Vácuo do isolamento.

Dói-te o viver,
a hora,
o instante?
O cavalo de Troia que abrigas já além da memória?

Dói-te?
a falta de pouso,
de pausa, de pássaros cantantes?
A noite que ceifa teu sono profundo?

Dói-te o não saber
que um mundo outro após a cancela
tem mais sabedoria 
que teus eletrônicos da superfície?

Dói-te a multidão e gritos da tua mente
como míssil que atropela tuas carnes e ossos?
Dói-te tudo isso? A ausência
e a presença do nada digladiando
no teu quintal? Os venenos
em mãos distintas? Dói-te,
de verdade? Teu vácuo de isolamento
que já começas a vivenciar?
Dói-te e não queres a dor?

Então é hora de beber o silêncio
que guardas no coração 
sem dares contas 
que ali repousa à tua espera.

Vá até ele,
pelo caminho interior,
desviando dos desejos menores,
do proto egoísmo que trazes como uma paixão.

Silencia tua vida,
mesmo que por minutos.
Serás conectado a um pomar
com macieiras de frutos e sombras
guardadas para ti
desde quando não havia rastros no Mundo.

1.10.19



Para a Ely, com afeto.

Por estes últimos dias, tenho estudado com afinco, a obra de Apolônio de Tiana, mago e filósofo do Século I, cuja essência de seus ensinamentos está calcada no grande bem que a Natureza nos propicia, o Silêncio (Apolônio ficou 5 anos sem falar, obedecendo a regra rígida do Pitagorismo, do qual foi adepto.) Em meio a este momentos, recebo um mimo da querida amiga Ely Vieitez Lisboa: o livro de contos da escritora Eunice Mendes, FACA NA LÍNGUA. Penso em lê-lo logo após o término dos estudos a que me referi acima. (Ainda, ao mesmo tempo, tenho um Malraux para terminar) Mas, como se trata de uma indicação da Ely, resolvo ler apenas o primeiro conto, pois a comichão por boa letras é viciante. E tomo um susto, o conto se chama Silêncio. Um sorriso acompanha de chofre um vixe! E deparo-me com linhas assim: “Silêncio traz verdades incômodas e nos impede de nos escondermos à luz da ignorância. É o carrasco da vida mais pacífica e nos empurra para a infelicidade do autoconhecimento.”Epa! Imediatamente penso em sicronicidade (Hello, Jung!), mas também na energia do próprio taumaturgo da Capadócia, que tenho namorado ultimamente. Sei lá, mas acredito em bons sinais. Enfim, agradeço a Ely pelo precioso presente e parabenizo o talento de Eunice Mendes (sabe das coisas). Adorei tudo isso. E finalizo estes dizeres cantarolando um verso do Gil: “O mistério sempre há de pintar por aí.”

25.9.19