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DO ÔNIBUS

09 jun

Escuto a fala da moça

que explode dentro do ônibus:

num instante estava vivo

e assim por nada, morto.

Todos os meus sentidos

se tornam estrangeiros.

As palavras abarrotam

minha cabeça de ratos

e paro de raciocinar.

Olho para a rua. Penso

no movimento da Física.

Pela janela, duas mãos

pequenas comemoram

um álbum de figurinhas.

Esta dor ausente jorra

sobre meu ser um alívio.

Vem-me jogos de bafo

sobre ladrilhos vermelhos

em sombra de verdes

avencas. Conforta-me

ter vivido este antes.

A surdez desaparece

e os ratos se evadem.

Este tempo comprimido

na memória me dá a plural

inexatidão dos anos.

Um vento resignado

leva embora o fogo

da verdade ecoada

no retorno dos rumores.

A moça agora já sorri;

já vive outro instante;

aciona o sinal e desce

no ponto sem surpresa.

Aonde a morte e o batom,

que retira da bolsa,

são doados pela vida

na mesma e fatal bandeja.


8.6.18


 
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