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SIMPLES ASSIM

27 mai


O tempo que tenho

é  sinal  de que a porta

que nunca abri

continuará fechada.

O tempo que tenho

é o algoz  do sonho

que trago no bolso

desde o sempre.

O tempo que tenho

é um tempo

que já não tenho

e pertence à espera.

24.5.18

 

SOLIDÃO

15 mai

Leio o Ítaca de Kavafis.

Choro e rio na certeza

de que somos corpos

e sentidos para a vida.

De que há caminhos

absolutos de regalos

e encantadas forças

que a Beleza nos traz.

Mas me faltam outros corações ao redor.

Ouço o amor de Isolda

a Tristão no prelúdio

de semeação de Wagner.

Choro e rio na certeza

que fosse a minha vida

somente este segundo

já seriam estas lágrimas

o que pensamos de eterno.

Mas me faltam outros corações ao redor.

Os passos de Chaplin

e Paulette Godard

no final de Modern Times

me assolam. Choro e rio

na sempre estrada

que leva às escolhas

das vias que trilhamos,

ao belo a que nos leva.

Mas me faltam outros corações ao redor.

Me sobra o medo

que a solitude

possa numa manhã

de primaveras e aves

tornar-se fagulhas

estéticas com o poder

de a qualquer momento

em comoção, explodir-me.

Por isso nego-me a rir ou chorar com quem se veda.

20.3.13

 

O ALFORJE

15 mai

Enchi os bolsos de esperança

e tomei a estrada do amanhã.

Logo senti meus passos

pesados, de alma espessa.

Lembrei-me de que não havia

deixado a velha mochila

cheia de ações inconclusas

e perdões a pedir.

Sem leveza

não há ciclo que se complete,

coração que transborde.

3.11.15

 

FUGA

15 mai

Tento em outono

fugir-me em versos

como a procurar

a estrada de terra,

cercada de culturas

sob o pó das árvores.

Daí escapar do mundo

rodeado de intolerância

para o cio da arte.

Desligar de espíritos

amalgamados em folhetins

televisivos, nefastos,

hábeis em transformar

estruturas congênitas,

apagando da memória

a crença de que somos

rios e sonhos.

Necessitamos de nossas matas ciliares.

 

14 mai

Quando fito alguém,

meu sorriso caiado

torna-se tapume

ao tumulto dentro de mim,

inviolável picadeiro,

onde a banda e a fuzarca

nunca param de gritar.

17.2.16

 

SOBRAS

14 mai

Ele sonha

como eu poderia ser.

Ela sonha comigo

cheio de gravatas profundas.

Eles sonham comigo

com olhos como um falso espelho.

Eu sonho mais

(o tempo todo).

Por isso moro no quarto dos fundos

onde mastigo sobras

do que em mim é real

(as derradeiras).

Nas paredes

amarelas escreveram:

(algum prisioneiro

de barbas longas)

Há de prevalecer aos séculos

todas as pragas mosaicas.

2.4.16

 

com Cecília Figueiredo e Washington

13 mai
10.5.19

10.5.19

 
Sem comentários

Adicionado em FOTOS

 

HAIKU

10 mai

O pó da estrada

descansa sobre a terra.

Mas o vento sopra!


A buzina alta

alvoroça a cidade.

O haiku estranha.

As flores no quadro

existem pela metade.

Só servem aos olhos.


10.5.19

 
 

ECONOMIA

09 mai

Na fuligem da cidade,

dois rapazes à moda

de Estragon e Vladimir,

vendem pequis e carambolas

a transeuntes impedidos

de caminhar pelas calçadas.

8.5.19

 

DO TERMINAL DE ÔNIBUS

07 mai

…desolo-me ante a sujeira

que assisto como um palco.

Tudo é decrepitude e ruir

neste flanar. Homens destroem

o que respiram . Enfeiam

o que seria suas molduras.

Distorcem o que sempre

só serviu a todos

como um tapete de bem-quereres.

Torturam as tradições do asseio,

mortas em fotos antigas

da cidade. Jogam o lixo ao seu redor

como se o engolissem. E andam

em contrações corporais

fugindo de chuvas de raios.

Miram a fealdade do que fazem

como meças  ao espelho.

Mas o que veem não os abatem,

antes os conformam. É quando

tudo se mostra tardio:

suas escolhas já os devoraram.

7.5.19

 
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