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05 abr

Extrair a fantasia do solo

pressuposto fértil mas dorido

como a erva feita bálsamo

a desencravar o que dentro

mortifica e embolora se tardia

como um balaio de tempos

acumulados em irresoluções.

Recomeços de novamente

irão prevalecer às palavras.

E serão necessárias outras,

espelhadas sempre em ciclos.

Como um moto-perpétuo

mantendo na mesma bandeja

a dor da vida e a chama poética.

Escrevemos buscando finais

mas que são areia de deserto:

durante a claridade do dia

queimam a pele e os desejos;

nas noites escuras congelam

todos os instintos revoando

grãos sobre o que nos alteia

em dunas aquilo que somos.

5.4.19


 

03 abr

horas abarcadas, manhã

embaixo do ar, nuvens

de secretas imagens, olhos

invisíveis  e recuos, pálida

vertigem, fugas cínicas

de imagens do passado;

(o verso em meio nasce,

flutua e se escora em asas

mas logo ruma ao seu limbo

por caminhos de elefantes)

há de por termo ao sentido,

fincar braços sem amarras

repicar o velho sino do sono

– quem sabe um fundo de ser

para um infalível mergulho?

6.10.15


 

03 abr

Isolar o sol e o sorriso para mais tarde

(na tarde que vazia virá)

Não haveria sentinela para o tempo.

Mesmo assim (por mania),

almejamos a tudo

manhã e notas musicais

notícias

flores

versos,

que depois serão decaídos no papel,

no arquivo com vírus,

na cabeça ácida de olvidamento.

Tudo na vida é muito igual,

cópias.


7.10.15

 

03 abr

Somos censores naturais.

Cabeças com seis décadas

de lembranças,

pinçamos as não amargas,

as palatáveis: cerejas

da memória.

As sobras sofrem cortes

bruscos com a tesoura

do tempo a piratear dentro de nós.

Os fatos nos convivem

como cartas náufragas ao léu

no emaranhado de dias vividos.

Somos os naturais censores

de nós mesmos – torturados.

8.10.15

 

29 mar

não me tenha

como louco

apenas é meu

o medo

de ser pouco

11.3.19

 

MANHÃ DE SOL

28 mar

Saio para a caminhada

e volto com um poema.

Um poema que tinge a pressa.

Que tangencia as expectativas

atléticas. Um poema que ignora

a realidade, sequer nota

os rebentos dos poros.

Um poema além do corpo.

E do mundo.

Saio para a caminhada

e o canto revigora-se.

Enquanto as pernas apenas doem.

28.3.17


 

CRÔNICA DO DIA

26 mar

Ouvi muitos xingamentos na minha vida. Meus ouvidos escoraram muitos. É bom que se diga que a maioria não foram dirigidos a mim, e sim os ouvi em alguns conflitos presenciados e, na maioria deles, ditos ao léu como forma de desabafo ante situações de futebol e política, na sua maioria.

O mais corriqueiro, claro, é o de atacar a honra da mãe de outrem, com variadas estruturas, como o tradicional e mero filho da puta, ou o passar o filho para o feminino e xingar tanto homem com mulher. Também já ouvi ser usado como filho das ou filho de uma. E até um eufemismo simpático “quem não fizer tal coisa, a mãe não é santa.” Varia ao gosto das bocas, que adoram poder xingar.

Jesus, doce criatura, quando os fariseus passavam da medida (e sempre o faziam), sonorizava um “raça de víboras!”.

Mas eu gostaria de mencionar uns mais inusitados: um amigo de infância que ao sinal de qualquer raiva, lascava um “vai bundar com o Frederico!” Ora, o verbo bundar, um neologismo de primeiríssima classe na criação dos mesmos, pode ser fácil o entendimento. Mas e  o tal Frederico? Algum sentido fálico para um simpático nome. (Tive um grande amigo assim chamado, era juiz de futebol; partiu antes do apito final, saudade.) Durante anos fiquei matutando (coisa de avô) o Frederico inserido neste sem dúvida palavrão, dada a forma vociferada como era exprimido.  Acabei por abandonar a dúvida  e a pesquisa. O tempo passou, não mais ouvi ninguém o utilizar. Sumiu da história.

Agora, tinha um tal de Joecy, que fugiu de sua casa para acompanhar um circo, que além de bom de briga, era um ás do xingamento. O que mais usava era menos raivoso que tantos outros que ouvi, porém gritado de forma sempre enigmática. Em qualquer contenda, lá vinha o Joecy, de alcunha Mister, com o seu formidável “seu cara de onguborutu, feição de bode mocho!” Segundo apurei tinha aprendido com seu pai, um nordestino com muito orgulho do nome que carregava, o seu Virgulino.

