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ALÉM DO RIO

03 jul

A cor da pele.

A assinatura.

Ser rei da zona

ou mortal criatura.

Ter clarividência

ou sofrer de amargura.

Escalar o píncaro do abandono.

Estabelecer a ruptura.

Descobrir o sintoma da menopausa

ou ampliar sua cultura.

Escrever a arte impura.

Espancar prisioneiros religiosos

ou escrever um libelo contra a ditadura.

Nada disso importa para além da ponte

do rio que perdura.

Acima do fogo ou da neve,

onde não existe rastro ou cura.

A alma quando leve,

basta-se.

 

CAMUS

03 jul

Devo admitir que o Carnaúba foi uma das pessoas mais incríveis que conheci, além de ser um grande amigo. E temos juntos passagens fantásticas, e esta foi uma delas.
O colégio ainda não mudara para o prédio nôvo, no Morro Pelado. Ainda estávamos no velho casarão da baixada, com o bar em frente.
No ponto de ônibus, nós dois. Eu morrendo de curiosidade. Ele, num silencio encarcerado que já durava uns dez dias. Com aquele livro debaixo do braço. Eu não sabia e não conseguia ver que livro era e muito menos o motivo do mutismo. Não falava com ninguém, ninguém. E ficávamos em compasso de esperar bonde, ou seja parados, e eu com evasivas com o tempo, “vai chover, será?”, ou “você viu a bunda daquela sardentinha da classe A, como é o nome dela, mesmo?”, procurando garimpar os tesouros do mistério que a cada dia se acentuava mais. E ele simplesmente calado.
Até que a grande idéia surgiu. Como toda preciosidade se encontra nas coisas e nos atos mais simples, convidei-o a tomar uma cerveja! Ele jamais se negaria a uma cerveja gelada no bar do seu Oscar, local de fossas (alguém ainda sabe o  que é isso?) memoráveis, com várias fotos na paredes de mulheres perfeitas. Segundo o Carnaúba, o seu Oscar tinha olho clínico para a sensualidade. Qual, o velho gostava de fotos de mulher nua, quaisquer que fossem.
Fiquei olhando para o copo, com temor, prevendo ter que arranjar uma briga para conseguir meu intento, de que ele falasse uma palavra pelo menos. Daí, num misto de susto e susto, ele falou!;
- “Bicho, o que você quer saber? “ Falou com aquela agressividade digna de atores ridículos, ditos canastrões.

- “Nada, não quero saber nada” Respondi com entonação pior ainda,como quem declama O Velho Professor no dia deles..

- “Você não abriu esta Brahma à toa. Vocês ( não sei quem eram os outros) estão invocados comigo! Intrigados.”


- “Tá certo, meu, mas você, de repente muda todo seu comportamento, passa a carregar este livro debaixo do braço, não fala mais com ninguém e quer que eu fique calado? “
Eu disse tudo isso, como cachoeira, porém  com o pé no chão, com certa segurança e completei:

“ – Coisa de louco, absurdo”

Não percebi de imediato, mas ao dizer a palavra absurdo, seus olhos mudaram de estação. Do outono para o inverno. Olhou-me como um caçador, espreitou minhas feições, do cabelo ao queixo.

“- Exatamente isso, absurdo, a contingência universal do homem, que ao mesmo tempo é e não é o fundamento de seu Ser. Não se preocupe em sentir-se inferior, isso foi Camus quem disse, não eu.  Por isso, o melhor é estar em silêncio, quando somos maiores do que quando falamos”
Como um fuzil, o livro foi-me apontado.

- “O estrangeiro” Li com voz alta; e fiquei sem entender nada.

Neste momento, eu vi por detrás daquela cara nordestina, o Paulo Tiroteio, descendo do ônibus e se dirigindo para o nosso lado. E o Carnaúba:
“- e antes que você diga alguma besteira, isso não tem nada a ver com Sartre, existencialismo, náuseas, estas coisas que você sabe. Ou também não sabe, nem isso.?´ Primeiro sorriso. De ironia, claro.

