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DESATINO

03 nov

Sou a nascente das solidões

perdidas em camas e casas

sem lençóis e telhados à vista,

com tapumes e olhos tristes.

Sou o sem irmãos ou o irmão

de coisas e fantasmas do éter

das ondas do rádio, imaginadas

aventuras e invejas de santos.

Eu sou de terras não minhas,

mas que sempre me desnudaram

frente aos monumentos dos largos,

dos mármores e lápides e pompas

em que sucumbi por um olhar

de falso entendimento, um riso

ou estranhos encontros da vida

com outras tantas desbotadas.

Eu sou da água que escorreu

por anos por sobre a calçada

que nas noites se transformavam

em palcos que se congraçavam

por gritos e correrias a afastar

horas de se afligir com a vida,

temores e culpas ancestrais

semeadas por mentes de gelo.

Sou o que recorda sem saudade.

O que luta no fugir ao que teima

em reacender totens e prazeres

que não passa fácil por ser dor.

Sou o de ter ficado sempre à janela.

Mas a fechada, de frestas venezianas.

O que via me ajudava a desamparar

todas as palavras e gestos de afago.

O Universo estava lá fora com setas

que medravam ao mais simples olhar,

ao toque prístino que amortalha.

Sou o de olhos fechados a ver a vida.

Posta naturalmente, a miopia

impõe-se como uma clara visão

do que se ancorou no passado,

por vezes praia, em outras lama,

como as pretensas religiões,

fogaréu na Terra, cinzas no Céu.

Sou mais um verso inacabado,

rascunho que se perdeu a cópia.

O livro fechado em palavras

escorridas pela mesa de madeira

antiga, que resiste, em gritos secos

ao que ouso chamar de Destino.

31.10.18

 
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