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ESCURIDÃO

01 jul

“Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo”

Sophie de Mello Breyner Andresen

Amamos a pele buscando o sonho.

Tentamos sublimar o espírito,
entregando-nos por inteiro
na exigência da posse de quem amamos.

Amamos o tempo todo em teia frágil.
Espreitando portas.
Auscultando sinais,
espremendo a emoção.

Amamos o tempo todo em receio.
Amamos a vida toda no escuro.
Amamos o curto tempo de certezas.

Amamos para sermos inteiros e sempre ficamos em pedaços.

Amamos muito, até a exaustão.
Na surpresa do desamor,
recolhemos retalhos e o cozemos com lágrimas.
E aprendemos que amar não é senão duvidar.

E mais um mistério nos move.

Depois, apartados do que não entendemos,
seguimos em frente tentando nos agarrar
naquilo que nem sabemos o nome que tem.

Amar é usar o verbo que apenas se sente,
nunca se fala. Amar é incertar.

 
 

8

01 jul

Talvez, antecipando o tempo,
encontro o paraíso.

Muito mais que conforto,
tenho a sensação
de descobrir o bem
de que mais preciso.

Penso estar louco,
mas não, lá está ele,
acolhedor,  soberano e luzente.
Na emanação de seu sorriso.

 
 

19

01 jul

Não te quero minha.
Não te quero como um presente.
Não te quero como uma flor que se olha,
colhe-se e guarda-se entre páginas de livro.
Nem te quero em minhas mãos,
aprisionada em paixão.
Tampouco quero-te divina, inatingível,
dona de meus versos.

Quero-te apenas como a madrugada quer a aurora.
Para reviver-me com os raios de sol que nascem de ti.

Quero-te assim, uma canção na manhã.
Para que eu possa saber que existo,
enquanto me iluminas.

 
 

ODE À APOSENTADORIA

01 jul

Poupe-me
das dores do mundo.
Poupe-me
de dores reles
das que querem um também reles analgésico.
Poupe-me
das Das Dores
e seu maldito rosário de ametista (falso)
e sua cara
de eterna cólicas (real).
Poupe-me
dos suores desnecessários
que urgem em avizinhar
quando há notícia
do ócio declarado.
Poupe-me
do dinheiro
e da falta do dinheiro
e dos que gostam muito do dinheiro
e os lanceiros modernos
e seus M.B.As. evaporáveis.
Poupe-me
de tudo que cansa:
à volta, em torno, debaixo das cadeiras,
nas telas dos cantos,
nos crachás, nas pilhas de livros,
dos relógios que ainda querem corda,
do quanta,
das quantas vezes mastigo,
dos sapatos que não mais existem.
Poupe-me
dos presidente dos E.U.A.
e de todos os cretinos que aparecem na TV,
que inundam as favelas
e os quartos de empregadas
de todas as zonas sul
nos quadrantes de viver
em câmaras de ar-condicionados
que vendem sorrisos
(em idioma bárbaro)
inescrupulosos.
Poupe-me.
Mais que nunca das inevitabilidades,
de todas elas, das que tem cheiro
e das outras também. Aliás,
de tudo que é necessário.

A começar por escrever versos.

23.10.2003

 

VERDADE

01 jul

Não adianta o grito,
de dor de senzala
ou do que da garganta arrancar.

Não adianta o gesto,
mãos, braços, rostos,
estilhaços de bandeiras a desfraldar.

Não importa o sorriso,
lar de enigmas,
nem a face que estampar.

A vida só se revela
na cor do nosso olhar.

 

MEMÓRIA

01 jul

O que acolhemos durante a vida,
é o que amamos.
E o que amamos se eterniza.

Começa como beijo,
e damos o nome de encontro.
Como seiva, escorre por momentos
e se abriga na convivência
a compor uma grande história
e gesta o amor, sempre em construção.

Em tira de sonhos o desejamos
como doce eternidade.

Mas o trágico destino humano
o transforma em seta no coração.

Aí, o chamamos saudade.

 

NA NOITE

01 jul

Na noite,
o beijo é mais demorado,
máscaras coloridas, vivas, tênues.

Na noite,
os corpos são iluminados.
Olhos de gato e águia, ternos.

Na noite,
os pecados são imperdoáveis
solidão muda, doce, mais bela.

Na noite,
os becos tornam-se mais claros;
multidão estranha, silenciosa,
eternidade de atos impuros.

Na noite,
a vida é como um raio.
Não de luar,
um raio de cores insanas, atávicas.

Um raio doído.
Um raio de amor.

 

17

01 jul

Fugaz, viça e cai.

Maneira da cerejeira

ser flor samurai.

 
 

DESCONHECIDO

01 jul

O homem se desconhece.
Para viver, se inventa
dando sentido ao fumoso
mistério que o alimenta.

Cinge-se de um escudo
da falsa luz sem sentido
que o ofusca e o fanatiza
ao comer pão reprimido.

Como se não existisse,
ao rigor do coração,
traça linhas tortuosas
e vive como ficção.


10.06.2010


 
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A QUEM INTERESSAR POSSA

01 jul

Rendo-me à toda palavra,
se o meu coração desanda
a correr atrás de versos
ou dançar uma ciranda.

Assim, meio triste, caio
no cordão da euforia.
Mas eu jamais me arvoro
em brincar de poesia.

Amo o que o instante doura
seja qual for a egéria.
Como diz mestre Drummond:
“Poesia…é coisa séria!”


04/06/2010

 
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