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MELANCOLIA

02 jul

A tarde sente-se, dentro da minha impaciência,

dona do mundo. Fulgor de nuvens

impenetráveis sorriem: solares disposições do tempo

ante nódoas de meus olhos e bailados da angústia

(irmã no rigor de inações remissíveis)

na clausura no brilho do dia interminável.

Reinado da rua em claridade que se torna

dentro de mim, lástima.

A tarde sabe que eu não posso sequer segurar

um ramo de alecrim nas mãos atadas

pela beleza instantânea.

No coração inabitado, falta uma faca de fio norte.

Enraizado na suscetibilidade do vazio.

Na calada existência da chuva, a vontade

de permanecer-me solo. Falível

e eternamente noturno.

 

FLASH

02 jul

Divido o olhar (que vagueia)

com o semáforo e o sol que arqueia.

A curva cerceia

o instante que claudica,

mas um efêmero passado

como germe, já frutifica.

Para os olhos,

um esplendor que desassimilo;

no âmago, eternamente apegado,

um doce sigilo.

 

O RIO

02 jul

Só,

assento do dia na ponte

ao sentir que a vida escorre

por contínuas veias como um fio.


E a tarde se cansa

de mais um sonho de horizonte

que dentro de mim intercorre

procurando que a alma me conte

como estancar este rio.

 

INFENSO

02 jul

O verso contido

O verso recolhido.

O verso nem esquecido,

tão pouco querido.

Um verso adverso

na noite do verso não lido;

e a poesia, Hidra e abstrata, arrasta-se

parindo em sete

o verso haurido.

 

PSICO-NEOLOGIA

02 jul

Olhar para dentro de nós,

sem nos arranhar;

quem lá vive florescer

como um novo verbo:

intrar.

 

COMPANHEIROS

02 jul

Sou tão noturno quanto o sol.

Somos duas evasões pós-ocaso.

Ele parte; vai reluzir em outra banda.

Eu vou para dentro de mim

(onde o que não entendo desanda)

cismar com o acaso.

Enquanto ele se desnuda no Oriente,

por aqui, a lua, alçada em Psiquê,

escala minhas dúvidas com pouco-caso.

 

SINGULAR

02 jul

Não concordo que tudo que escrevo
já o foi antes. Toda vírgula,
os signos, a palavra que dista
ou a que jazo perto dela.
Tudo só seria gêmeo
não fosse um dentro peregrino,
no parapeito da minha janela.

 

NOTURNO

02 jul

A esfera da lua
esplende incólume.

Um avião passa por ela
como uma máscara

e desaltera meu olhar.

 

P/ OSWALD

02 jul

neste fim de semana
domingamos
e amamos

o mar
o gari
oh Dayse

por do sol
bonito
como um porto
inseguro

 

DADIVOSA

02 jul

A vida, louvor ou chiste, concedente
de tudo que podemos alcançar.
O destino, em riste,
olha em nós répobos
ou eleitos, com mel e imposições.
Fartamo-nos de feitos.
Marejando numa simples rima
ou respirando o ocaso do viver
infausto nas grandes navegações.
A vida nos carrega da grandeza
de sermos máximos
em nossas limitações.

 
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