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O CAMINHO DA VIDA

01 jun

(pensando em Kurosawa)

Na minha cidade não havia bondes.

Mas sei que os perdi. Várias vezes.

Um dia, peguei o destino e me fui

a um lugar aonde não soube remar.

Encontrei bondes que não eram meus.

E meus barcos e velas submergiram

no asfalto de minha indefinição.

Voltei. E continuei vendo bondes

imaginários passando dodeskaden

defronte meu coração de fantasia

no relógio imenso e febril da estação

do trem que velejava por cafezais.

Talvez por isso não me tinha cais.

Nem mar, baía ou costa navegável.

Apenas vielas e córregos interiores

pensados como uma imensidão.

Hoje sei que foram sonhos o que perdi.

Um a um foram embora sorrindo

um amarelo de abandono. Passei

a locomover-me por versos singrados

ou com trilhos, que se tornaram a fábula

de mim mesmo. Com montanhas, bondes

e lagos. Todos eles de era uma vez.


31.5.18

 
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