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Sábado Só Letras – Saulo Gomes

18 set
16.9.2017

16.9.2017

 
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DA DOR SEM DOR

18 set
como soluço contido
vômito que não fora
hora apartada do dia
a pele que empola
(na memória apenas)

a dor sem dor é abismo
mais: vontade de dormir
tempos sem medidas
de morrer mais de uma vida
sangria seca pedra e poeira

a dor sem dor sendo muda
não porta regougo nem foto
do pus que torto produz
o semblante medo espelho
parto simples do agouro

a dor sem dor – neblina
e noite sem riso copo vazio
vastidão de alegorias
colheita de tristeza
encontro do gestual pênsil

a dor sem dor é recordar
é constranger a estrada
que se guiou e não chegou

a dor sem dor de ser cego
por dentro da dor de dentro
da dor invisível
em que não se credita

a dor que grassa
que nasce pelo baldado
morre dúvida, não passa

a dor sem dor
é a dor do que foi feito
a dor sem dor
dor do desfeito
 
 

CONHAQUE E LIRISMO

17 set
Desconstruí um poema de amor
por não ter uma rosa.
Uma a uma, assisti palavras pelos ares.
Depois, no chão, perto de havaiana azuis,
vislumbrei nitidamente um mal me quer,
que, solidário com a tristeza,
não se despetalou.
 
 

O MEU STOP

17 set
espero o ônibus
ou uma saida?
 
 

O VULTO

17 set
Na casa velha da esquina, na janela
embaçada pela dúvida,
um rosto no alto. Dois olhos
que ferem mesmo penumbra,
mesmo sombra.

Raio de medo que me intercorre
como conhecesse os atalhos de meu interior
(moradia da maior parte de minha vida).

Sinto estar nu à procura de um oásis.
O incógnito fere minha pequenez
através do véu (ou de mim mesmo?),
trespassada por agulhas e pregos
que o olhar da janela aponta e julga.

Garrote a me fazer apenas  um molde
de ser humano que exala cheiros;
vulto que da janela expões as vergonhas
que nem me lembro mais,
mas que as sinto,
que as auferi na madrugadas geladas
de minhas embotadas percepções.

Silhueta que ameaça
aquilo que é o desconhecido
dentro de mim para mim mesmo,
o qual não há de rebrotar
depois de tanta culpa apinhada.

Fantasmas a me acompanhar
e dois olhos de mistério
acortinam a minha frágil história,
neste dia que poderia ter sido meu.
 
 

15 set

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ÁRIDO

15 set
“o terror da página em branco”
TENNESSE WILLIAMS
a desertificação do olhar
na paisagem do desespero
(ou da espera?) a nublar
a infinita forma que insiste
catalisar-se como fractais

em repetições de ausências
da palavra outrora solta
aterra a pena da chave
que liberta a vida que alimenta
a fúria do verso em espectro

que tarda a vir
que nega o nascer
que impede o aflar
do tanto que se dizer
com as mãos e os dedos

mas que neste instante
de grilhão apenas goteja

(fica para mais tarde o repartir)
 
 

RITOS E PASSAGENS

15 set
“No meio do caminho tinha uma pedra”
DRUMMOND
salta do papel
como um esquisito corner

atroa ao vento
a palavra-imagem
na lucidez do poema
que luz na aporia

tenta portas e cancelas de dúvidas
nas ultrapassagens
 
 

VOZES DISTINTAS

15 set
“que lutas íntimas travei!
Se soubesses como estava farto daquela vã tagarelice!”
CRIME E CASTIGO – Fiodor Dostosiévski
pálpebras indeliberadas
cabeça em Raskólnikov
fixa em olhos imos
de onde sai a voz intejetiva de falso extraordiário
e outra que arrepende
a voz que ecoa na alma
outra que imita pregões nas ruas de São Petersburgo
a que circunjaz o sonho de gênio
ou a que nem sequer espreita desenlaces
a voz que enxere
outra que é subalterna
a voz de ouro
outra inválida;
uma voz que suspira
embaixo da voz que metodiza
voz profunda que exala mortos
antagônica à voz que cede a sonhos de imperadores
no final pela voz de dentro (com São Lázaro)
o homem almeja a dor
desde que possa ser
o seu próprio carrasco
 
 

A LUZ II

13 set
(depois de tantos versos)
Vem! Escolhe um escaninho
De meus sentidos e apodera
De meus ossos, meu cerne!
Faz de minha falsa serenidade
O pé esquerdo de Blake.

Vem! Distingue-me em doses
De clarões da estrada de Damasco.
Acerta meus passos rumo
Aos vestígios de doçura
Da âncora da visibilidade.

Vem! De onde não quero saber
Nem lançar-me em busca
De seus possíveis retiro e porta.
Se queres, fecho meus olhos
Enquanto me inundas.

Vem! Sê tudo posse em mim
E abandona os pudores
E culpas e silícios e enfins;
Abriga os pruridos de hoje
E de tudo o que mais te tentes.

Vem e senta-te à minha esquerda!
Ficarei como o João de Da Vinci,
Para que tornes a égide
Do que preciso na fonte
Do descanso do sopro.

Vem! E se assim almejas,
Vem de punhal em riste,
A devastar meus campos,
Escravizar-me como índios
Das reduções de língua geral.

Vem! Alcança meu topo.
Esgarça meus sapatos
E impede novos caminhos.
Deixa o meu olhar extático
A ver santos e orixás.

Vem! burla pedágios,
rompe portais,
salta sobre cadáveres
que se estendem em vias
da ininterrupta veia que fere.

Vem! brinquemos de ser:
Tu, sonho, será Lennon.
Eu, MacCartney, o corpo.
Tu, o mais amado e eu,
O zelote epistolar, o da cruz.

Vem! Em naus estrangeiras,
Em proa de Garibaldi,
Com ira mas com amor
Nos braços de quem me encontre
Na boca de quem me lace.

Vem! Na economia
De palavras no brado
que se ouviu em Gettysburg,
Na face triste do homem
Da algema rompida.

Vem! Nos cânticos
E réquiens de Varela,
Nos porões e no pendão
Do menino Cecéu,
Nos laranjais virgens.

Vem! e traze-me em mãos
Os venenos das cortes,
As bulas não lidas,
O imperativo do Corso,
Os amantes de Catarina.

Vem! Se desejares,
Traz nada: mãos vazias.
Nem a denúncia de Debord.
Nem a flor de Conh-Bendit.
Ignora o casal não-casal.

Vem! Deixa todos os delírios.
Os cubanos e os de Leary.
Que o álcool frua nos versos
Dos poetas postos em estradas.
Voa com o menino Guesa.

Vem! Mas não fecha a janela
Para o vento. Deixe o corvo
Instalar-se sobre meu seio.
Empareda gastos e planos.
Verte sílabas aritméticas.

Vem! E impera-me!
Constrói-me mandamentos
Sem contudo realçar-me
Na lava da Teofania do Sinai
E o genuflectir dos povos.

Vem! Com o braço dado,
O abraço queimoso do Sol
Na areia pura dos tempos.
No beijo ateu e crente.
Vem e envolve a Terra.

Vem! Dentro e fora
Da realidade ou do vagar
De cada pensamento
De glória ou do castigo.
Vem facho de alegria.

Vem! Assiste de perto
Minha morte, pois assim
Deve ser no quando de tua
Chegada: eu pó da estrada
Amando a ti e toda redenção.
 
 
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