Aí o Paulo chegou, óculos de fundo de garrafa e andar de jogador de futebol, ( o que decididamente, não o era)  com aquele jeito expansivo que tinha, foi logo falando:
- “Fala, pessoal, tudo em riba? E você ai, Carnaúba, já sarou? “


- “Sarei?, ué, não estava doente!.”
Espantou-se.
- “Peraí, me disseram que você estava com uma puta inflamação de garganta, que não podia nem falar, e agora tô vendo o amigo bebendo esta ceva, pensei, ele sarou! Tô certo?”

Foi indescritível o minuto após, com os mundos explodindo. O do Carnaúba, de raiva. O meu de riso, daquele libertado após séculos de masmorra. O do Paulo, de sede, como quem estivesse saído de um deserto argelino:

- “Dá mais uma aí, seu Oscar, e bem gelada!!!

1989

 
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Adicionado em PROSA

 

BENDITO VENTRE

03 jul

Leve como a água

que se tem na sede,

livre como a asa

que se tem no sonho.


Belo como o canto

que se tem silêncio,

breve como a vida

que se tem no porto.


Brilhante como o azul

que se tem no amor;

o milagre da fonte

que se tem na mulher:


o momento da terra

que se tem no arco-íris,

a luz no corpo que gesta

o que se tem em gênese.

 

A LUZ

02 jul

Gosto quando vens mansa, sem o gosto da pressa.

Vens cálida, chorosa. Vens como a brisa da manhã

que se despertou inteira. Gosto assim,

de corpo, alma leve, folha ao vento. Gosto

quando vens direta, mas passas por céus

entre nuvens brancas, como esta sensação

de que vens a mim como o dia.

Gosto quando vens enigma,

sem aviso, sem palavras que afetem

as mãos, sem pele nem flor que rubre

o coração. Gosto quando vens alegria, e chegas

mantra refrescante, semeando raios

de um sol próprio, pequeno calor que não me agita

nem me expia. Assim, como um nada, para

o qual não se pede som, poema, nenhuma chave,

nova estrada. Quando vens, sequer preciso de mim.

 

PERSONA

02 jul

A chave de minha vida só a poesia destrava.

Sinto estar sempre entre a aparência de névoa

e um verso, ao qual recorro, se a dor crava.

Quando verdade,

não sou carne nem espírito.

Apenas palavras.

 

POEMETO 19

02 jul

O poema é sonho.

Extrai o mistério

como um anzol.


Desvela ao raso,

triste ou risonho,

o dia de sol.

 

MELANCOLIA

02 jul

A tarde sente-se, dentro da minha impaciência,

dona do mundo. Fulgor de nuvens

impenetráveis sorriem: solares disposições do tempo

ante nódoas de meus olhos e bailados da angústia

(irmã no rigor de inações remissíveis)

na clausura no brilho do dia interminável.

Reinado da rua em claridade que se torna

dentro de mim, lástima.

A tarde sabe que eu não posso sequer segurar

um ramo de alecrim nas mãos atadas

pela beleza instantânea.

No coração inabitado, falta uma faca de fio norte.

Enraizado na suscetibilidade do vazio.

Na calada existência da chuva, a vontade

de permanecer-me solo. Falível

e eternamente noturno.

 

FLASH

02 jul

Divido o olhar (que vagueia)

com o semáforo e o sol que arqueia.

A curva cerceia

o instante que claudica,

mas um efêmero passado

como germe, já frutifica.

Para os olhos,

um esplendor que desassimilo;

no âmago, eternamente apegado,

um doce sigilo.

 

O RIO

02 jul

Só,

assento do dia na ponte

ao sentir que a vida escorre

por contínuas veias como um fio.


E a tarde se cansa

de mais um sonho de horizonte

que dentro de mim intercorre

procurando que a alma me conte

como estancar este rio.

 

INFENSO

02 jul

O verso contido

O verso recolhido.

O verso nem esquecido,

tão pouco querido.

Um verso adverso

na noite do verso não lido;

e a poesia, Hidra e abstrata, arrasta-se

parindo em sete

o verso haurido.

 
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