OS SINAIS

Quando dobrei a esquina

Não percebi os sinais de

Que o meio da rua deveria

Ser o jorro da minha vida.

Quando subi na calçada,

Por mais que tentasse

Um chamamento da Fortuna,

Não vi os milhões de passos.

Sou muito mais considerado

Do que me considero;

Retribuo sorrisos à larga

Mas fico sério nos espelhos.

Só a palavra me redime.

(tanto fora quanto dentro)

Ganho beijos por elas,

Gozo suas nuances.

De resto, aguardo cores

Pela janela sempre aberta

Como ordens universais,

Pulverizadas em sonhos.

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CAMINHO DA VIDA

Pensando em Kurosawa

 

Na minha cidade não havia bondes.

Mas sei que os perdi. Várias vezes.

Certa feita, peguei o destino e me fui

A um lugar onde não soube remar.

Encontrei bondes que não eram meus.

E meus barcos e velas submergiram

No asfalto de minha indefinição.

Voltei. E continuei vendo bondes

Imaginários, passando dosdeskaden

Defronte meu coração de fantasia,

No relógio imenso e febril da estação

Do trem, que velejava por cafezais.

Talvez por isso não me tinha cais,

Nem mar, baía ou costa navegável.

Apenas vielas e córregos interiores

Pensados como uma imensidão.

Hoje sei que foram vidas que perdi.

Uma a uma se extinguiram no agravo

Do amarelo de abandono. Passei

A locomover-me por versos singrados

Nos trilhos, que se tornaram fábulas

De mim mesmo. Com montanhas, bondes

E lagos. Todos eles de Era uma vez.

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PEQUENO AUTORRETRATO

Passos surreais, docemente barrocos.

(Às vezes penso que bicho é esse.

Oferto-me ao Zoo, perto dos pandas.

Afinal, tenho polegar e cara de afeto).

Gosto de jazz e da língua portuguesa.

Vivo em guerra contra dias obscuros.

A arte de reabrir as covas da alma

Está no alinhavar do que se esconde;

Só os autófagos quebram silêncios.

E definir-se não é senão devorar-se.

Na borda do precipício de tantos totens,

Emudeço as reservas confessionais.

Mas alguns versos saltimbancos

Desvelam meus piões selados.

E me expõe nu como anúncio de morte.

A poesia é pródiga em mostrar as cartas.

Destarte, busco manhãs claras para colher

Um pouco de lucidez para meu caldeirão,

Onde está, sempre fervente, o assombro,

Perene olhar de soslaio na humanidade.

Assim, sou. Ou estou? Sabe-se lá.

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CASA DE ONTEM 6

Por esta fresta me espreito

Por esta fenda me desvendo.

(Armando De Freitas Filho)

 

Uma nota desafinada no piano da sala.

Um fá sustenido ali, na terceira oitava.

Ecoa cacete sobre as cinzas do cigarro

Em dias esgotados de tanta elegia.

Poderia ser em um noturno sem força

Ou numa mazurca que sobre o pentagrama

Marchasse, com o desleixo da tecla preta,

Na exiguidade da falta de um prumo.

Ou ser de um acorde a blue note,

A servir de berço ao improviso

Do ragtime, mais bela; sincopada,

Das polirrítmicas memórias sulistas.

A nota seria um rastro de fogo na sala

Que não existe mais. Ilusão de sonoridade

Como um bicho saindo debaixo da terra,

Filha da tecla desajustada, quase inútil.

Mas, na verdade apenas a aguda locução

De um bico azul, nascida da portinhola

De um cuco no alto do estar só. Também

Ser nota alta como um grito, a embalar

Tardes e intuições, desta de agora quase

Desespero por um piano que, pelo afã

De existir, nunca esteve naquela sala.

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O MURO

buscando formas

buscando versos

como os óculos,

sem olhos.

(Silvio Zanatta)

 

Fixo no muro de pedras o outro olhar,

O da fantasia. Vejo rostos disformes/

Mitológicos que deveriam assustar,

Por estarem na posição e essência

De espelhos de labirinto prontos,

A vasculhar o que penso (e vejo)

Enquanto doido na banda em que

Transito a maior parte do tempo.

 

A razão – censora da mente – previne

Serem as pedras colocadas por gente.

Supõe um pedreiro que não tinha tempo

Para carregar um escultor em si:

Sobrepôs pedras como seu ofício

No desejo apenas de sonhar um legado.

(jamais pensaria em desvelar espíritos)

Mas o muro ali está; pequenas manchas

Me repartem entre todas minhas faces.

A janela que sequer se surpreende

Como cúmplice do vagar de substâncias.

Os rostos ali pontificam espectros:

Máscaras que um dia terão vida. Aprumam

Versos de como resistir contra a irrealidade.

Pântanos que tendem a deixar estigmas.

 

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DIA DE VIDA

para Konstantinos Kaváfis, em memória


Atende tua porta ao chegarem
Os desejos; inclina para o lado
Do corpo que foi atingido.
Não esqueças de acolher bem
Ao que pode ser a tua Ressurreição.
Espalha ramos no teu tapete
Onde teus sentidos pisam.
Sê o humano da superfície
Da pele que te retrata.

Não Represes tuas fantasias
Por nenhum pensamento
Que te doa; solta comportas
Em todos teus poros, risos,
E em lembranças marcadas,

Como a dança dos colmos
Dos trigais que um dia viste.
Não te resguardes da canção

Primeira que veio a ti pela manhã

E que te envolveu como hera
E te acompanhou até o ocaso,

Que julgavas exausto, mas que
Ao se declinar, retratou no céu

Em sorriso lascivo, com o olhar

Da imaginação, uma rosa tímida.

E quando o sono que te aguarda,

Ruborescer ante teu dia completo,

Entrega-te como criança: abre

Teus braços e corre ao âmago
E júbilo das atividades vitais.
Nesta hora, toda tua substância

Precisará de descanso, diferente
Da tua alma que, assim que iniciares

O teu fingimento de morte, te velará.