O canto da corda do violino

dava vida ao insólito rádio

mas demovia a alegria da sala

que abocanhava a solidão.

 

A janela de madeira pedia

que a deixassem beijar o sol

e espalhar o som; quem sabe

a claridade não trouxesse olhos?

 

Um absorto enigma no olhar

da foto da mulher de coque e xale

no canto do papel de parede

choroso de todas as tardes.

 

Uma porta que há muito não range

nem permite passos adentro.

Uma porta fechada à rua.

Uma porta que cerra a vida.

 

Uma casa de toda ausência.

Da completa falta de ar.

Uma casa de dor sem grito.

Muda, de pecados opacos.

 

Uma casa em mim, fixa

pelo tempo que me carrega

pelas vias de lembranças

superpostas em imagens

 

que não se desintegram

nunca, nem nas esquinas

nem nos bares. Deverei ser

esta casa para sempre.

.

17.10.21 – A CASA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.