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Posts Tagged ‘Reflexão’

CAMINHANTE

11 jun

Nasci. Antes de andar ou falar,

já sonhava. Não lembro sequer

algum instante de liberdade.

Preso à projeções fora de mim,

aprendi lidar com a gangorra,

determinante de minhas horas.

Para não explodir todo o resíduo

que foi em mim acumulando

senti que precisava de evadir-me.

Tomei a rota das palavras e caí

na solidão rodeada de afetos

contrários, quase todos de planos

a edificar-me como cópia reles

de gente que o tempo apagou.

Hoje, nada sei sobre lucidez.

Apenas que sou o de sempre

atrás das portas e de poemas.

Enquanto escrevo, penso ser rio;

lento, mas ansioso, um contínuo

caminhante em direção ao mar.

Como não vou entender a morte,

não sentirei o fim; um sono

sem o despertar matutino, só.

10.6.19

 

29 mar

não me tenha

como louco

apenas é meu

o medo

de ser pouco

11.3.19

 

27 fev

A moça lá embaixo

revolve seu mundo

dentro da bolsa.

Aflita, desfaz sua paz.

(quando comprava a loção hidratante)

O medo entre seus pertences;

noto o alívio por encontrar

seu bem procurado. Fico

pensando do alto desta janela

o quanto tentamos desvelar

o tudo sem nada saber.

O quanto se aflige a dúvida:

para ela aquele instante foi

uma de suas eternidades?


22.1.19

 

PESSOA

22 fev

Da janela do meu quarto

nenhuma flor.

Nem Fausto nem tabacaria.

Apenas o quintal que clama

por ser um verso (que seja)

de um velho poema sem registro,

igualmente semeado no cimento.

No que meus olhos acedem.

Mais uma vez percebo – frágil -

que vivo nos fundos de mim mesmo.

E esqueço de dizer que neste quintal

também não há árvores.

E eis tudo de mim a criar as sombras.

20.3.19

 

31.10.15

13 jan


lembrança de baile – dói?
torna-se o por quê?

dói a lua
que não chegou na sétima casa

vasos plantados em mim
(milhares)
percorrem bueiros –
esta inquietude fora de lugar

e dois versos em busca do poema nesta manhã:
refugiados ante  olhos  da  humanidade
afrontam o uso da palavra humanidade

&

poetas de casulos
cantam passarinhos na janela
manhãs límpidas e fecundas
ou seja:
farsas dos próprios sentidos

(seres humanos na praia
arrastam o decadente lirismo
dos seres humanos da praia)

divido esta babel íntima
com um gole de conhaque

 

31.12.13

10 jan

A língua portuguesa

e suas equações:

Não é que dentro do Ano-Novo

tem um ovo?

 

26.3.15

06 jan

toca fundo essa aspereza
tornado circundando nossos pés
dia que aparece nunca nascer
e a noite longeva de suíças negras
ditando regras sobre o que nubla
a face do que os olhos absorvem
fere esvazia vapores de alento
banhos de assento nádegas no cimento
melhor muito melhor rimas que soluções
quando tudo toca fundo essa aspereza
quando tudo toca fundo
a palavra muda sua face
nas estiagens de sedes tantas

 

ALIMENTO

09 nov

Um pardal no meu jardim
de cimento, biqueiro
e visão que enternece,
ignora e dele a angústia
eviterna pelo minuto
de um sorriso que nada evoca.

Quer um alimento
e nada transparente
em súplica ou bramir.
Sem sombra de tédio,
na irrequietude de um corpo são
e na dor do meu despertar efêmero,
é tosco no jardim.
Frio de cimento.

Vem e fita grãos
espalhados, ordenados
pela natureza, que na maneira
do mistério de pré-saber, oferta.

Logo, ilusão, desvanece.
E um abismo na tarde recolhe as sobras.

 

POEMETO 57

17 set

Entre mim e o que faço

prefiro que seja eu o escolhido.

O que faço, já fiz.

O que fiz, está feito.


Enquanto eu,

ainda posso sorrir diferente

na próxima esquina.


17.09.2010

 

POEMETO 59

17 jul

rasa é a vida

na rua
no ralo da calçada
no rasgo da lua
enquanto Deus sem alarde
arde
fundo no fundo
- não pesa
e nem flutua

(17/7/2010)