ANTOLOGIA

TREM DAS

PALAVRAS

 

(2011)

 

 

 

 

 

Prefácio: JORGE HENRIQUE BASTOS

Capa: ANDRÉ COSTA

Diagramação do livro impresso: CAROLINA GODINHO RETONDO

Diagramacão digital: ALFREDO ROSSETTI

 

 

Página Web : alfredorossetti.com

Endereço Eletrónico : contato@alfredorossetti.com

 

 

 

EDITORA TAGARELA – Ribeirão Preto

 

 

 

Este livro é dedicado à memória de Apparício Lara Filho, amigo e mentor

 

 

 

Agradecimentos efusivos a Fatu Antunes e Mário Tadeu Ricci, amigos que possibilitaram este livro.

 

 

Escrever é estar no extremo de si mesmo”

João Cabral de Melo Neto

 

 

 

Nesta Antologia estão contidos os poemas dos livros:

 

EM BUSCA DO VERSO (2005)

MUNDHOJE  (2006)

O QUANTO DESÁGUA (2007)

ESSÊNCIAS DA NOITE (2008)

AMOROSOS (2009)

POEMAS 2009/2010

 

dispostos em cronologia inversa,  verdadeiro trajeto deste trem,

que a Poesia, sombra galhofeira,

insiste em chamar de viagem pelas perdas e pelos danos.

 

 

PREFÁCIO

 

 

NO TREM DAS PALAVRAS
 
 
Numa sucessão de ritmos, tons e experimentações estilísticas que revelam o equilíbrio poético, Alfredo Rossetti expõe neste TREM DAS PALAVRAS, toda sua capacidade criativa.
 
O livro reúne poemas de várias épocas, demonstrando que o autor vem se dedicando a uma discreta pesquisa poética, como um estudioso que investiga sem alardes, sob a égide da imaginação lúdica.
 
Alfredo Rossetti trabalha como o químico que experimenta fórmulas para atingir seu fim, a receita certa, a palavra sã. Explorando um variado leque de temas que vão da palavra amorosa à reflexão ideológica, até as inquirições ontológicas, como nesta passagem esclarecedora:
 
 
(No sempre perco
meu documento.
A minha terra
é esse momento)
 
 
O poeta deve sempre procurar reproduzir o mundo, o tempo, as sensações de uma maneira que ilumine o leitor para fatos, à partida corriqueiros, mas que permitem reinventar as coisas perante as pessoas. No poema O MOVIMENTO DA ARANHA, Alfredo Rossetti condensa a imagem da solidão, num dos textos mais conseguidos do livro:
 
 
O bar sem afagos.
Sentados à mesa, os três.
Um homem sem olhar,
uma canção.
e revolta, tácita, soberana dos dois,
a solidão.
 
 
Tal capacidade de capturar um momento e sintetizá-lo em palavras é uma das formas que temos para admirar um poeta, de criar um medidor interior capaz de mensurar a tensão que se reproduz em nós após a leitura de um verso:
 
E a solidão obedece
seu santificado de deserto
 
 
O próprio poeta tem que se conscientizar do seu estar no mundo, dos seus limites e de sua pequenez:
 
 
Me transformo, me moldo.
Neste mundo de Deus
me afiguro, me adpato.
Nunca paro, e até
o próximo segundo
me reforço, estou apto.
 
 
Alfredo Rossetti consegue atingir momento de real poeticidade, em que a sua condição reflexiva – inserto em todo verdadeiro poeta – produz passagens que poderiam ser os punti luminosi de sua poética:
 
 
Somos uma eterna madrugada,
quando falamos à sós.
Momento em que buscamos
a verdadeira estrada:
a que nos leva para dentro de nós.
 
 
A busca do sentido da vida é percebida através da compreensão metafísica. O poeta é aquele que indaga tudo o que envolver o homem, e daí tira sua parcela de beleza:
 
 
O que foi antes passa a ainda é.
 
 
Mas se o poeta tem plena consciência de seu estar no mundo, também está atento às mudanças ocorridas ao longo do tempo. É como este espectador lúcido que Alfredo Rossetti dá um salto processual indo da reflexão metafísica, para a reflexão ideológica, interrogando-se sobre as derrocadas das ideologias, os desencantos políticos. Neste sentido, o poeta mostra seu passaporte do homem interessado no destino humano:
 
 
A foice foi-se.
Virou ponto cego.
Da foice à colhedeira
ao martelo sem prego.
 
 
A sua interrogação mescla desencanto com humor sem ser tendenciosa, pelo contrário, é enviesada pelo humor, seguindo uma tradição literária brasileira desde os modernistas:
 
 
Enquanto o capitalismo
enche o mundo de lixo
e a incompetência comunista
o homem de ilusão,
a poesia me enche de preguiça
sem qualquer pudor
ou busca pela razão.
 
