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Saudade da Labib Zogby

21 mar
23.5.08

23.5.08

 
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CRÔNICA DO DIA DE SÃO JOSÉ

20 mar

Fiquei muito feliz com a escolha do escritor Inácio Loyola Brandão para a Academia de Letras. Um grande talento da literatura e do jornalismo brasileiro. Além de ter sido o arauto da coxinha de Bueno de Andrada e transformado a mesma em celebridade de farinha, batata e frango, com um preço que condiz com a fama adquirida. Mas não é por isso que pinço da minha memória o Inácio, e sim o seu hábito de sempre carregar uma pequena caderneta, onde anota fatos do cotidiano para, com sua brilhante criatividade, transformar em literatura, e da boa. Daí eu imaginar esse modus operandi nas viagens de ônibus urbanos atuais, onde as conversas aos celulares pululam (em voz alta), e de quantas cadernetas seriam necessárias para o devido recolhimento dos eventuais casos com potencial a serem consagrados em crônicas, contos e outros que tais.

Basta uma viagem um pouco mais longa e pronto: negociações, mexericos à Candinha, reclamações das patroas, as moças que trabalham nas creches, o calor insuportável que aumenta a cada ano, os buracos de Ribeirão, críticas ao prefeito (outro dia vi uma jovem chamando o alcaide de Faz-me-rir, pensei na cantora  Edith Veiga; viram como se viaja na imaginação?), churrascos acontecidos “a cerveja estava quente” , árbitros de futebol e seus intermináveis erros,  e muitos outros assuntos que serviriam tranquilamente de fonte de inspiração para quem milita com as palavras. Mas sem dúvida, o maior personagem destes telefonemas é o marido. Inclui-se aqui o namorado, o amante ou o crush (na minha época apenas um refrigerante com gosto de laranja), ou seja o parceiro. O carrasco que ali se transforma em enforcado por vozes estridentes.  E dá-lhe histórias! Tem os casados e quem o traz é a amante, mas também pode ser a esposa reclamando do “bebum carnicento” que tem em casa (juro que ouvi isso), o namorado que gosta de maconha e não cumpre com suas obrigações (?). E dentro dessa classe, o assunto de ouro no pódio é o referido não gostar de trabalhar. Penso que percentual teria no triste quadro de desemprego no Brasil. (Pensamento bobo, mas não se segura a mente).

No dia de ontem, ouvi uma conversa completamente inusitada. A começar de  quem falava ao pequeno celular: um grisalho, com uns 70 e tantos, reclamando de sua esposa.  Conversando com o seu compadre. A senhorinha era uma alegre pessoa, adorada pelos netos, mas era viciada. Uma pobre viciada (palavras dele), perdida mesmo. Em bingos!

Ah meu caro novo imortal, se puder, dê uma viajada num ônibus urbano (ainda tem aqueles elétricos em Araraquara?). Recomendo.

19.3.19

 
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CRÔNICA DO DIA

18 mar

Meço a distância entre minha casa e a padaria, percurso que faço todos os dias caminhando (salvo se manhã de chuva forte; as fracas combato com um colorido guarda-chuva), sem utilizar nenhum padrão de distância que conhecemos e nem o entediante contar passos, coisa de velho que não adquiri. A minha trena são os bons-dias. Hoje, por exemplo, foram onze. É claro que pensei, no retorno, em time de futebol. Mas foram onze saudações dignas de um congresso da ONU. Várias idades, cor, religião e se quisermos acrescer novos tipos, vamos incluir as feições faciais, das quais tentamos subtrair o humor e quiçá pensamentos. E chego à uma conclusão, lógica e portanto simplória, que esses cumprimentos, antes de tudo, são uma festa matinal. E com direito a ser altamente terapêutica, pois ao exalarmos um bom-dia sorridente, efetuamos a verdadeira inteiração com conhecidos e estranhos, e como somos egocêntricos desde os primeiros segundos do dia, já demonstramos o quanto educados e por que não, altivos e superiores. Assim mostramos uma de nossas máscaras diárias sem o menor perigo de rejeição. Senhores, senhoras, jovens de mochila, comerciários esperando o busão (assumo o apelido para dar mais cor a esta minha pequena crônica), enfim um painel humano considerável em suas diferenças de vida. (Buscar pãozinho fresco para a esposa virou tratado de sociologia). Enfim, o bom-dia é melhor que qualquer coisa nas manhãs, melhor que caminhada, Tai Chi Chuan ou academia ao ar livre. É uma maravilha. Apenas às vezes, um pequeno acidente pode acontecer e o panorama mudar climaticamente. É quando encaramos muito um sorriso e esquecemos de cuidar do chão. Há gente que fez o mesmo trajeto antes , acompanhado de seu cãozinho, que desdenhou da calçada e deixou sua pequena lembrança para que eu a pisasse. Nesta hora, de chuva ou um límpido sol, raios caem sobre minha cabeça. E o cumprimento passa a ser daí em diante de uma forma levemente interrogativa: bom dia?

