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ISOLAMENTO

13 set
“O resto do mundo que temiam e evitavam”
Nota de rodapé
OS SERTÕES – Euclides da Cunha
hoje sou um verso minúsculo
e o resto é “terras grandes”
um olhar na janela
sem ver a nascente de quaisquer rios

hoje sou do Euclides, o tabaréu
e seu arcabuz
lá fora uma vastidão
em que não me reconheço

minhas mãos seguram meu queixo
fora da guerra santa
na caatinga das cidades

hoje sou algumas palavras
e o mundo inteiro me pesa
no travesseiro

hoje estou só
e o resto é um só

repulsado e oceânico
 
 

O RASGO

13 set
noutra noite em mim
um sonho:
o mundo saía do rasgo
da boca de Antonin Artaud

(um cigarro em desafio
pendia como um monólogo)

seus olhos não vi
mas o blackout de seu desespero

ondas curtas anunciavam
de forma wellesiana – o fim
da Segunda Grande Guerra

muda
Lili Marlene onomatopaica
nos corredores da dor de Rodez:
autorretrato do rompimento de todas
as encenações e respirares

um cinza frio deu soturnamente
a deixa
ao delírio nesta fábula cruel
 
 

BARATAS

13 set
notícias são como endemias
aos sentidos limitados do homem

o que se ventila nestes tempos
não cabe no peito

alforjes humanos não mais existem
como reserva de bálsamo

o saco de unguento
o descanso
o respiro
vão-se pelos ralos da inquietude
nos amanhãs nascidos a fórceps

sobra apenas um suspiro
entre o tique e o taque
para tirar a cabeça para fora
e respirar um ar estranho
que cria seres à feição
de Gregor Samsa
 
 

12 set

CAPÍTULOS VOZ

 
 

A CRIANÇA DE ALEPPO

12 set
a face da crueldade
tatuou meus olhos

bramem surdos por quês
nas tocas de pálpebras caídas

bombas respingam derazões
deixando nódoas nas cinzas

(o olhar da menina alagou
minha vida neste perdido 16)

um apócrifo poema de natal
retumba aquele rosto em choque

um não-choro erode o amanhã
 
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DO AMARGO PASSEIO

12 set
crimes e mordaça habitam
placas de ruas/avenidas/praças
onde a pompa de nomes
desvia o caminho da história

escorrem noite e dia
sangue de Serra Leoa
e vísceras da Sardenha

a verdade nos fundos dos mares
rubiáceos

heróis canalhas
indicam endereço e engodo
 
 

OFICINAS & GRAFITES

12 set
Em S. Paulo sacripantas
municipais e estaduais
praticam tiro aos pombos
mas não matam pombos.
O alvo como revoar de patos
é a Cultura que sofre a eugenia
em manhãs forçadas em cinza.

Ovos devoradores espalham
suas cascas pelas avenidas
traçando um rastro de assepsia
suposta e ininteligível.

Em S. Paulo hierofantes
praticam uma espécie
de Inquisição às avessas:
preferem queimar a alma
e deixar o corpo à deriva.
Não sabem que extirpar
é um verbo que passa longe
do significado do que seja ar.

Em S. Paulo – para a Arte,
há uma espécie de urubus
silenciosos e avassaladores,
mascarados de enxurradas
como as de suas enchentes
de perene irresolução.
 
 

HAICAIS

02 set

palidez do sol
primavera verde branca
limoeiro em flor

o sanhaço pousa
farta jabuticabeira
galhos provedores

olhos na janela
nuvens enfeitam a tarde
música no rádio

sol abrasador
embaralha o calendário
primavera ou verão?

no abacateiro
saguis promovem a festa
bananas no muro

no fundo do quintal
irregulares tijolos:
sobras da construção

2016

 
 

VENDREDI, 13

03 jul
Vejo-te, sem graça, arrancar
um fio de cabelo indesejado.

Da janela do quarto assisto
um homem correr do sábado.

Um ônibus passa bem devagar
apinhado de histórias e sinais.

Acena-me, como mão náufraga,
envolto em pálido ladrilho
branco, um espelho enlutado.

Daí não ver o que meu rosto
traduz nesta manhã
em que a poesia das ruas,
dissolvida em notícias cruentas,
envergonhou-se do meu olhar.
 
 

LEITURA

03 jul

Deparo com a palavra desconhecida.
Tento intuir o que seja, o que me diz.
Apelo ao contexto da frase, do parágrafo,
da história,, do que já percorri, do copo
sempre cheio do autor. Nada.
Despudorada, rainha e fatal,
Desafia-me e chama de tolo.

Vou ao dicionário.
Lá está ela. Soberba,
já sem o mistério de antes,
mas com o mesmo sorriso de anjo
e meretriz que adivinho que desde
a escolhida. Se pudesse falaria a ela.
que a sonoridade que retumba
é maior que o seu reles significado.
Talvez a desabasse deste brilho
que atordoou minha vida
de leitor atento, pobre buscador
de vocábulos que me sejam
a combustão dos meus dias.

Não sigo mais a leitura.
Cai  sobre mim um engano de vida toda.
Uma incógnita avassala o pensamento:
ao ler, não sou o dono do meu olhar;
as palavras, frases, linhas e a solidão
do autor que me olham. Que me lêem.
Eles, no instante de leitura são meus olhos,
porta de entrada de meu ser, de quem,
com amável e guerrilheira aventura,
tomam posse. Sem licença ou pressa.

27.6.17

 
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