 
Em TREM DAS PALAVRAS, Alfredo Rossetti inaugura uma linha poética que faz muitas paradas por diversos gêneros poéticos – poesia modernista, à maneira de Oswald de Andrade, poesia marginal, concreta, etc. –
Mas a meu ver, é sobretudo na percepção do mundo que o poeta captura os fatos corriqueiros que se transformam em instâncias expressivas, e onde gravitam os momentos mais fortes do livro. O autor funda aí uma voz para si mesmo, instilando uma expressividade assinalável. Exemplo emblemático e característica primordial deste poema, lê-se no poema O VELHO G&E:
 
 
O ventilador da biblioteca traça,
em pêndulo eólico,
um mapa invisível. Distribui
seu aceno simbiótico entre livros. Emite
um grito que o vento abafa,
enquanto uma flanela encalmada
acaricia sua aranha ferrenha.
Gotas de um óleo balsâmico o revigora,
mas abisma a poeira amiga, que o afaga
nas noites sem sopro, de silêncio
consorte. E assim, efígie do tempo,
aguarda a sua condição humana,
quando a manhã o torna poesia.
 
 
Sua linguagem é sucinta, transparente, surpreendente.
 
E todos devem receber com prazer o convite para essa viagem que o poeta nos convida, com o poder de sua linguagem poética.
 
 
Jorge Henrique Bastos
 
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POEMAS DE 2009/2010
 
 
 
 
A BUSCA
 
 
busco um caminho
não só caminho
mais que ir
defluir
 
busco um papel
não de papel
antes carne
lápis e cinzel
 
busco o livre
da liberdade
da palavra
que grito encrava
 
busco o fim
antes de fim
meio vital
soro centeio
 
busco o poema
que antes de poema
sou eu
 
 
 
 
 
 
IDENTIDADE
 
sou de uma terra
que não mudou de nome
nem o telefone
mudou minha cara nela
 
uma terra de conceitos 
próprios, sem desvios
móbil e contumaz
feito rio
 
a terra do homem
que se ri
porque se enrica
se reza pela vida
 
terra bonita de ver
sentir, beber
a força do campo
e benfazer
 
mas uma terra
que ficou distante
me fez errante
e me interroga
 
terra que roga 
pelo meu interregno
o nunca estar 
no quando falado
 
no que herdado
a terra zomba
sem saber do que
me tempera e fixa
 
sem o gracejo
que me faz assim:
meio barro e jardim
terra que erra
 
e me desterra
ao vento e janela
dúvida e quimera
sem paz e guerra
 
(no sempre perco
  meu documento
  a minha terra
  é este momento)
 
 
 
 
 
O ESTRANHO
 
dentro de mim 
um alguém me tira do sério
 
um alguém-mistério 
me traz o oco
 
um alguém-sufoco
não me repele
 
um alguém à flor da pele
não me escuta
 
um alguém-cicuta
coro do instinto
 
um alguém que sinto
que não me zela e me cora
 
dentro de mim
como um alguém de fora
 
 
 
 
 
O LIVRO DA NET
 
os homens criam as ferramentas;
  as ferramentas recriam os homens”
M. MCLUHAN
 
”Este mundo (pressinto)
vai se tornar terrivelmente chato”
DRUMMOND
 
 
leio um livro
adensado em kbites
leio o livro
que não se desarranja
não fica sobre a mesa
não fica sob a cama
nem esparso contorno
 
livro lá da terra
que esbanja o não retorno
livro sem marcador
da marca do seu tempo
 
livro sem coito
filho do depois
que a humanidade desapareceu
numa nuvem espetacular
em Maio de 68
 
 
 
 
RUÍDOS MUDOS
 
 
sou o grande amor da solidão 
seu anel de grau
seu rosário
sua caixinha de música
 
me reparte durante o dia
ao sol, em qualquer horário
resta-me a um canto silente
 
povoa-me de bocas risonhas
entoa cantigas não minhas
encontro cativos de ladainhas
 
afastamento e solidão 
olhos desprevinidos
lassidão, ruídos mudos
transidos
 
e eis que o nada, príncipe destes tempos, surge
 
 
 
 
 
MOTO PERPÉTUO
 
”meu Pai trabalha sempre
e eu também trabalho”
João 5:17
 
 
me transformo, me moldo
neste mundo de Deus
me afiguro, me adapto
nunca paro e até
o próximo segundo
me refaço: estou apto
 
se a obra do Filho e Pai
é incessante
sou desta força o que replica:
o tudo ou o nada mutante
 
ontem à noite
um espinho, hoje um inhame
engrenei-me no universo
um gene que aprende
magnitude deste came
 
não busco entendimento
nem oro a contestação 
mas curioso (poeta)
o que se evoluiu
a ser meu coração 
 
 
 
 
 
O MOVIMENTO DA ARANHA
 
O bar, sem afagos.
Sentados à mesa, os três.
Um homem sem olhar,
uma canção,
e revolta, tácita, soberana dos dois,
a solidão.
 
De homem a retrato.
Acinético,  ensaia respostas à dúvidas.
Em vão.
 
A canção, gitana, malquista,
de notas decaídas,
traça linhas entre paredes sem saídas.
 
