia
brilhando boa nova – um canto.

Vida farta anuncia
desde a palavra que lava o pranto
até a fogueira chamada poesia.

Espanto no átimo
de recomeço saltimbanco,
pneuma bastante

fugaz e inquietante
tende pouco e a tanto
o recomeço constante.
 

O ABAJUR DE CERÂMICA

05 jan
A rosa é rosa
de folhas em foma de louros
no panteão de vencedor
ausente de humanidade.

Apenas apara a luz
a iluminar palavras
e cantos obscuros
onde residem universos
de tapagem à poesia
em estado incubador.

Seu copo, bojo de ser,
guarda como adotiva
a lâmpada. Poucos entes
podem concorrer a ter
luz como âmago, congênita
forma de vida a por fim
na escuridão, como essência.

Sustentada pelo barroco
da peça em falto bronze,
emerge como aurora
e desenluta o breu
das teias que pouco
tecem, as opacas.

Raios quando relumeiam
páginas da vida refúlgida
em par com a angústia,
salpicando em fina madrugada
peças de antídotos e desculpas,
o abajur responde pelo seu ato.

Assiste o reinventar da dor,
o cumprimento do rito;
ilumina o que há de ser iluminação
ao anseio de extrair da noite
aquilo que é sentimento e pus
que mesmo tanto não tem plural
que mesmo fossa se abate
ante versos irmãos em cor,
amarelos de tentativas,
espessos de contrição,
habitantes da mesma casa:
a ferida e a analgesia da alma.

Por tudo que é exposto e dói,
o abajur de cerâmica
e a rosa entalhada nele
são encantados como versos
de alforria.
 

DEFINITIVO

05 jan
Não escrevo versos
porque me inspiro.

Eu escrevo versos
porque respiro.
 

LUZ DO ALPENDRE

05 jan
Debaixo da luz do alpendre
meu pai declamava os versos íntimos.
Com voz de barítono, desfilava a mão
que afaga pela mão festiva
e me confundia quando dizia
que colosso este augusto dos anjos.

Me confundia porque meu entendimento
de poesia era que a palavra poeta
era um sinônimo único para castro alves.

Mas um dia vi umas dentaduras duplas
de um tal Drummond
e passei a bater palmas ao meu pai
e dizer baixinho que colosso
são todos estes poetas
e suas palavras entalhadas.
 

SUBJETIVISMO EM PESSOA

05 jan
A minha rua é a rua que ando.
Basta não ter fronteira
e esquinas que aturdem,
aí estará minha rua.

A minha rua é a que meus passos
não tomam posse,
a que me ensina
a não perpetuar o momento.
A minha rua é
a que o tempo não passa por ela.

Ao atravessar para o outro lado da calçada,
a rua que ficou já não é mais a minha rua.
A minha rua agora é a ansiedade de chegar
ao bar ou banca de flores mais próximos,
aonde efetivamente saberei
que jamais terei uma rua que seja minha.

Minha é apenas a poesia
que ouço vir de homens de uma rua
do outro lado de uma cidade de outro lado,
onde nenhuma rua tem dono.
 

MANHÃ, PROCURA-SE

05 jan
“É noite. E tudo é noite.”
MARIO DE ANDRADE
Erradio vate sob luz
do poste chuveiro
em raios feixes menos que ele,
rumina farpas de versos
ágrafos, dizedores obscuros
que não se escuta.

É tarde. É mais um fim
de mais uma noite
de mais um renque
de falta de forças
e cores. Mais uma visão
da ponta do sapato.
 

ONTEM E AMANHÃ

05 jan
Pelas estreitas ruínas
de minha memória
estão todos os passados,
todos os traçados
da minha história.

O tempo de ontem
carrega cores à lembrança.
O tempo que virá
já vivencia a ansiedade
como herança.

Acontecidos doem menos
do que irá acontecer,
posto serem segundos mortos;
a alma se corrompe
quando não se pode prever.

Na força das manhãs
criamos atalhos
para juntar cacos.
erguer instantes
não sermos retalhos;

na fraqueza da noite
já somos mais que pó,
exigimos menos luta
na evidência da entrega
da essência de ser só.

O ontem e o amanhã
jamais se limpam
e nem sequer se tocam.
Um como par, já foi feito.
O outro, como caos, será ímpar.
 

CLAUSTROFOBIA

05 jan
Nesta manhã há um rosto desfigurado.
Um passo indeciso, sorriso incerto.
O pássaro que não voa nem chilra.
Uma cachoeira não torrente.

Nesta manhã há um temor nos olhos.
Um alguém torto, fixo desamor.
A esquina sem mistério.
Uma lágrima seca,
quiabada sem sal.

Nesta manhã um homem
se infiltrou nestes tempos.
E não tem como sair.
 

MEMÓRIAS 1960

05 jan
Ao Tio Joaquim
A noite tanta
depura a rua.

A noite santa
é de São Bartolomeu.

A notícia bate na janela
de guarda-chuva e chapéu.

A noite traz, a noite leva
a paz.

À noite Deus é bom
mas mata crianças.
 

O CANTO

05 jan
Peço ao vaso de flores
do canto da sala
o canto da sala.

Porque quero o refúgio
das flores que se renovam,
que são acariciadas,
que são aguadas,
vistas e cheiradas.

Quero o canto da sala
e ações mecânicas acarinhadas,
melhor que o bom-dia sussurrado
ao lado da estante de livros
cheia de poeiras passadas.

Peço ao vaso que saia
de sua posse ordenada
por uma vontade,
por uma verdade,
por alguma fala
que não percebeu
por rudeza ou sono de vida
que um vaso não precisa tanto
de um canto de sala.

Por este ser mudo
portanto útil ao deslumbre,
fixa e manieta
qualquer coisa que exala,
à proporção do que se espera
não mais nem menos
que um canto que cala.

Canto poético ou canto
de quina para que o vazo
se torna apenas senzala,
que para o poeta da dor
pode ser mesmo cela
teu pouso, sua toca,
ou um canto que embala

e pode perpetuar
teu pequeno adstrato,
sua verve, sua bengala.
Esta que pode ser até
numa metáfora
o próprio canto da sala.,

onde o vaso já exaurido
como uma paisagem
se predispõe a se tornar
vaga miragem

na concessão do lugar
próprio, mas sem escala
ceder ao poeta
de vez por fim
o tão falado,
cantado, reverberado
e sobretudo cansado
o tal canto da sala.

peço ao vaso
do canto da sala
o canto da sala

quero o refúgio
ou tatuar-me ao chão
quando um dia

removido
em mim