18.3.19

 
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NÓS E EU

13 mar

se me quiseres junto aviso

que não venho só – não sou só

tenho nos bolsos meus sonhos

envoltos em mim assim como

a casca da cortiça ou malha

colante ao corpo ensopado

de tentativas vãs – todas elas

símbolos das horas roubadas

durante os tempos em que deixo

de viver e invento vários jogos

sobre mim mesmo – todos ou

quase a maioria de retificação

se me quiseres por perto previno

que a metade do que vivo passo

sonhando com a outra metade

que aparenta o que deveria ser

entre as duas uma linha cega

divide o que chamo de jornada

não se confrontam nem querem

apenas delimitam o que sinto

e o que sinto é que uma se cala

e promove o que é da vida em si

enquanto a outra de sina etérea

canta e se resguarda em versos

a do chão é uma espécie de nós

e não se reluta em sorrir ao sol

mas a das sombras das palavras

só se mostra como um eu de asas

12.3.19 – 1h50 da manhã

 

13 mar

portas fechadas

à consciência humana:

sai a velha biblioteca

entra uma nova ferida

na cidade

que  ficou órfã

e nem percebeu

9.3.19

 

09 mar

vastas

as vidas

que a vida tem

vastos

os tempos

que o tempo tem

vasto o vazio

que nesta noite vem

8.3.19

 

06 mar

é tarde no corpo que apura o sexo

que em desdém – inexiste

a força da vida ficou lá fora

no sapateado das horas que se apressam

a cada etapa

uma fumaça que traga cada minuto

quando na imagem de um fim:

uma rua larga

infinita

de duração de segundos

seguimos

como um palito de fósforos – viramos nada

( o soldado do Grossmann disse

que só tem medo de morrer

quem não tem a alma simples)

5.3.19

 

06 mar

Vivo das realizações alheias.

Todas muito próximas de mim

enquanto desejo.

Todas muito distante de mim

enquanto impossibilidade.

Vivo da angústia do tempo

que arde em seus ritos.

Vivo assim, olhando fotos

de neve e sons de trompete.

Vivo assim, sem ser eterno.


2.3.2019

 

06 mar

Constrange-me a vida do poeta

que tanto leio.

Parece com a minha em muitos aspectos.

(Lá dentro do dentro, quero dizer)

Por si, isso já é censura.

Uma porta fechada ao confiteor.

Um pudor que assola quaisquer tentativas de expressar-me.

Sufocado de tanta semelhança;

morte ao leitmotiv geminiano.

Melhor escrever uma ode ao Pelé.


28.2.19


 

06 mar

Os fatos de hoje não são apenas notícias.  Crescem como hera em nossas mentes e corpos. Passam a residir dentro de cada um. São como pincéis a dar a cor ao nosso olhar. Mãos antes beijadas agora bolinam. Sombras nascidas do anteparo do susto, a cada minuto próximo alardeiam o divórcio destes tempos com a humanidade. E, como as vacas do adágio, já fomos pro brejo.

27.2.19

 
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