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Posts Tagged ‘Existência’

27.3.15

06 jan

canto sereno que iço de uma prateleira da loja de armas
e pesca e umas ferramentas menos mortais uns dedais
canto viajado kms de sentimentos e bloqueios (tentados
e inúteis) surgem na esperança de fruição ó deuses espero
canto engendrado em artigos das seleções & daniel dafoe
desordem em visão calafetada destes ágoras censores
inimigos fálicos da poesia de alteamento dos ressurgidos
na vã e inócua tentativa de imaginar o que já foi calçada

pés descalços rádio direito trincado e a Giulia Gentil
facilitada pela mão esquerda em clave de sol a sinistra
enfim a vida cheia de Rubinho enrico bira e Wladimir
como uma grande tela cortina abrindo ao moendo café
canto e diretos ponto de luz da memória que acende
quando se toma por tino um alerta aos poucos desvanecendo
e se apresentando como um poema acabado um filho um neto
daí embora assombro vem e justifica o sereno do primeiro verso

canto de canto
canto de soslaio
agasalho d´alma
versos relicários

enquanto a igreja e as tias desarmavam nossa liberdade, lobato
passava batido com Darwin na história do mundo para crianças

meninos sempre:
“vede a luz!”

 

MOSCAS E RESMUNGO

04 jul

Quando menino

tinha olhos de radar.

Olhar de redor,

olhos de não dormir.


Quando menino

era a espreita de ossos,

e sem que tivesse,

um telefone a tocar.


Quando menino

a espera sem sal,

música a bailar

sem passos de cem

do tango universal.


Quando menino

moscas e resmungo,

muro de pedra

sem escada. Trêmula

escada e fungo.


Quando menino

o que se era não era

para ter antes.

(quem se lembra

quer sorrir,

quer festejos de nozes

quando o depois tem

algo como rio

que segue adiante)


Quando menino

a lesma após a chuva

era a irmã;

o amor doía

e a chuva eu queria

toda manhã.


Quando menino

muito cheio de vida

humana, portanto

cheio de cheiros

e rimas; portanto

credos e bueiros.


Quando menino

pior que a morte

o olhar penitente,

a face, a cruz.

Esmoía de frente

com visão de goleiro

as frestas de luz.


08/02/2009

 

O COLÉGIO DO ESTADO

04 jul

Toma por susto
a volta da escola.
Permanente
nos olhos de menino.
O susto maldizente,
o que esfola,
fronteira do jantar
e o ensino.
Um rito de vida
entre sofrimentos.
Do solitário sabor
de ser pequena ilha
às aglomeradas palavras,
ensinamentos.
Um aprendizado soturno,
indutivo à trilha.
Toma por susto
todas as pessoas no caminho.
Onde janelas abertas e claras
raiam um riso.
Parece até paz
(será assim?), um ninho
que barganharia
pelo futuro inciso.
Quantos olhos não estariam sob cobertores?
Bem quentes,
anafados em beijinhos e mimos de anjo.
O caminho degrada as dores,
troca dores.
A dor da inefável impureza
da vida de arranjo.
As dores da escola,
mais amenas.
Melhor que as de chegar;
a dor na troca de olhares.
E o anseio de outras dores,
as dores dos cinemas,
do café na geada,
no tiro do peito,
as dores dos altares.
A dor nos olhares
eram o horóscopo do sono.
Das vidas que não a sua,
mas na convivência
do abandono,
diferente das vidas
das janelas acesas na rua.
Mas, nessa noite,
o olhar resolve confortar.
O fitar na trégua,
de um também riso,
que que desconfiado, que mareja.
E o caminho de volta
foi esquecido;
agora pretender
o desejo de dormir um sono de menino,
que adeja.
E o sono será de sonhos
com  regalinhos.
Com aqueles anjos todos,
que habitam os telhados vizinhos.

24/6/2004

 

POEMETO 12

03 jul

Quero coisas novas a cada instante,
mesmo que tenham mil anos.
Pequena parte de mim pode ser saudade,
mas o resto: susto constante.

 

VERSOS PARA QUEM ME AMA

03 jul

Não veja apenas a infrutescência
de minha vida. O vago, o corriqueiro,
onde há o céu sem astro,
o opaco.
Não se sirva somente da iguaria falsa
e inapetente,
usada apenas onde não engrinaldam
nossas videiras.
Entranhe por raízes que,
expostas ou não, bramam por servir
aos laços mais proximais
em doações benfazejas, como a do amor.
Deixe o olhar assimétrico
incapaz de alumiar caminhos fortunosos,
os que dirigem às escarpas por vezes ruidosas
mas de constante semear.
Aproveite à desmedida
o farto amostral em oferta de um coração poeta.
De um espírito sequioso
em afugentar as dores de sombras.
Eu estou me oferecendo,
desconhecido e congruente,
não querendo ser mais de um,
e ter a face clara a formar uma lembrança:
de um ser que realmente existiu.


31/03/2004

 

ENDEREÇO

03 jul

Não escrevo sobre a criança

que fui. Nem o alguém que tenho

estado. Não busco os dias claros

nem o tempo  obscuro.

Escrevo somente para mim,

que é a quem procuro.

 

A LUZ

02 jul

Gosto quando vens mansa, sem o gosto da pressa.

Vens cálida, chorosa. Vens como a brisa da manhã

que se despertou inteira. Gosto assim,

de corpo, alma leve, folha ao vento. Gosto

quando vens direta, mas passas por céus

entre nuvens brancas, como esta sensação

de que vens a mim como o dia.

Gosto quando vens enigma,

sem aviso, sem palavras que afetem

as mãos, sem pele nem flor que rubre

o coração. Gosto quando vens alegria, e chegas

mantra refrescante, semeando raios

de um sol próprio, pequeno calor que não me agita

nem me expia. Assim, como um nada, para

o qual não se pede som, poema, nenhuma chave,

nova estrada. Quando vens, sequer preciso de mim.

 

MELANCOLIA

02 jul

A tarde sente-se, dentro da minha impaciência,

dona do mundo. Fulgor de nuvens

impenetráveis sorriem: solares disposições do tempo

ante nódoas de meus olhos e bailados da angústia

(irmã no rigor de inações remissíveis)

na clausura no brilho do dia interminável.

Reinado da rua em claridade que se torna

dentro de mim, lástima.

A tarde sabe que eu não posso sequer segurar

um ramo de alecrim nas mãos atadas

pela beleza instantânea.

No coração inabitado, falta uma faca de fio norte.

Enraizado na suscetibilidade do vazio.

Na calada existência da chuva, a vontade

de permanecer-me solo. Falível

e eternamente noturno.

 

FLASH

02 jul

Divido o olhar (que vagueia)

com o semáforo e o sol que arqueia.

A curva cerceia

o instante que claudica,

mas um efêmero passado

como germe, já frutifica.

Para os olhos,

um esplendor que desassimilo;

no âmago, eternamente apegado,

um doce sigilo.

 

COMPANHEIROS

02 jul

Sou tão noturno quanto o sol.

Somos duas evasões pós-ocaso.

Ele parte; vai reluzir em outra banda.

Eu vou para dentro de mim

(onde o que não entendo desanda)

cismar com o acaso.

Enquanto ele se desnuda no Oriente,

por aqui, a lua, alçada em Psiquê,

escala minhas dúvidas com pouco-caso.