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‘(1) POEMAS DE 2019’

NÓS E EU

13 mar

se me quiseres junto aviso

que não venho só – não sou só

tenho nos bolsos meus sonhos

envoltos em mim assim como

a casca da cortiça ou malha

colante ao corpo ensopado

de tentativas vãs – todas elas

símbolos das horas roubadas

durante os tempos em que deixo

de viver e invento vários jogos

sobre mim mesmo – todos ou

quase a maioria de retificação

se me quiseres por perto previno

que a metade do que vivo passo

sonhando com a outra metade

que aparenta o que deveria ser

entre as duas uma linha cega

divide o que chamo de jornada

não se confrontam nem querem

apenas delimitam o que sinto

e o que sinto é que uma se cala

e promove o que é da vida em si

enquanto a outra de sina etérea

canta e se resguarda em versos

a do chão é uma espécie de nós

e não se reluta em sorrir ao sol

mas a das sombras das palavras

só se mostra como um eu de asas

12.3.19 – 1h50 da manhã

 

13 mar

portas fechadas

à consciência humana:

sai a velha biblioteca

entra uma nova ferida

na cidade

que  ficou órfã

e nem percebeu

9.3.19

 

09 mar

vastas

as vidas

que a vida tem

vastos

os tempos

que o tempo tem

vasto o vazio

que nesta noite vem

8.3.19

 

06 mar

é tarde no corpo que apura o sexo

que em desdém – inexiste

a força da vida ficou lá fora

no sapateado das horas que se apressam

a cada etapa

uma fumaça que traga cada minuto

quando na imagem de um fim:

uma rua larga

infinita

de duração de segundos

seguimos

como um palito de fósforos – viramos nada

( o soldado do Grossmann disse

que só tem medo de morrer

quem não tem a alma simples)

5.3.19

 

06 mar

Vivo das realizações alheias.

Todas muito próximas de mim

enquanto desejo.

Todas muito distante de mim

enquanto impossibilidade.

Vivo da angústia do tempo

que arde em seus ritos.

Vivo assim, olhando fotos

de neve e sons de trompete.

Vivo assim, sem ser eterno.


2.3.2019

 

06 mar

Constrange-me a vida do poeta

que tanto leio.

Parece com a minha em muitos aspectos.

(Lá dentro do dentro, quero dizer)

Por si, isso já é censura.

Uma porta fechada ao confiteor.

Um pudor que assola quaisquer tentativas de expressar-me.

Sufocado de tanta semelhança;

morte ao leitmotiv geminiano.

Melhor escrever uma ode ao Pelé.


28.2.19


 

06 mar

Os fatos de hoje não são apenas notícias.  Crescem como hera em nossas mentes e corpos. Passam a residir dentro de cada um. São como pincéis a dar a cor ao nosso olhar. Mãos antes beijadas agora bolinam. Sombras nascidas do anteparo do susto, a cada minuto próximo alardeiam o divórcio destes tempos com a humanidade. E, como as vacas do adágio, já fomos pro brejo.

27.2.19

 

27 fev

A moça lá embaixo

revolve seu mundo

dentro da bolsa.

Aflita, desfaz sua paz.

(quando comprava a loção hidratante)

O medo entre seus pertences;

noto o alívio por encontrar

seu bem procurado. Fico

pensando do alto desta janela

o quanto tentamos desvelar

o tudo sem nada saber.

O quanto se aflige a dúvida:

para ela aquele instante foi

uma de suas eternidades?


22.1.19

 

23 fev

Mais que criar versos,

procurei, vida afora,

caminhos para eles.

Não como os cegos

em travessias de ruas.

Mas caminhos no parto,

em seus nascedouros.

Caminho das formas,

experimentos e teses.

Meus versos cansaram

de tantas inquietudes,

mais que isso, das fugas

ou tentativas sem par

do lirismo congênito.

Aí abdiquei das buscas

e das aventuras léxicas.

E passei a ser um cantor

que se esvai em palavras

todas as curvas e esquinas

que habitam e ancoram

um espírito que olha míope

para a vida que passa.

Funda ou de superfície.

E que quando as manhãs

resplendem infinitas,

transborda.

23.2.19

 

22 fev

O que me leva  às estações

não são o trem e as suas gares,

mas as carroças e os chicotes

defronte, a coesão dos cheiros

de esterco e urina das éguas.

(As visões do passado nascem

de ventres incertos, folhas

ao ar pulverizando feridas.

Do abstrato ao concreto,

os nós, do corpo e da alma).

21.2.19