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RITOS E PASSAGENS

15 set
“No meio do caminho tinha uma pedra”
DRUMMOND
salta do papel
como um esquisito corner

atroa ao vento
a palavra-imagem
na lucidez do poema
que luz na aporia

tenta portas e cancelas de dúvidas
nas ultrapassagens
 
 

VOZES DISTINTAS

15 set
“que lutas íntimas travei!
Se soubesses como estava farto daquela vã tagarelice!”
CRIME E CASTIGO – Fiodor Dostosiévski
pálpebras indeliberadas
cabeça em Raskólnikov
fixa em olhos imos
de onde sai a voz intejetiva de falso extraordiário
e outra que arrepende
a voz que ecoa na alma
outra que imita pregões nas ruas de São Petersburgo
a que circunjaz o sonho de gênio
ou a que nem sequer espreita desenlaces
a voz que enxere
outra que é subalterna
a voz de ouro
outra inválida;
uma voz que suspira
embaixo da voz que metodiza
voz profunda que exala mortos
antagônica à voz que cede a sonhos de imperadores
no final pela voz de dentro (com São Lázaro)
o homem almeja a dor
desde que possa ser
o seu próprio carrasco
 
 

A LUZ II

13 set
(depois de tantos versos)
Vem! Escolhe um escaninho
De meus sentidos e apodera
De meus ossos, meu cerne!
Faz de minha falsa serenidade
O pé esquerdo de Blake.

Vem! Distingue-me em doses
De clarões da estrada de Damasco.
Acerta meus passos rumo
Aos vestígios de doçura
Da âncora da visibilidade.

Vem! De onde não quero saber
Nem lançar-me em busca
De seus possíveis retiro e porta.
Se queres, fecho meus olhos
Enquanto me inundas.

Vem! Sê tudo posse em mim
E abandona os pudores
E culpas e silícios e enfins;
Abriga os pruridos de hoje
E de tudo o que mais te tentes.

Vem e senta-te à minha esquerda!
Ficarei como o João de Da Vinci,
Para que tornes a égide
Do que preciso na fonte
Do descanso do sopro.

Vem! E se assim almejas,
Vem de punhal em riste,
A devastar meus campos,
Escravizar-me como índios
Das reduções de língua geral.

Vem! Alcança meu topo.
Esgarça meus sapatos
E impede novos caminhos.
Deixa o meu olhar extático
A ver santos e orixás.

Vem! burla pedágios,
rompe portais,
salta sobre cadáveres
que se estendem em vias
da ininterrupta veia que fere.

Vem! brinquemos de ser:
Tu, sonho, será Lennon.
Eu, MacCartney, o corpo.
Tu, o mais amado e eu,
O zelote epistolar, o da cruz.

Vem! Em naus estrangeiras,
Em proa de Garibaldi,
Com ira mas com amor
Nos braços de quem me encontre
Na boca de quem me lace.

Vem! Na economia
De palavras no brado
que se ouviu em Gettysburg,
Na face triste do homem
Da algema rompida.

Vem! Nos cânticos
E réquiens de Varela,
Nos porões e no pendão
Do menino Cecéu,
Nos laranjais virgens.

Vem! e traze-me em mãos
Os venenos das cortes,
As bulas não lidas,
O imperativo do Corso,
Os amantes de Catarina.

Vem! Se desejares,
Traz nada: mãos vazias.
Nem a denúncia de Debord.
Nem a flor de Conh-Bendit.
Ignora o casal não-casal.

Vem! Deixa todos os delírios.
Os cubanos e os de Leary.
Que o álcool frua nos versos
Dos poetas postos em estradas.
Voa com o menino Guesa.

Vem! Mas não fecha a janela
Para o vento. Deixe o corvo
Instalar-se sobre meu seio.
Empareda gastos e planos.
Verte sílabas aritméticas.

