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A LUZ II

13 set
(depois de tantos versos)
Vem! Escolhe um escaninho
De meus sentidos e apodera
De meus ossos, meu cerne!
Faz de minha falsa serenidade
O pé esquerdo de Blake.

Vem! Distingue-me em doses
De clarões da estrada de Damasco.
Acerta meus passos rumo
Aos vestígios de doçura
Da âncora da visibilidade.

Vem! De onde não quero saber
Nem lançar-me em busca
De seus possíveis retiro e porta.
Se queres, fecho meus olhos
Enquanto me inundas.

Vem! Sê tudo posse em mim
E abandona os pudores
E culpas e silícios e enfins;
Abriga os pruridos de hoje
E de tudo o que mais te tentes.

Vem e senta-te à minha esquerda!
Ficarei como o João de Da Vinci,
Para que tornes a égide
Do que preciso na fonte
Do descanso do sopro.

Vem! E se assim almejas,
Vem de punhal em riste,
A devastar meus campos,
Escravizar-me como índios
Das reduções de língua geral.

Vem! Alcança meu topo.
Esgarça meus sapatos
E impede novos caminhos.
Deixa o meu olhar extático
A ver santos e orixás.

Vem! burla pedágios,
rompe portais,
salta sobre cadáveres
que se estendem em vias
da ininterrupta veia que fere.

Vem! brinquemos de ser:
Tu, sonho, será Lennon.
Eu, MacCartney, o corpo.
Tu, o mais amado e eu,
O zelote epistolar, o da cruz.

Vem! Em naus estrangeiras,
Em proa de Garibaldi,
Com ira mas com amor
Nos braços de quem me encontre
Na boca de quem me lace.

Vem! Na economia
De palavras no brado
que se ouviu em Gettysburg,
Na face triste do homem
Da algema rompida.

Vem! Nos cânticos
E réquiens de Varela,
Nos porões e no pendão
Do menino Cecéu,
Nos laranjais virgens.

Vem! e traze-me em mãos
Os venenos das cortes,
As bulas não lidas,
O imperativo do Corso,
Os amantes de Catarina.

Vem! Se desejares,
Traz nada: mãos vazias.
Nem a denúncia de Debord.
Nem a flor de Conh-Bendit.
Ignora o casal não-casal.

Vem! Deixa todos os delírios.
Os cubanos e os de Leary.
Que o álcool frua nos versos
Dos poetas postos em estradas.
Voa com o menino Guesa.

Vem! Mas não fecha a janela
Para o vento. Deixe o corvo
Instalar-se sobre meu seio.
Empareda gastos e planos.
Verte sílabas aritméticas.

Vem! E impera-me!
Constrói-me mandamentos
Sem contudo realçar-me
Na lava da Teofania do Sinai
E o genuflectir dos povos.

Vem! Com o braço dado,
O abraço queimoso do Sol
Na areia pura dos tempos.
No beijo ateu e crente.
Vem e envolve a Terra.

Vem! Dentro e fora
Da realidade ou do vagar
De cada pensamento
De glória ou do castigo.
Vem facho de alegria.

Vem! Assiste de perto
Minha morte, pois assim
Deve ser no quando de tua
Chegada: eu pó da estrada
Amando a ti e toda redenção.
 
 

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