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01 jul

Talvez, antecipando o tempo,
encontro o paraíso.

Muito mais que conforto,
tenho a sensação
de descobrir o bem
de que mais preciso.

Penso estar louco,
mas não, lá está ele,
acolhedor,  soberano e luzente.
Na emanação de seu sorriso.

 
 

19

01 jul

Não te quero minha.
Não te quero como um presente.
Não te quero como uma flor que se olha,
colhe-se e guarda-se entre páginas de livro.
Nem te quero em minhas mãos,
aprisionada em paixão.
Tampouco quero-te divina, inatingível,
dona de meus versos.

Quero-te apenas como a madrugada quer a aurora.
Para reviver-me com os raios de sol que nascem de ti.

Quero-te assim, uma canção na manhã.
Para que eu possa saber que existo,
enquanto me iluminas.

 
 

ODE À APOSENTADORIA

01 jul

Poupe-me
das dores do mundo.
Poupe-me
de dores reles
das que querem um também reles analgésico.
Poupe-me
das Das Dores
e seu maldito rosário de ametista (falso)
e sua cara
de eterna cólicas (real).
Poupe-me
dos suores desnecessários
que urgem em avizinhar
quando há notícia
do ócio declarado.
Poupe-me
do dinheiro
e da falta do dinheiro
e dos que gostam muito do dinheiro
e os lanceiros modernos
e seus M.B.As. evaporáveis.
Poupe-me
de tudo que cansa:
à volta, em torno, debaixo das cadeiras,
nas telas dos cantos,
nos crachás, nas pilhas de livros,
dos relógios que ainda querem corda,
do quanta,
das quantas vezes mastigo,
dos sapatos que não mais existem.
Poupe-me
dos presidente dos E.U.A.
e de todos os cretinos que aparecem na TV,
que inundam as favelas
e os quartos de empregadas
de todas as zonas sul
nos quadrantes de viver
em câmaras de ar-condicionados
que vendem sorrisos
(em idioma bárbaro)
inescrupulosos.
Poupe-me.
Mais que nunca das inevitabilidades,
de todas elas, das que tem cheiro
e das outras também. Aliás,
de tudo que é necessário.

A começar por escrever versos.

23.10.2003

 

VERDADE

01 jul

Não adianta o grito,
de dor de senzala
ou do que da garganta arrancar.

Não adianta o gesto,
mãos, braços, rostos,
estilhaços de bandeiras a desfraldar.

Não importa o sorriso,
lar de enigmas,
nem a face que estampar.

A vida só se revela
na cor do nosso olhar.

 

MEMÓRIA

01 jul

O que acolhemos durante a vida,
é o que amamos.
E o que amamos se eterniza.

Começa como beijo,
e damos o nome de encontro.
Como seiva, escorre por momentos
e se abriga na convivência
a compor uma grande história
e gesta o amor, sempre em construção.

Em tira de sonhos o desejamos
como doce eternidade.

Mas o trágico destino humano
o transforma em seta no coração.

Aí, o chamamos saudade.

 

NA NOITE

01 jul

Na noite,
o beijo é mais demorado,
máscaras coloridas, vivas, tênues.

Na noite,
os corpos são iluminados.
Olhos de gato e águia, ternos.

Na noite,
os pecados são imperdoáveis
solidão muda, doce, mais bela.

Na noite,
os becos tornam-se mais claros;
multidão estranha, silenciosa,
eternidade de atos impuros.

Na noite,
a vida é como um raio.
Não de luar,
um raio de cores insanas, atávicas.

Um raio doído.
Um raio de amor.

 

17

01 jul

Fugaz, viça e cai.

Maneira da cerejeira

ser flor samurai.

 
 

DESCONHECIDO

01 jul

O homem se desconhece.
Para viver, se inventa
dando sentido ao fumoso
mistério que o alimenta.

Cinge-se de um escudo
da falsa luz sem sentido
que o ofusca e o fanatiza
ao comer pão reprimido.

Como se não existisse,
ao rigor do coração,
traça linhas tortuosas
e vive como ficção.


10.06.2010


 
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A QUEM INTERESSAR POSSA

01 jul

Rendo-me à toda palavra,
se o meu coração desanda
a correr atrás de versos
ou dançar uma ciranda.

Assim, meio triste, caio
no cordão da euforia.
Mas eu jamais me arvoro
em brincar de poesia.

Amo o que o instante doura
seja qual for a egéria.
Como diz mestre Drummond:
“Poesia…é coisa séria!”


04/06/2010

 
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CAMINHO

01 jul

Poesia e política são demais para um só homem.

TERRA EM TRANSE

Glauber Rocha

Para onde derivar

meu caminho?

Onde instalar

meus desatinos?


Seguir a trilha do verso

e plantar no absurdo

todas minhas consciências inexatas.

Pleitear um canto

dentro do canto,

pelejar entre mistérios do amor.


Saciar longe das modorrentas

passagens pelo dia.

Alçar a balança das vindas,

Rebater causas não minhas?


Fixar o que soçobra na mente

em espaços que se chora

sem o querer inexecutável.

Caminhar dentro do que chamo dentro.


Mesclar a indecisa poesia

com o fim de todas as virtudes.

Lançar contas nos fins das contas.

O poeta é o dono do pensamento,

do repartir da luz,

da palavra não palavra.

Fina e repressora do que se entende

à primeira vista, ao primeiro demão.


A poesia, estado de viver

em saber-se exteriorizar

o afã de apregoar o infinito.


De resto, apenas a vida que se borra.


29/05/2010


 
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