RIOS

 

Vou para a distância
de um ano do Tejo,
mais de dois do Potomac,
e uns (mais ou menos)
cincoenta do Turvo.

O Tejo, rio e versos,
sangrou meu olhar
de tantas esferas da íris.

O da ponte da foto de jornal,
da televisão, transformando
crianças em passos de altivez,
na subida de Arlington,
aliciou minha memória.

E o Turvo, tantas vezes
cruzado, chorado, ceifador
de vidas virgen, tatuou
em mim a incredulidade
do fim. Em cada um,
um pedaço foi extraído
do meu já parco tempo.

Hoje, levado sem águas,
a cada fala, a cada vômito,
a cada singrar de cremação,
me sinto à sós e seco.

26.11.19

FADO IRÔNICO

 

Não me agrada a palavra humanidades.
Mas de humanidade gosto muito.
Amo religiosamente.
Só não concordo que seja um singular.
Nada existe mais plural que humanidade.
Dentro dela tem muito mais coisas
que quaisquer caldeirões de bruxas,
por exemplo. Pior seria pertencer
aos aracnídeos ectoparasitas hematófagos.
Apresentar-se, prazer, sou um carrapato.
Humanidade, apesar dos defeitos congênitos,
como dizia velhos boêmios, tem mais bossa.
Basta acostumar ser títere da história.
Só isso. O resto é pinuts.

22.11.19

LUTA DO SER

A contenda é contra nossa mente.

A grande luta das forças insanas.
Como cessar a maré intermitente?
Guardar o Minuano em choupanas?

É preciso acordar e nos vencer.
Ser o mais altivo conquistador,
que dentro de nós vive sem saber
que o aguardamos para o labor.

Com a alma comandante revelada
partir para batalhas sem repouso.
A iniciar no encontro da alvorada
até quando damos ao sonho pouso.

Florir a vida com estóicas palavras
na colheita perene do pensamento.
Seguir a trilha para o alto às claras
com a leveza do desprendimento.

Descobrir no Servir a força contida.
Na imensidão do amor permanecer.
Respirar o ar fresco da nova vida
que encontraremos neste vir a ser.

Sentir nas manhãs do Sol o derrame
sobre nosso rosto e fazer a conexão
com a Vida Maior no sagrado ditame
que nos conduz à eterna comunhão.

Enfim, marcar a nossa ínfima passagem
por este planeta que foi nossa morada
neste tempo de busca e aprendizagem
da Unidade por Deus predeterminada.

8.11.19

 

 

Hoje vou falar de “A última estrela tropical”, do poeta e amigo João Augusto. Mais que falar, saudar. Como não tenho estofo literário para análises mais específicas, coloco-me como leitor privilegiado, que sempre tem o mesmo sentido em tudo que saboreia em palavras: a busca da Beleza que o fermente para essa tão curta vida (que pena!), e neste livro sobram atributos neste sentido, com tantas imagens envoltas do grande lirismo incrustado na alma deste poeta. Então, resolvi procurar transmitir, na criação de também imagens minhas (já antecipo que mais pobrinhas, como diria o Rosa), toda a aventura e ventura que senti ao terminar a leitura. Então vamos lá: como num filme, parecia-me ver o João passeando em campos de flores, de toda natureza, as silvestres e as nobres, colhê-las com suas mãos e ajeitando-as em ramalhetes-poemas. Nas mãos, o poema se parteja, depois de percorrido seu caminho de alma, cabeça e coração. Não à toa que pelo “fingo” que quer dizer modelar a argila, nasceu “fingidor”, por vezes tão mal explicado, no leito do rio mais bonito da aldeia de Fernando Pessoa. Ou as mãos preciosas do Carlos, a coabitar com o sentimento do mundo.

Pois bem, assim (para mim) o João Augusto o fez. E de ramalhete em ramalhete formou um outro grande jardim, chamado de A última estrela tropical.

Sempre que falo de livros de poesia , encerro com a escolha de um poema do livro. Mas, dado a minha ideia de sua concepção, colherei também flores já devidamente emolduradas com a boa poesia.

“Não sei soletrar a palavra mundo / sem abrir nela uma rosa, uma infância.”

“Minta comigo / sobre a distância da aurora,”

“Gosto das imensidões que brotam das pessoas”

“Ruas são sementeiras de gente, / como sonhos são canteiros de silêncios.”

e o antológico

“São mil palavras dentro da palavra adeus”

Ai está, como disse no início, minha saudação, modesta mas revestida de festa.

E o melhor deixei para agora: na capa, após o nome, tem a generosidade a nos indicar que se trata de um primeiro volume, intitulado Diálogos e sonhos, o que prenuncia outros que virão.

Bravo!

sementeiras de gente, / como sonhos são canteiros de silêncios.”

e o antológico

“São mil palavras dentro da palavra adeus”

Ai está, como disse no início, minha saudação, modesta mas revestida de festa.

E o melhor deixei para agora: na capa, após o nome, tem a generosidade a nos indicar que se trata de um primeiro volume, intitulado Diálogos e sonhos, o que prenuncia outros que virão.

Bravo!