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‘(1) POEMAS DE 2019’

O SILÊNCIO

17 set

Pelos amigos, emudeço.

Foram picados pela dualidade

dos pares de opostos.

E ficam, cada um deles,

agarrados ao seu totem

rajásico como musgo cego.

Mas eu os amo. Um amor

com a magia do silêncio,

que não fere e nem desbota.


15.9.19

 

O BANCO E A ESTÁTUA

09 set

Drummond

De costas para o mar,

o eterno de seus olhos

se espraiam nas Minas,

Sol entre montanhas

de onde nasce um rio

baldo num dia dorim,

no quando ecoa uma voz

de mil tons.


6.9.19

 

DE REPENTE, O LÍRICO

09 set

A flor da manhã me adentra

como um oásis silencioso.

Há um tom pluma em volta

como o mundo não fosse.

4.9.19

 

AO MANOEL, DE BARROS

08 ago

Na beira deste ribeirão

Bem longe do Pantanal

Uma garça destoa da paisagem

Não por estranha

Mas por bela branca altiva

Antes de ver o tudo ali

Eu já sabia deste poema

Adormecido

6.8.19

 

27 jul

Quando eu morrer,

peço que joguem minhas cinzas

em qualquer rio,

menos no Tietê.

Pela vida afora,

já me fartei de viver

longe do mar.

26.7.19

 

TEMPERO

27 jul

Pego nas mãos

algumas palavras

soltas como confetes

que versejarão

após darem liga.

Num mesmo prato,

ordenados em cores,

adquirirão o tempero

do barro que modela,

do sopro da pimenta,

da boca que canta.

Saltarão, as palavras,

por meridianos líquidos

a compor a imitação

do que se olha ao redor

do que se sente nas ruas,

do que se cala em dor.

No composto final,

juntos – forma e conteúdo,

vivos versos que animam

o ritmo que pulsa. Válvulas

entre as artérias da poesia.

11.7.19

 

PRAÇA DAS BANDEIRAS

26 jun

Dois amigos de rua socializam

suas pedras ao largo das vidas

que se alteiam de um sonho

de margem, do drop out incerto.

Vejo sobras das minhas escolhas

nas pulseiras de couro estendidas

na calçada onde, tudo que é sujo,

limpa-se pela ideia de ser livre.

Olhos azuis da criança presente

me denunciam como invasor

do momento que tudo me divide.

No ponto, pessoas e mochilas

esperam, de rostos em fadiga,

ônibus e amanhãs repetitivos.

25.6.19

 

DIA DE VIDA

20 jun

p/ Konstantinos Kaváfis, em memória.


Atende tua porta ao chegarem

os desejos; inclina para o lado

do corpo que foi atingido.

Não esqueças de acolher bem

ao que pode ser tua Renascença.

Espalha ramos no teu tapete

onde teus sentidos pisam.

Sê o humano da superfície

da pele que te retrata. Não

represes tuas fantasias

por nenhum pensamento

que te doa; solta comportas

em todos seus poros, risos,

e em lembranças marcadas,

como a dança dos colmos

dos trigais que um dia viste.

Não te resguardes da canção

primeira que veio a ti pela manhã

e que te envolveu como hera

e te acompanhou  até o ocaso,

que julgavas exausto, mas que

ao se declinar, retratou no céu

um sorriso lascivo e trouxe ao olhar

da imaginação uma rosa tímida.

E quando o sono que te aguarda,

ruborescer ante teu dia completo,

entrega-te como criança: abre

seus braços e corre ao colo da

primavera. Nesta hora, teu corpo

precisará de descanso, diferente

da tua alma que, assim  que iniciares

o teu fingimento de morte, te velará.

18.6.19

 

GARUPA

17 jun

Vou, no colo da poesia, voo.


17.6.19

 

CAMINHANTE

11 jun

Nasci. Antes de andar ou falar,

já sonhava. Não lembro sequer

algum instante de liberdade.

Preso à projeções fora de mim,

aprendi lidar com a gangorra,

determinante de minhas horas.

Para não explodir todo o resíduo

que foi em mim acumulando

senti que precisava de evadir-me.

Tomei a rota das palavras e caí

na solidão rodeada de afetos

contrários, quase todos de planos

a edificar-me como cópia reles

de gente que o tempo apagou.

Hoje, nada sei sobre lucidez.

Apenas que sou o de sempre

atrás das portas e de poemas.

Enquanto escrevo, penso ser rio;

lento, mas ansioso, um contínuo

caminhante em direção ao mar.

Como não vou entender a morte,

não sentirei o fim; um sono

sem o despertar matutino, só.

10.6.19