25.3.19

 
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CRÔNICA DO DIA

24 mar

A chuva daquela tarde caíra mensal. Foi que entendi do que a moça do tempo disse na TV. Uma grande jarra despejando água num copo. Não me furtei à imagem. O pensamento se evade com a precisão de um raio sobre um mapa mundi colocado na mesa de nossos olhos fechados. O mestre Lupicínio matou de vez quaisquer tentativas de elaborar versos neste sentido com o genial “o pensamento parece uma coisa à-toa mas como é que a gente voa…” E nessa profusão que a mente provoca, olhando as águas de março (o Tom, nem diga) ancoro em recordações da primeira enchente que pude presenciar de perto. Assisti todas etapas, do temporal ao caos que as águas provocaram no jardim da cidade, situado na praça central, com a queda de árvores, destruição dos bancos de madeiras,e a fonte luminosa, destruída.

Ainda carrego os rostos dos engraxates, desolados por perderem seu espaço de trabalho. Bem no meio da praça, atravessando a rua, um cinema com todos seus cartazes estragados, e a Fulaninha, loja de bilhetes de loteria com seus vidros quebrados. O vento fora de uma força jamais presenciada. Um velho cão de todos me olhava triste. Ele sentira a natureza mais que todos nós, por ser todo percepção, sem que tivesse necessidade de procurar razão para tudo aquilo. Uma noite digna de São Bartolomeu (exagero do cronista). E a manhã já se remoçara límpida, com seus raios de Sol procurando formar um arco-íris. O rio já se acalmara, mas ainda mantinha perigosa velocidade em seu correr. O mundo ia se ajustando, precisando de uma limpeza. Foi o que pensei, depois que entre muitas falas ouvidas, a do Ziqui sobrepôs: – “A água é castiguenta, ela quando cai, é pra limpar as coisas ruins que nóis fazemos. E se cai forte e ventando assim, é porque a coisa tava feia, acumulada nos pecados! É muito chifrudo nessa cidade! Brinca com Deus, brinca!” E ninguém apontou ser uma frase machista. Apenas riram. Nas chuvas daquele tempo era assim mesmo.

24.3.19

 
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Saudade da Labib Zogby

21 mar
23.5.08

23.5.08

 
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CRÔNICA DO DIA DE SÃO JOSÉ

20 mar

Fiquei muito feliz com a escolha do escritor Inácio Loyola Brandão para a Academia de Letras. Um grande talento da literatura e do jornalismo brasileiro. Além de ter sido o arauto da coxinha de Bueno de Andrada e transformado a mesma em celebridade de farinha, batata e frango, com um preço que condiz com a fama adquirida. Mas não é por isso que pinço da minha memória o Inácio, e sim o seu hábito de sempre carregar uma pequena caderneta, onde anota fatos do cotidiano para, com sua brilhante criatividade, transformar em literatura, e da boa. Daí eu imaginar esse modus operandi nas viagens de ônibus urbanos atuais, onde as conversas aos celulares pululam (em voz alta), e de quantas cadernetas seriam necessárias para o devido recolhimento dos eventuais casos com potencial a serem consagrados em crônicas, contos e outros que tais.

Basta uma viagem um pouco mais longa e pronto: negociações, mexericos à Candinha, reclamações das patroas, as moças que trabalham nas creches, o calor insuportável que aumenta a cada ano, os buracos de Ribeirão, críticas ao prefeito (outro dia vi uma jovem chamando o alcaide de Faz-me-rir, pensei na cantora  Edith Veiga; viram como se viaja na imaginação?), churrascos acontecidos “a cerveja estava quente” , árbitros de futebol e seus intermináveis erros,  e muitos outros assuntos que serviriam tranquilamente de fonte de inspiração para quem milita com as palavras. Mas sem dúvida, o maior personagem destes telefonemas é o marido. Inclui-se aqui o namorado, o amante ou o crush (na minha época apenas um refrigerante com gosto de laranja), ou seja o parceiro. O carrasco que ali se transforma em enforcado por vozes estridentes.  E dá-lhe histórias! Tem os casados e quem o traz é a amante, mas também pode ser a esposa reclamando do “bebum carnicento” que tem em casa (juro que ouvi isso), o namorado que gosta de maconha e não cumpre com suas obrigações (?). E dentro dessa classe, o assunto de ouro no pódio é o referido não gostar de trabalhar. Penso que percentual teria no triste quadro de desemprego no Brasil. (Pensamento bobo, mas não se segura a mente).

No dia de ontem, ouvi uma conversa completamente inusitada. A começar de  quem falava ao pequeno celular: um grisalho, com uns 70 e tantos, reclamando de sua esposa.  Conversando com o seu compadre. A senhorinha era uma alegre pessoa, adorada pelos netos, mas era viciada. Uma pobre viciada (palavras dele), perdida mesmo. Em bingos!

Ah meu caro novo imortal, se puder, dê uma viajada num ônibus urbano (ainda tem aqueles elétricos em Araraquara?). Recomendo.

19.3.19

 
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