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VERDADE

01 jul

Não adianta o grito,
de dor de senzala
ou do que da garganta arrancar.

Não adianta o gesto,
mãos, braços, rostos,
estilhaços de bandeiras a desfraldar.

Não importa o sorriso,
lar de enigmas,
nem a face que estampar.

A vida só se revela
na cor do nosso olhar.

 

MEMÓRIA

01 jul

O que acolhemos durante a vida,
é o que amamos.
E o que amamos se eterniza.

Começa como beijo,
e damos o nome de encontro.
Como seiva, escorre por momentos
e se abriga na convivência
a compor uma grande história
e gesta o amor, sempre em construção.

Em tira de sonhos o desejamos
como doce eternidade.

Mas o trágico destino humano
o transforma em seta no coração.

Aí, o chamamos saudade.

 

NA NOITE

01 jul

Na noite,
o beijo é mais demorado,
máscaras coloridas, vivas, tênues.

Na noite,
os corpos são iluminados.
Olhos de gato e águia, ternos.

Na noite,
os pecados são imperdoáveis
solidão muda, doce, mais bela.

Na noite,
os becos tornam-se mais claros;
multidão estranha, silenciosa,
eternidade de atos impuros.

Na noite,
a vida é como um raio.
Não de luar,
um raio de cores insanas, atávicas.

Um raio doído.
Um raio de amor.

 

17

01 jul

Fugaz, viça e cai.

Maneira da cerejeira

ser flor samurai.

 
 

DESCONHECIDO

01 jul

O homem se desconhece.
Para viver, se inventa
dando sentido ao fumoso
mistério que o alimenta.

Cinge-se de um escudo
da falsa luz sem sentido
que o ofusca e o fanatiza
ao comer pão reprimido.

Como se não existisse,
ao rigor do coração,
traça linhas tortuosas
e vive como ficção.


10.06.2010


 
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A QUEM INTERESSAR POSSA

01 jul

Rendo-me à toda palavra,
se o meu coração desanda
a correr atrás de versos
ou dançar uma ciranda.

Assim, meio triste, caio
no cordão da euforia.
Mas eu jamais me arvoro
em brincar de poesia.

Amo o que o instante doura
seja qual for a egéria.
Como diz mestre Drummond:
“Poesia…é coisa séria!”


04/06/2010

 
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CAMINHO

01 jul

Poesia e política são demais para um só homem.

TERRA EM TRANSE

Glauber Rocha

Para onde derivar

meu caminho?

Onde instalar

meus desatinos?


Seguir a trilha do verso

e plantar no absurdo

todas minhas consciências inexatas.

Pleitear um canto

dentro do canto,

pelejar entre mistérios do amor.


Saciar longe das modorrentas

passagens pelo dia.

Alçar a balança das vindas,

Rebater causas não minhas?


Fixar o que soçobra na mente

em espaços que se chora

sem o querer inexecutável.

Caminhar dentro do que chamo dentro.


Mesclar a indecisa poesia

com o fim de todas as virtudes.

Lançar contas nos fins das contas.

O poeta é o dono do pensamento,

do repartir da luz,

da palavra não palavra.

Fina e repressora do que se entende

à primeira vista, ao primeiro demão.


A poesia, estado de viver

em saber-se exteriorizar

o afã de apregoar o infinito.


De resto, apenas a vida que se borra.


29/05/2010


 

TERRA

01 jul

Terra não é só chão

onde se esteiram nossas sombras;

não só punhado de terra

areado sobre nossas mortes.


Terra não é só o sonho

alimentado sempre por uma posse

distante de qualquer que se imagine,

no fim do que não se enxerga.


Terra não é  pátria nem o amor a ela.

Nem o berço celebrado

nem a história que se guarda.


Terra planeta girando em perigo

é filha do nominalismo.


Estas Terras não são a Terra.


Terra é a impossibilidade do que se pensa sobre a Terra.

O que nunca será.

O desejo da surpresa de onde atracar.

O não saber, onde buscar.


Terra é um infindável desterro

dentro de nós.


28/05/2010

 

TOLA MANHÃ

01 jul

A chuva cai
e se desmancha
nela mesma.


(02/02/2010)

 
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ANAGRAMA

01 jul

Ouço, em menino,
que HOTEL FLÓRIDA tem um mistério:
as letras desembaralhadas
e novamente enfileiradas de outro modo
repentina ADOLF HITLER.
Mas o amigo, cara de assanhaço,
diz com riso de taça Jules Rimet
que sobra um O.
- Que faço com o Ó?, pergunta com o bico.
Não sei responder.
(E era tão fácil estinlingá-lo:
bastava retratar o que senti
diante da alquimia que as palavras têm
e colocar um ponto de exclamação:
Ó!)


(26/01/2010)

 
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