RSS
 

09 mar

vastas

as vidas

que a vida tem

vastos

os tempos

que o tempo tem

vasto o vazio

que nesta noite vem

8.3.19

 

06 mar

é tarde no corpo que apura o sexo

que em desdém – inexiste

a força da vida ficou lá fora

no sapateado das horas que se apressam

a cada etapa

uma fumaça que traga cada minuto

quando na imagem de um fim:

uma rua larga

infinita

de duração de segundos

seguimos

como um palito de fósforos – viramos nada

( o soldado do Grossmann disse

que só tem medo de morrer

quem não tem a alma simples)

5.3.19

 

06 mar

Vivo das realizações alheias.

Todas muito próximas de mim

enquanto desejo.

Todas muito distante de mim

enquanto impossibilidade.

Vivo da angústia do tempo

que arde em seus ritos.

Vivo assim, olhando fotos

de neve e sons de trompete.

Vivo assim, sem ser eterno.


2.3.2019

 

06 mar

Constrange-me a vida do poeta

que tanto leio.

Parece com a minha em muitos aspectos.

(Lá dentro do dentro, quero dizer)

Por si, isso já é censura.

Uma porta fechada ao confiteor.

Um pudor que assola quaisquer tentativas de expressar-me.

Sufocado de tanta semelhança;

morte ao leitmotiv geminiano.

Melhor escrever uma ode ao Pelé.


28.2.19


 

06 mar

Os fatos de hoje não são apenas notícias.  Crescem como hera em nossas mentes e corpos. Passam a residir dentro de cada um. São como pincéis a dar a cor ao nosso olhar. Mãos antes beijadas agora bolinam. Sombras nascidas do anteparo do susto, a cada minuto próximo alardeiam o divórcio destes tempos com a humanidade. E, como as vacas do adágio, já fomos pro brejo.

27.2.19

 

AMAS COMO VÊS; CRIAS

03 mar

Fora a noite

de dentro

da ogiva em que me destravas.

Fora outros gatos

dentro

do cérebro soturno.

Fora das páginas dos livros

vale o que sonhaste:

árvore solitária.

Que fora do caule

uma folha cai em dança metafórica;

traz algo como a morte.

Fora do invisível

que veda seus olhos e sentidos,

resistes.

Fora de tudo

amas o que inexiste

em mim.


 

CESTO DE FAGULHAS

03 mar

Desço pelas ruas pisando a noite.

Fatos mortos se intervalam entre si

sem pausa, como um folheto

em velhos almanaques. Ávidas

recordações espocam transitórias.

O tempo não resiste às lembranças.

O tempo inexiste a um cérebro espesso.

O pensamento rompe qualquer noção

de datas ou agendamentos confusos.


Estou agora nesta madrugada fria

desafiando serenos e ratos,

mas carrego comigo o sol do Rio

ao pensar em pessoas que sei vivas

que caminham na manhã

as quais invento por vontade,

por uma saudade

ou sonoridade de um mar melancólico

na quase certeza de uma dor já evitada.


Atravesso triunfalmente um beijo

de língua que ficou num sábado

qualquer do Universo ou aquele

acorde de quinta aumentada

que faltou para ela quando me agradava

com The shadow of your smile em ré menor.


O que eu quero mesmo é estancar o sufoco

de tanto de mim dentro de mim.

E que o tempo se revigore

e me remova das noites irmãs;

que eu seja apenas passos.


Para a oferenda indivizível de chão.

Sem o espírito da escuridão

e seu cesto de fagulhas,

chafariz de névoas antepassadas.

 

REDENÇÃO

03 mar

Eu, como Lennon,

não acredito em mais nada.

Nem na minha pretensa indiferença,

nem a tudo que foi acabado,

pronto a ser servido.

Acredito apenas nas minhas inseguranças

tornadas sangue.

(fazem festa dentro de mim)

Mantenho um sorriso largo

atrás da porta

a tomar contas das manhãs.

Assim me absolvo.

2.7.13

 

BRASIL

02 mar

Despejo meu lirismo na latrina do Rei.

Sufoco o dia como os Pios de Roma,

posto trazer em si um novo Sol,

que prenuncia algo de novo,

de reiterados embriões.

Estou noctívago e barroco.

Penso que o momento cansa a vida,

sua vítima dileta.

Mas descubro que o país

já me aterrou muito mais.

Essa falta de traquejo em dor

cívica me embaraça:

acabo misturando horrores.

O que o tempo traz.

O que o tempo abandona.

O que o país estarrece.

O que nos vicia.

Se o tempo nos cadaveriza,

o Brasil me apunhala aos poucos.

Lâmina afiada nas mídias retalham

corpos e credulidades. Confianças

extenuadas de tanto atoleiros

no barro desta estrada

que nos conduz

do parto até a morte. Não tenho

clarificado em mim se a cada dia

sou um brasileiro velho que toma a chuva

do tempo ou do país. Sei que ambos

não mais riem de minha idade.

Nem o tempo nem a Nação.

Mas da esperança, sei não.

 

LUTA

02 mar

Um poema danado e lutador

como um peixe,

brigou muito para mostrar

que a arte pode servir

de guia ao pensamento

e ajudar a pobres humanos

a se colocarem acima de reses.

Mas de nada adiantou.

Nestes tempos em que vivemos,

o poema danado e lutador,

feito peixe,

caiu na rede.

7.12.17

 
Page 4 of 81« First...«23456»...Last »