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OS NETOS

04 jul

À noite,
uns disformes com copos de bourbon
roubaram o sorriso de anil.
E apesar de tudo, traziam sorrisos nos lábios.
Vilipendiaram a casa da esquina,
da vovó Anna;
pisaram no tapete da sala
com botas encharcadas
de lama, e apesar de tudo,
traziam sorrisos nos lábios.
Lancearam os caminhos de crochê,
puseram nos bolsos perto dos galhardões
o camafeu com a imagem da Vênus.
O pires de leite do siamês foi lançado além da janela.
Onde foram ceifadas rosas e sonhos jardineiros.
E apesar de tudo, traziam sorrisos nos lábios.
Depois, comeram as broas de fubá
preparadas para os netinhos do amanhã,
e os impediram de estudar.
E eles gostavam de Ética.
E apesar de tudo,
traziam sorrisos nos lábios.
Os disformes, à noite,
portadores de copos de cristal,
fizeram o sinal-da-cruz.
E vovó Anna pensou que tudo era sonho,
desses que passam depressa,
que Deus intercede.
E pela manhã, já estava morta.
Dessas mortes de avó,
com sorriso sereno de cruz no peito.
À tarde, a casa já era deles, que sorriam
e colocavam fitinhas coloridas
nas golas dos casacos de lã,
tecidos pela vovó.
As cortinas foram fechadas
para um novo sol.
E os netos que ralharam pela mudança de destino,
eram frágeis, e os asseclas dos disformes,
também com copos de bourbon,
tiravam-lhe os casacos tecidos pelo amor de seus pais,
cultivados no período de semeio,
quando então eram orgulhosos de sua terra.
Nesta hora,
os homens tinham outro sorriso no olhar.
Um olhar blasfemo,
de choque.


24/12/2002

 

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