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METÁFORA

29 dez

as palavras na calçada

escorriam:

daí falei.

quando escrevi

as palavras engoliram a calçada.

27.12.18


 

NOMINALISMO

18 dez

A derradeira palavra

sobre este século vinte e um

(desconfiado de ter vindo à furo)

ainda não existe;

algo como sob escombros,

fora do gozo,

que lateja mofos.

Um anjo de Milton decaído no mar da perplexidade.

Lágrimas secas

como  a palavra

que ainda não existe  nem na dúvida de que existirá.

13.12.18

 

LISBOA

18 dez

Vou aos Fernando Pessoa

pelo Carris de Lisboa.

Não aos versos

que já (de)moram em mim

desde que fui filho

na capa surrada/marron

da Aguilar.

Vou ao ectoplasma

(de negro fato),

das pernas cruzadas embaixo da mesa

do Café Arcada.

Vou para a face

desconhecida da morte

renascida de uma arca

para assombrar seus irmãos

envoltos em negros véus

da penitência.

Vou respirar

este verso míope/pagão

que bradou ao seu povo – I will

por não ter como dizer

em delírios bêbados  – I am.

Vou a Lisboa

para encontrar Fernando Pessoa

viventes -  soltos no ar,

(almas que a tudo espreitam)

ou a qualquer parte do mundo

com a poesia posseira deles

no âmago de toda a gente.

9.12.18

 

Reunião anual do Grupo de Leitura Dom Quixote

16 dez
16.12.18

16.12.18

 
Sem comentários

Adicionado em FOTOS

 

MOMENTO

26 nov

com a sensação

de que não queria

estar aqui agora

junto com a sensação

de que agora não

saberia dizer onde

gostaria de estar

23.11.18

 

O MURO DE PEDRAS

26 nov

Fixo no muro de pedras

outro olhar,

o da fantasia.

Vejo rostos disformes/

mitológicos

que deveriam assustar,

posto estarem na posição e essência

de espelho de labirintos

prontos a vasculhar o que penso (e vejo)

enquanto doido

na banda

em que transito a maior parte do tempo.

A razão – censora da mente,

previne serem as pedras colocadas por gente.

Supõe um pedreiro que não tinha tempo

para carregar um escultor em si:

sobrepôs pedras como seu ofício

sem a doença de pensar em legado

(jamais sonharia em desvendar almas).

Mas o muro ali está

pequenas manchas

(heras?)

me repartem

entre nossas existências.

A janela que sequer se surpreende

como cúmplice de um vagar de espírito.

Os rostos ali pontificam espectros:

máscaras que um dia terão vida

aprumam versos de como resistir

contra a irrealidade de pântanos

que tende a deixar marcas.

21.11.18


 

PÁSSARO DE INVERNO

26 nov

trago a vida de hoje

como  passos sem roda

na cidade despreparada

para sonhos lentos. junto

com escadarias (muitas)

coleciono anacronismos.

meu pai sentenciou

num dia de riso de largueza

cínica: sou do contra:

tomo banho em águas de rio

ainda não passadas.

nas  tardes

sento em nuvens

por aí

pulverizado

como um plural.

19.11.18

 

CASA DE ONTEM 5

19 nov

a rua solarenga de minha infância

me intuía:  as diferenças

entre os seres que lá habitavam

mostravam que daí seriam a vida

e suas vielas a arcar – colorário

de frestas

muros múltiplos

e esperas da morte

(anos depois sinto que meus sustos

foram falsos – já tinha em mim

todas as jornadas sentidas)

17.11.18

 

A NOTA

09 nov

um nota desafinada

no piano da sala

um fá sustenido ali na terceira oitava a ecoar cacete

sobre o mundo em dias esgotados de tanta elegia

poderia ser de um noturno sem força

ou da mazurca que sobre o pentagrama marcha

com o  desleixo da nota na exiguidade do prumo

ser de um acorde a nota mais suja, a servir

de berço ao improviso mais negro, mais belo

um balanço ao corpo curvado de tanta memória falsa

a nota seria um rastro de fogo para a sala

que não existe mais

a ilusão de sonoridade que saísse como um bicho

sai da terra, filha da tecla desajustada e inútil

na  verdade apenas a aguda locução

de um bico, nascida na portinhola do cuco

no alto do estar só

do também ser nota alta como um grito

a embalar tardes e intuições

destas do agora desespero

por um piano que, pelo afã de existir,

nunca esteve naquela sala

3.10.18

 

DESATINO

03 nov

Sou a nascente das solidões

perdidas em camas e casas

sem lençóis e telhados à vista,

com tapumes e olhos tristes.

Sou o sem irmãos ou o irmão

de coisas e fantasmas do éter

das ondas do rádio, imaginadas

aventuras e invejas de santos.

Eu sou de terras não minhas,

mas que sempre me desnudaram

frente aos monumentos dos largos,

dos mármores e lápides e pompas

em que sucumbi por um olhar

de falso entendimento, um riso

ou estranhos encontros da vida

com outras tantas desbotadas.

Eu sou da água que escorreu

por anos por sobre a calçada

que nas noites se transformavam

em palcos que se congraçavam

por gritos e correrias a afastar

horas de se afligir com a vida,

temores e culpas ancestrais

semeadas por mentes de gelo.

Sou o que recorda sem saudade.

O que luta no fugir ao que teima

em reacender totens e prazeres

que não passa fácil por ser dor.

Sou o de ter ficado sempre à janela.

Mas a fechada, de frestas venezianas.

O que via me ajudava a desamparar

todas as palavras e gestos de afago.

O Universo estava lá fora com setas

que medravam ao mais simples olhar,

ao toque prístino que amortalha.

Sou o de olhos fechados a ver a vida.

Posta naturalmente, a miopia

impõe-se como uma clara visão

do que se ancorou no passado,

por vezes praia, em outras lama,

como as pretensas religiões,

fogaréu na Terra, cinzas no Céu.

Sou mais um verso inacabado,

rascunho que se perdeu a cópia.

O livro fechado em palavras

escorridas pela mesa de madeira

antiga, que resiste, em gritos secos

ao que ouso chamar de Destino.

31.10.18

 
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