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NOSSA CASA

24 nov

Quando disse ao meu amigo que aquela casa era de todos nós, ele concordou, pois não havia muito o que refletir. Que fazer, num dia inerte e de sol embotador, senão namorar, da forma mais saudosista possível, aquela esquina, um tanto mágica, com a casa onde habitam milhões de fantasmas, além é claro, de dona Zinha, com seus setenta e tantos anos, e cinco filhos na cadeia?

Mais de que esta situação, que já daria um bom folhetim, o fascínio pela casa. Antes dos povos, o universo. A casca precedendo o fruto. A embalagem. A visão de um mundo facilmente penetrável, sem mistérios específicos; tudo altamente tentador, onde residem formas e substâncias como nunca antes desvendados. Os tais filhos, pobres mortais, incompetentes para assaltar fazendeiros e lhes roubar os cavalos, para vender no centro de Taquaritinga, acabaram se mudando para Presidente Wenceslau, na penitenciária. Espécie indigna de morar numa casa como aquela, aliás, habitando de favor, visto que a mesma pertence a uma família, que no passado, dona Zinha prestou muito de cama-fogão-lava-passa para todos e no final, como gratidão hipócrita, deixaram-na morar na casa sem solução, já que derrubar aquela jóia seria um investimento inútil.

O centro da cidade não mais era um lugar ideal para moradia, e os chamados bairros residenciais elegantes, instaram-se no morro da Viúva, de onde se abria uma visão mais bonita, própria para a nova ótica imobiliária. E aí, alguém teria de tomar conta da casa, para que não fosse invadida, ou se deteriorasse. E como dona Zinha, era mãe de cinco peões valentes e fortes, que trabalhavam, não por coincidência, nas fazendas da mesma família, foi uma vez mais unida a conveniência dos ricos com a pobreza de espírito dessa gente. Sim, porque dona Zinha dizia a todo mundo do gesto santo dos patrões; tinham-na coberto com um teto. Ela e seus amados filhos. O que fugira dos santos senhores (haja genuflexório!), e que seus afilhados lhes roubariam mais tarde.


Mas, deixemos essa amargura socialista para os ventos e as poderosas ondas que movem e moverão sempre os passos de dona Zinha, de seus filhos, dos donos da casa e os meus.

Voltemos ao namoro à casa..
As grades de ferros, já enferrujadas, com algumas trepadeiras envolvendo-as com uma sensualidade própria das plantas (estas nunca envelhecem em sua libido), e o portão anunciando a grandeza de se adentrar ao paraíso emotivo de todos nós, incorporam a primeira visão de se retornar a espaços e a tempos não vividos, mas sonhados, o que é muito mais excitante. E o caminho entre o jardim, ainda um pouco cuidado, e a via que acessa à ventura de perpetuar o imenso sentimento, sempre inexplicável de se permanecer calado, quando o nosso interior explode em sensações, que para poder se exprimir, temos de chamá-las coloridas.

Chega-se à varanda, que na infância era dito alpendre, com seus vasos de avencas e antúrios, sobre mesas de madeiras brancas descoradas, de vimes aproximando da podridão final, mas com a altivez de deveres absolutamente cumpridos. Como um roubar de esperanças, não existe meios de entrar nas grandes salas, pois dona Zinha, embora sorria nas manhãs de sol, mantém as entranhas inexpugnáveis.

As suas e as da casa.

Ninguém nunca lhe ouviu um lamento, sobre seus passos, seus dias, seu destino. Mas dentro desta aura conformista, está a guardiã fiel, a chave alada, que impede aos olhos, que não os seus, de assistirem ao espetáculo memorial, que por certo, resplandece entre aquelas paredes, como um palco em movimento, que podemos arriscar chamá-lo eternidade.

Assim, não sei se misto de euforia e decepção, eu obtive a forma de compreender, por vezes inexatamente, os grandes caminhos a seguir, norteando meus respiros vindouros, ou seja, quando o inatingível se manifesta em nossa realidade, sigamos, num fruir de sonhos, o rumo da fantasia.

Talvez por isso hoje, eu conheço cada ladrilho, cada rachadura, cada pedaço de papel de parede rasgado. Cada angústia de seus moradores, sobretudo da jovem que habita o quarto azul, com cama de embuia e colchas bordadas, que lutam heroicamente contra as traças, dando lições de juventude, uma trincheira ante o tempo. Chego verdadeiramente a amar essa jovem, que escreve poemas à Deus nas tardes mornais, entre perfumes de flores e sons de natureza límpida. Dentro de poucas horas, estarei também dentro do quarto. Entrarei pela janela, e faremos amor durante uma tarde inteira, sem avaliar conseqüências, sem arquivar culpas. Mas caso ela me negue, estarei apto para despertar e imaginar que ela não existe, ou que tenha uma outra irmã, ou até uma linda criada de pernas roliças, que penteia seus cabelos, enquanto entoa modinhas.

Agora, caso tudo se desvaneça, será fácil imaginar:

o interior da casa estará na mais completa ruína, e a               dona Zinha dorme numa velha cama, instalada na cozinha, único cômodo sem goteiras.

 
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