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FENDAS FUNDAS

25 mar
sejamos pacientes
com os mistérios
da vida
da poesia
do que não há claridade

deixemos os rios
se levarem
se lavarem
os ventos silvarem
solverem
indagaçãos desnecessárias

sejamos leves
antes que a vida
num instante
nos mostre
o quanto é breve

fendas
fundas podem abrir
aquilo que perde o belo
se a escuridão
finda

e se definir,
morre
 
 

ENTRE PALAVRAS

25 mar
entrepalavras
entes bercário
fundo musical
do silêncio e da linguagem

nega-se o papel de nascer ou ser
algo a mais do que cumprir
a ativa ação de atinar o compasso
e o entendimento visual do poema

como o azul
entre árvores
que olhos deitados
fogem da visão
da cidade fuligem

como linhas
do pentagrama
ao permitir pendurar
pontos negros provedores
de toda emoção

como o branco
do papel é a cela
desejada de toda palavra
o entrepalavras aparece
se não proto agon
mas Sancho Pança:

pequenas molduras
internas e precisas
que, como droga,
adulteram
nossa percepçao
 
 

CLARA MANHÃ

25 mar
vãos pensamentos (sãos?)

na mente
duchas de ardis
na imensidão da manhã
rotunda de clara

arte de cortesã
(nicho & recall)

flores se devaneiam dândis

versejam todas como o anzol
(retalham em 5-7-5
haicais em caracol)

melhor voltar a entender
como semear
em tempo bemol

melhor para entender
o sol
 
 

O FLANAR PÓS-TUDO

25 mar
a fala que ouço
- ruído traço

nesta cidade-desmaio
da palavra que destoa
no colo sem afago do antiborbulhar da árvore seca
chuva tacanha
açude vazio

tarde e poemas vazios
passo vazio
buscam a essência tola diante de tijolo/cimento
em ombros de farricoco

poesia de Acácio
sem tino

olho & olho
o estribilho
caolho

(nem volta há)
 
 

O PESO DA POESIA

25 mar
quanto mais tardes se adejaram
mais versos meus viraram culpas,
ciladas da vida, estreitamentos

e surpresas más; um avisei-te
a embaralhar guizos da memória
que ressoam como uma lápide
no quando de um porquê invasivo

rompe em nó o claro da imitação
da natureza que abriu sua guarda
(noutra tarde, talvez)
a uma morfose poliédrica de sonhos
 
 

A FESTA

24 mar
derrota para a poesia
sem fingimento
enterrada entre sopros
de fogueira fria
suposta arte alérgica
cinge mantos líricos
e vence/ilude sempre
impossível
ficar
impassível?
pois se fica
se cala
se recolhe
perto da festa
porto de aresta
parte de fresta
sem luz
versos de nunca inundam o presente
sonegam versos de muro
versos do futuro
versos do fruto
versos do fértil
(derrotado pelo atraso
ao acaso
sustento sorrisos
congelo em fotos
escondo fatos e fitos)
busco na noite enferma
um grito

 
 

NÃO

24 mar
não à poesia de uma só lida
do passar de olhos
da poeira precoce sobre todo o pensamento

antes e sempre: o punhal
nos olhos tantos que amealhar

antes da noite do refúgio
síntese de dor e obséquio

o verso tem vocação para dormir tarde
a vida: vocação para o fim
falta de poesia – vocação nenhuma
 
 

POEMA NASCIDO COM A MANHÃ

24 mar
Acordo o dia com palavras
em forma de vasos líricos,
repletos de Drummond.

Lá estão elas – chaveadas,
trancadas no fundo do baú
cheio de ouro das minas,

alteados das mãos e dos cabelos
dos escravos (dos mais sofridos
aos mais sabidos) – lá estão

como um raio de anil,
anunciando o tempo perene
e intocável da poesia por

mais de sofreguidão que tenha
tido em seus caminhos de busca
e desencontros – lá estão elas,

as loucas e as santas, alterosas,
as nuas e as revestidas de festejos
dos dias do Império, lá estão

todas elas,
como um abanão
em nossas verdades incertas.

Lá estão alvorando
como um sino sultão
no alto de torres onde o sol

anuncia a ambulacro.
Lá estão proclamadas;
sentido para a vida.
 
 

RIMA APÁTICA

24 mar
a utopia
dorme e espera
o tempo de ousadia
 
 

MUSA CONFUSA

24 mar
a morte só sai
de dentro de nós
quando chega
 
 
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