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BUCÓLICO

15 out
pela janela
a rua se abre
vazia

um pássaro bica o silêncio

tudo seria claro
puro e manhã
se lembranças fossem mortais
 
 

DO APOCALIPSE ÍNTIMO

26 set
espectros da noite assombram
curvas da tarde como maré:
alta onda que avança lambendo
o fim do dia de um fim de ciclo

paixão posta a termo
um de profundis na pele
o último sexo pleno de trombetas
queda de wi-fi
boca toda seca
nos dedos
nos bolsos
nas gentes
nos dentes cerrados
nos gemeres e sentidos e cios
nos afazeres incompletos
no olíbano que no ar lento queima
no tuíte sem lógica para um quê

na toca o baseado no toco
resto de nina no piano
o copo
o corpo
espada ouro paus
as costas
as dores
o embaçar dos óculos
dos olhos
do amor

nuvem de penumbra a proclamar
que o dia está morto

o ocaso não foi além
de se sentir aquém
 
 

UM VELHO VASO

20 set
solidão é não enxergarem você
como você
não suspeitarem de sua alma
não quererem sua sensibilidade

olharem você sem zelo
(sem vê-lo)
com olhares de sorrisos inarmônicos

solidão é estar rodeado
e permanecer como pedra
temor de escuro
cinema abandonado
um buraco na madeira podre
que sustenta o velho vaso de antúrios

solidão é olhar você até doer
sua invisibilidade
que só se esvai
quando se retorna ao estar só
com palavras mudas
- almofadas de silêncios
 
 

Sábado Só Letras – Saulo Gomes

18 set
16.9.2017

16.9.2017

 
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DA DOR SEM DOR

18 set
como soluço contido
vômito que não fora
hora apartada do dia
a pele que empola
(na memória apenas)

a dor sem dor é abismo
mais: vontade de dormir
tempos sem medidas
de morrer mais de uma vida
sangria seca pedra e poeira

a dor sem dor sendo muda
não porta regougo nem foto
do pus que torto produz
o semblante medo espelho
parto simples do agouro

a dor sem dor – neblina
e noite sem riso copo vazio
vastidão de alegorias
colheita de tristeza
encontro do gestual pênsil

a dor sem dor é recordar
é constranger a estrada
que se guiou e não chegou

a dor sem dor de ser cego
por dentro da dor de dentro
da dor invisível
em que não se credita

a dor que grassa
que nasce pelo baldado
morre dúvida, não passa

a dor sem dor
é a dor do que foi feito
a dor sem dor
dor do desfeito
 
 

CONHAQUE E LIRISMO

17 set
Desconstruí um poema de amor
por não ter uma rosa.
Uma a uma, assisti palavras pelos ares.
Depois, no chão, perto de havaiana azuis,
vislumbrei nitidamente um mal me quer,
que, solidário com a tristeza,
não se despetalou.
 
 

O MEU STOP

17 set
espero o ônibus
ou uma saida?
 
 

O VULTO

17 set
Na casa velha da esquina, na janela
embaçada pela dúvida,
um rosto no alto. Dois olhos
que ferem mesmo penumbra,
mesmo sombra.

Raio de medo que me intercorre
como conhecesse os atalhos de meu interior
(moradia da maior parte de minha vida).

Sinto estar nu à procura de um oásis.
O incógnito fere minha pequenez
através do véu (ou de mim mesmo?),
trespassada por agulhas e pregos
que o olhar da janela aponta e julga.

Garrote a me fazer apenas  um molde
de ser humano que exala cheiros;
vulto que da janela expões as vergonhas
que nem me lembro mais,
mas que as sinto,
que as auferi na madrugadas geladas
de minhas embotadas percepções.

Silhueta que ameaça
aquilo que é o desconhecido
dentro de mim para mim mesmo,
o qual não há de rebrotar
depois de tanta culpa apinhada.

Fantasmas a me acompanhar
e dois olhos de mistério
acortinam a minha frágil história,
neste dia que poderia ter sido meu.
 
 

15 set

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ÁRIDO

15 set
“o terror da página em branco”
TENNESSE WILLIAMS
a desertificação do olhar
na paisagem do desespero
(ou da espera?) a nublar
a infinita forma que insiste
catalisar-se como fractais

em repetições de ausências
da palavra outrora solta
aterra a pena da chave
que liberta a vida que alimenta
a fúria do verso em espectro

que tarda a vir
que nega o nascer
que impede o aflar
do tanto que se dizer
com as mãos e os dedos

mas que neste instante
de grilhão apenas goteja

(fica para mais tarde o repartir)
 
 
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