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A NOTA

09 nov

um nota desafinada

no piano da sala

um fá sustenido ali na terceira oitava a ecoar cacete

sobre o mundo em dias esgotados de tanta elegia

poderia ser de um noturno sem força

ou da mazurca que sobre o pentagrama marcha

com o  desleixo da nota na exiguidade do prumo

ser de um acorde a nota mais suja, a servir

de berço ao improviso mais negro, mais belo

um balanço ao corpo curvado de tanta memória falsa

a nota seria um rastro de fogo para a sala

que não existe mais

a ilusão de sonoridade que saísse como um bicho

sai da terra, filha da tecla desajustada e inútil

na  verdade apenas a aguda locução

de um bico, nascida na portinhola do cuco

no alto do estar só

do também ser nota alta como um grito

a embalar tardes e intuições

destas do agora desespero

por um piano que, pelo afã de existir,

nunca esteve naquela sala

3.10.18

 
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