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‘(1) POEMAS DE 2019’

ECONOMIA

09 mai

Na fuligem da cidade,

dois rapazes à moda

de Estragon e Vladimir,

vendem pequis e carambolas

a transeuntes impedidos

de caminhar pelas calçadas.

8.5.19

 

DO TERMINAL DE ÔNIBUS

07 mai

…desolo-me ante a sujeira

que assisto como um palco.

Tudo é decrepitude e ruir

neste flanar. Homens destroem

o que respiram . Enfeiam

o que seria suas molduras.

Distorcem o que sempre

só serviu a todos

como um tapete de bem-quereres.

Torturam as tradições do asseio,

mortas em fotos antigas

da cidade. Jogam o lixo ao seu redor

como se o engolissem. E andam

em contrações corporais

fugindo de chuvas de raios.

Miram a fealdade do que fazem

como meças  ao espelho.

Mas o que veem não os abatem,

antes os conformam. É quando

tudo se mostra tardio:

suas escolhas já os devoraram.

7.5.19

 

05 mai

Os cérebros em vacuidade:

desvarios

em idioma de ódio ao ar.


Frutos conseguidos

saqueados

na era da marcha à ré.

Ideias resultadas

boiam

como merda n’água.

3.5.19

 

02 mai

Praça XV,

domingo e manhã.

A alma procura ode

no solar retrato

que irá jactar-se.


Mas um campo

de abandonos

se despudora

no antes de tudo

a que deveria ser o jorro.

Olhos de elegia

absorvem o ontem

que se fincou.


Restos de humanidade

alcatifam pisares.

28.4.19

 

28 abr

Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse

Carlos Drummond de Andrade

eu seria o primeiro verso

d’uma redondilha maior.

26.4.19

 

25 abr

Já te disse: te dou minha palavra.

Não a do acordo, da afirmação

de minha identidade. Mas

minha liberta da razão,

terna como um abraço, pena

pela fragilidade, apurada em rios

internos a desaguar no vento.

A palavra que não tem outra

face senão a do vício lírico,

que se adultera em escudos

aos frontispícios dos erros

que rodeiam todos no mundo,

principalmente os que insistem

em respirar os becos de viver

e a escuridão dos homens.

7.4.19

 

05 abr

Extrair a fantasia do solo

pressuposto fértil mas dorido

como a erva feita bálsamo

a desencravar o que dentro

mortifica e embolora se tardia

como um balaio de tempos

acumulados em irresoluções.

Recomeços de novamente

irão prevalecer às palavras.

E serão necessárias outras,

espelhadas sempre em ciclos.

Como um moto-perpétuo

mantendo na mesma bandeja

a dor da vida e a chama poética.

Escrevemos buscando finais

mas que são areia de deserto:

durante a claridade do dia

queimam a pele e os desejos;

nas noites escuras congelam

todos os instintos revoando

grãos sobre o que nos alteia

em dunas aquilo que somos.

5.4.19


 

29 mar

não me tenha

como louco

apenas é meu

o medo

de ser pouco

11.3.19

 

NÓS E EU

13 mar

se me quiseres junto aviso

que não venho só – não sou só

tenho nos bolsos meus sonhos

envoltos em mim assim como

a casca da cortiça ou malha

colante ao corpo ensopado

de tentativas vãs – todas elas

símbolos das horas roubadas

durante os tempos em que deixo

de viver e invento vários jogos

sobre mim mesmo – todos ou

quase a maioria de retificação

se me quiseres por perto previno

que a metade do que vivo passo

sonhando com a outra metade

que aparenta o que deveria ser

entre as duas uma linha cega

divide o que chamo de jornada

não se confrontam nem querem

apenas delimitam o que sinto

e o que sinto é que uma se cala

e promove o que é da vida em si

enquanto a outra de sina etérea

canta e se resguarda em versos

a do chão é uma espécie de nós

e não se reluta em sorrir ao sol

mas a das sombras das palavras

só se mostra como um eu de asas

12.3.19 – 1h50 da manhã

 

13 mar

portas fechadas

à consciência humana:

sai a velha biblioteca

entra uma nova ferida

na cidade

que  ficou órfã

e nem percebeu

9.3.19