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IL PRIMO

14 jun

Ao Drummond

Antes de tudo, um sorriso

de criança. Antes de qualquer

verso  que nasça do quadro

na parede. Antes da festa

de interior que vire universal.

Antes de ganhar na loteria,

campeonato encruado,

saída do poema cá dentro,

pular a fogueira da aporia,

e o tudo. Então, antes do tudo,

o sorriso de uma criança,

nasça onde nasça.

Antes de tudo, o sorriso.

Antes do Modigliani,

da Parker 51, do posto

de capitão, gritar “toqueiro-primeiro!”

Enfim,  nada que preceda

o sorriso desdentado

e sedento de ambrosia

de uma criança. É isso,

antes de tudo,
do Gênesis, do Big Bang

e dos dinossauros,
bem antes da fé, o sorriso.
Da criança que, um dia,

já foi o mundo.


21.11.13

 

OUTONAL

14 jun

A música silencia a dor.

O verso emudece a humanidade.

A flor é instante mesmo sem cheiro.

O prazer é uma garrafa de água mineral.

Nua, a alma

não aceita contradanças.

(início, fim

ou alguma coisa entre?)

9.10.16

 

CAMINHANTE

11 jun

Nasci. Antes de andar ou falar,

já sonhava. Não lembro sequer

algum instante de liberdade.

Preso à projeções fora de mim,

aprendi lidar com a gangorra,

determinante de minhas horas.

Para não explodir todo o resíduo

que foi em mim acumulando

senti que precisava de evadir-me.

Tomei a rota das palavras e caí

na solidão rodeada de afetos

contrários, quase todos de planos

a edificar-me como cópia reles

de gente que o tempo apagou.

Hoje, nada sei sobre lucidez.

Apenas que sou o de sempre

atrás das portas e de poemas.

Enquanto escrevo, penso ser rio;

lento, mas ansioso, um contínuo

caminhante em direção ao mar.

Como não vou entender a morte,

não sentirei o fim; um sono

sem o despertar matutino, só.

10.6.19

 

HAICAIS

08 jun

A buzina alta

a cidade alvoroça.

O haiku estranha.

O pó da estrada

descansa sobre a terra.

Mas o vento sopra!

As flores no quadro

existem pela metade.

Só servem aos olhos.

10.5.19

 
 

07 jun

Poetas carinhosos me indagam

o quê me leva a insistir em usar

pontuação nos poemas que fabrico,

que isso é coisa do passado.

Respondo que a razão é essa mesma,

assim o faço por ser coisa do passado:

um acordo tácito, desde há muito,

com  Antonio Vieira. E, mais ainda,


- Deus me livre de praga de padre!

6.6.19

 

FUGA

07 jun

E se o verso fugir de casa?

Como um encontro ao portão

aberto depois da prisão

dentro da estrofe sem graça,

cheias de métricas e rimas.

Sair ao respiro da oralidade

da boca da moça que quer dize-lo

na rádio no horário da noite,

antes das canções

de sucesso para sempre.

Correr pelos becos da madrugada

e encontrar seus pares de pés

e ombros forjados nas ilusões

de garrafas e dos meios-fios

buscados nas verdades

que jamais florescem.

Sorrir com o sorriso

que a aurora deve trazer

senão no ventre,

posto ser o próprio ventre,

mas num colo com cheiro de café

e gosto de pão com manteiga

repleto de luminosidade

a devorar a escuridão

que já terá ficado presa na história

que se contará de mais

de um dos milhares de ontens.

Brindar com o sol da manhã

e rir dos poetas concretos

que o disseram inexistente

de forma séria, sisuda,

cheios de dogmas de fé

e ele nunca que deixou

de pular carniça.

Assustar os homens

presos a carros e sobras de lixo,

que correm com as suas vida

em seus encalços e ansiedades,

buscando tudo menos a poesia

que ele carrega com a alegria

de quem ampara um cãozinho

de olhar de amor,

desses que não estão nestas ruas

nem nas mochilas carregadas

de tudo que é cinza.

Sabedor de sua efêmera duração,

mas de seu enorme servir,

não tentará mudar o mundo.

Apenas tentará fazer respirar

quem estiver de cabeça e olhos

ao chão como a humanidade

acostumou-se no esperado

e cantado terceiro milênio.

Depois dará uma passada em Ítaca,

antes de me chegar novamente.

5.6.19

 

ANIVERSÁRIO

07 jun

Caminho no interior da memória

(timão dos eixos). Resulto mendigo

na asfixia aquartelada. Duvidoso,

percebo o absurdo do calendário:

se o tempo não fosse números

doeria menos. Se doesse menos,

seria uma viagem de instantes,

sobre nuvens ligeiras e leves.

4.6.19

 

ELA

07 jun

Minha alma é conviva da vida,

desgarrada de quaisquer mortes.

Precisa do ar de que me sirvo,

da dor que me ativa, do som

das calçadas. A minha alma

só mostra do futuro meu medo.

Tudo nela não jaz. Tudo  nela

segue a natureza que me habita.

A minha alma prepara versos

em estado de argila e despeja

em minhas mãos que os tomam.

Depois, vestida de alívio, segue

seu destino de estar atenta

aos meus passos que tropeçarão

nas próximas esquinas e febres.

A minha alma ensina ao meu eu

que a imite, que embole a vida

e a arte num mesmo balaio,

desde que se mantenham longe

palavras que não as diferencie,

as inexatas que dizem nada.

E quando descanso meu corpo,

minha alma sonha com caminhos

e se prepara para escalar etapas

das dúvidas que nasceram antes

da carga que lhe impôs minha vida.

Quando me sente triste, me agrada

e se desvela eterna, companheira

para todo o obscuro do amanhã.

Põe as mãos sobre minha cabeça

e diz para em nada se desacreditar,

que a vida, assim como a poesia,

em suas essências, são mistérios

que elevam o Espírito que nos tem.

A minha alma é o meu travesseiro.

1.6.19

 

TEMPO DE DESVÃO

04 jun

Mornado o renque de estames

que conduziu como vagões

minha vida desde o instante

que sem pré-consulta vim

aviltar as horas de fados

recíprocos e dissonantes,

tenho a sensação de concrescer

em linha rumo ao termo;

ao que denoda a passividade

que esperei como refúgio

nesta fase outonal cujos medos

pulverizam-se em ex-lutas

ao se ter a mescla do não retorno,

da fila que impele,

da entrega maciça de perimir,

da constatação do ciclo.

É quando a caverna da alma

abre o recôndito  à mente

e se busca o peremptório

lugar no mundo outro tanto

prometido, que por tempos

escarnecidos, surge, chave

de um corte inesperado,

que se espera, remando em águas

furtivas, em posses e desejos

que a cada passo nestes dias,

manifestam-se inócuos e frios,

agora com o discernimento

a tolher um passado sonhado,

aunado em tentativas

da inexistência do amanhã.

É quando temos o tempo

fora das nossas amarras,

flutuando em torno, como

sombras, desvaneando

amanheceres longe

do que denominamos chão.


7.12.05

 

31 mai

Olhos d’água sustentam a noite

na escadaria; duplos lalarilarás

agudos no hino boêmio. Embora

tudo e mais, solidões campeiam

cada mão. Noite esquecível

em que sobrarão latas vazias

a sustentar o cigarro da manhã.

30.5.19

 
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