O poema se alça por si mesmo. Quando grita e flui. Quando as palavras arfam e amedrontam de brilho. Tornam-se pedras de valia, pedaços de mundos unos, desabrochadas placentas. Quando não obedecem a um grito, a uma ação de espreitar a dor, a fúria, seja com olor ou sangue e despejo no caldeirão que o habita, que o recebe, que o hospeda vida afora, onde aguarda o que será a deriva de um sentimento para o transformar em flor, riso ou desabafo noturno; aquilo que a forja criará com vocábulos recolhidos em brenhas de poesia. Estranhas de novas vidas, parturientes e alucinadas, ao perceber novas roupas, novos condões, as tezes que o poema lhes propôs ao tirá-las de seus berços perenes de um dicionário. Nesse momento, o amor, inesperado e encapsulado aflora como ser matinal, como um rosto aparecido na esquina da vida, curva no caminho do Sol, festa e ar em forma de nuvens a bradar poesia e vitória: está pronto e renascido aquele que vem onda, correnteza e avalanche: o poema e sua história. Vem de mil formatos e tinos e compreensões, vem rasgado, inteiro, alto som de bardo, silencioso como a última dor da noite, bêbado como um acordar, choroso como  abandono, espetáculo como o luar. Chega despejando cactos, redistribuindo beijos, como cálida reprodução de ovos, chega parasita do corpo, aprisionando os sentidos, explodindo vícios, lambendo o chão de tanto orgasmo, sem temer sequer a gaveta que, sabe ser seu destino, sua lápide, seu profundo leito. Vem cumprindo seu papel: o de carroça que traz à tona da vida o desespero de alguém, a inquietude dos seres que não se satisfazem com a dúvida de viver, com a força do cinza, ou com a sempre mente noctívaga e obliterada. Vem para o mundo já se proclamando como o grande mensageiro daquilo que chamamos farsa.

21.1.17

O PARTO

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