Vem! E impera-me!
Constrói-me mandamentos
Sem contudo realçar-me
Na lava da Teofania do Sinai
E o genuflectir dos povos.

Vem! Com o braço dado,
O abraço queimoso do Sol
Na areia pura dos tempos.
No beijo ateu e crente.
Vem e envolve a Terra.

Vem! Dentro e fora
Da realidade ou do vagar
De cada pensamento
De glória ou do castigo.
Vem facho de alegria.

Vem! Assiste de perto
Minha morte, pois assim
Deve ser no quando de tua
Chegada: eu pó da estrada
Amando a ti e toda redenção.
 
 

ISOLAMENTO

13 set
“O resto do mundo que temiam e evitavam”
Nota de rodapé
OS SERTÕES – Euclides da Cunha
hoje sou um verso minúsculo
e o resto é “terras grandes”
um olhar na janela
sem ver a nascente de quaisquer rios

hoje sou do Euclides, o tabaréu
e seu arcabuz
lá fora uma vastidão
em que não me reconheço

minhas mãos seguram meu queixo
fora da guerra santa
na caatinga das cidades

hoje sou algumas palavras
e o mundo inteiro me pesa
no travesseiro

hoje estou só
e o resto é um só

repulsado e oceânico
 
 

O RASGO

13 set
noutra noite em mim
um sonho:
o mundo saía do rasgo
da boca de Antonin Artaud

(um cigarro em desafio
pendia como um monólogo)

seus olhos não vi
mas o blackout de seu desespero

ondas curtas anunciavam
de forma wellesiana – o fim
da Segunda Grande Guerra

muda
Lili Marlene onomatopaica
nos corredores da dor de Rodez:
autorretrato do rompimento de todas
as encenações e respirares

um cinza frio deu soturnamente
a deixa
ao delírio nesta fábula cruel
 
 

BARATAS

13 set
notícias são como endemias
aos sentidos limitados do homem

o que se ventila nestes tempos
não cabe no peito

alforjes humanos não mais existem
como reserva de bálsamo

o saco de unguento
o descanso
o respiro
vão-se pelos ralos da inquietude
nos amanhãs nascidos a fórceps

sobra apenas um suspiro
entre o tique e o taque
para tirar a cabeça para fora
e respirar um ar estranho
que cria seres à feição
de Gregor Samsa
 
 

12 set

CAPÍTULOS VOZ

 
 

A CRIANÇA DE ALEPPO

12 set
a face da crueldade
tatuou meus olhos

bramem surdos por quês
nas tocas de pálpebras caídas

bombas respingam derazões
deixando nódoas nas cinzas

(o olhar da menina alagou
minha vida neste perdido 16)

um apócrifo poema de natal
retumba aquele rosto em choque

um não-choro erode o amanhã
 
 

DO AMARGO PASSEIO

12 set
crimes e mordaça habitam
placas de ruas/avenidas/praças
onde a pompa de nomes
desvia o caminho da história

escorrem noite e dia
sangue de Serra Leoa
e vísceras da Sardenha

a verdade nos fundos dos mares
rubiáceos

heróis canalhas
indicam endereço e engodo
 
 

OFICINAS & GRAFITES

12 set
Em S. Paulo sacripantas
municipais e estaduais
praticam tiro aos pombos
mas não matam pombos.
O alvo como revoar de patos
é a Cultura que sofre a eugenia
em manhãs forçadas em cinza.

Ovos devoradores espalham
suas cascas pelas avenidas
traçando um rastro de assepsia
suposta e ininteligível.

Em S. Paulo hierofantes
praticam uma espécie
de Inquisição às avessas:
preferem queimar a alma
e deixar o corpo à deriva.
Não sabem que extirpar
é um verbo que passa longe
do significado do que seja ar.

Em S. Paulo – para a Arte,
há uma espécie de urubus
silenciosos e avassaladores,
mascarados de enxurradas
como as de suas enchentes
de perene irresolução.
 
 
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