Praça e Sol. Manhã de percorrer as floriculturas, entre sorrisos e afetos que só a intimidade externa junto da claridade que reluz pode nos doar. As pessoas quando entre flores são tão mais vivas quanto elas. Momento que lembramos que que o movimento da Natureza opera infinitamente. Adentro ao palácio de aromas divinas e compro um ramalhete imaginando o término da ação, na entrega e o olhar precioso de que quem vai receber. Saio como um assobio de melodia barroca e encontro um homem todo fora do quadro que me toca. Cabelos grisalhos, roupas desajustadas; imagino-o a me pedir algum trocado, e cheio de magia da manhã, já me preparo. Mas não, ele olha para minhas mãos, para as flores que carrego. Trocamos um olhar e com um sentimento de culpa de pré julgar, digo:

– Lindas, não? E ele, com olhar e movimentos sutis, de afago sem toque, com um luzir na face, me responde como alma amiga,

– Como elas são generosas!

Obviamente mudo o destino do presente. Trocamos lágrimas entre quatro mãos trêmulas e entrego a ele as flores e meu coração. Sigo meu caminho, comovido pela lição de Beleza na qual me embeveci. A praça e tudo nela permanecerão em mim, crescerão em mim, doce lembrança de um momento vestido com a Ode à alegria, da Nona.

Conforme a realidade das ruas trazem o retorno inexcedível, com as flores agora já aladas, penso em doar alguns livros que tenho, Platão, Aristóteles e Kant, entre eles.

Já não me servem.

11.11.19

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