E a solidão obedece
seu santificado de deserto,
ao permitir da aranha a lentidão,
posta como único cenário movente,
quase desafio.
 
 Estanca vidas outroras inteiras
num copo vazio.
 
 
 
 
 
POEMA PARA O BADEN
 
Em seis cordas, o Brasil triste
de outono, deslinda-se cafuzo.
No violão retinto, na adoção
do pecado no grito de Vieira,
emites o chamado noturno
aos versos dos condores.
 
Consolação da noite, evocas
o silvo ábrego, em auriverdes
tendões em tempos agora de convés, 
onde apuras meu sangue
e contorces pequenas lágrimas
vertentes aos teus pés.
 
 
 
 
A MOÇA DO BANCO DO JARDIM
 
Mais que a saia
as mãos na testa como pérgula.
no pulso dourado barbante raro.
Nós e fitilhos.
E arte se completa no artefato.
 
(Meu coração é que doura em sorriso.
Salta em mim o outrora, convidado à revelia.)
 
A saia ao sol enciúma a tarde.
Passam Dois mil trezentos e setenta e dois olhos
que olham, sinto.
Olham como se fosse de Marte
 
 
 
 
ALIMENTO
 
Um pardal no meu jardim de cimento,
biqueiro e visão que enternece.
Ignora e dele a angústia eviterna
pelo minuto de um sorriso que nada evoca.
 
Quer um alimento
e nada transparece em súplica ou bramir.
 
Sem sombra de tédio, 
na irrequietude de um corpo são,
e no do meu despertar efêmero,
é tosco de jardim. Frio de cimento.
 
Vem e fita grãos espalhados,
ordenados pela natureza,
que na maneira do pré-saber,
oferta.
 
Logo, ilusão, desvanece.
E um abismo na tarde recolhe as sobras
 
 
 
 
CAMINHO
 
”Poesia e política são demais para um só homem!”
TERRA EM TRANSE  – Glauber Rocha
 
 
O poeta é o dono do seu pensamento
e pensa repartir sua luz na palavra não palavra.
A que, fina e repressora
do que se entende à primeira vista,
ao primeiro demão.
A poesia, estado de viver se exteriorizando,
tem o afã de apregoar o infinito.
 
De resto, apenas uma vida que se borra.
 
 
 
 
O MARCADOR DE LIVROS
 
coloco em meio às páginas de Drummond
Maiakóvski
 
bem em cima do Áporo
no encontro poeirento da entomologia
 
desconforto que passa ao largo
de estantes tediosas
 
entre travessias angustiosas
um olho
que não se deixou-se matar
 
amanhã ele (o olho)
iluminará o caminho do meu olhar
 
na volta infinita ao bosque da poesia
 
 
 
 
 
TERRA
 
Terra não é só chão onde esteiram nossas sombras.
Não só punhado de terra areado sobre mortes.
Terra não é só sonho alimentado por posse,
distante de qualquer coisa que se imagine
no fim do que não se enxerga.
Terra não é pátria nem o amor por ela.
Nem o berço celebrado ou história que se guarda
Terra planeta girando no abismo
é filha do nominalismo.
Estas Terras não são a Terra.
Terra é a impossibilidade do que pensa sobre a Terra.
O que nunca será.
O desejo da surpresa de onde atracar.
O insabido, onde buscar.
Terra é um infindável desterro dentro de nós.
 
 
 
 
O GOSTO QUE SE DISCUTE
 
O homem olha o Universo:
sente-se pequeno.
O homem ouve um pio na mata:
sente-se pequeno.
O homem sentado na praia:
sente-se pequeno.
O homem diante do tempo que contam os livros:
sente-se pequeno.
Mas o homem com as escolhas nas mãos:
não pode sequer pensar-se pequeno.
 
 
 
 
O VERSO
”Repara: 
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.”
DRUMMOND
 
plantas ao pé da tristeza indócil
o desequilíbrio entre a face e a outra
o indício
 
jogas ao precipício flores do susto
a vida remete ao que vem
o surto
 
a pele rasga no papel o coração 
processo – adaga e folia
comoção
 
um beijo de mote – um soluço léxico
verso na noite pulsa e rebate
lítico
 
plantas mas não colho na hora vernal
posto ser indelével – segunda vinda
 vergel
 
faço da palavra pingos de chuva
busca zelosa e infatigável 
da chave
 
 
 
 
MOSCAS E RESMUNGOS
 
quando menino
olhos de radar
olhar de redor
olhos de não dormir
 
quando menino
espreita de ossos
e sem que tivesse
um telefone a tocar
 
quando menino
a espera sem sal
música a bailar
sem passos de cem
do tango universal
 
quando menino
moscas e resmungos
muro de pedra
escada trêmula
esquina e fungo
 
quando menino
o que se era não era
para ter antes
(quem lembra quer sorrir
quer festejos e nozes
quando o depois tem algo
como o rio que segue adiante
 
quando menino
a lesma pós chuva
era a irmã 
o amor doía
e chuva queria
toda manhã 
 
quando menino
muito cheiro de vida
cheiros e rimas
 credos e bueiros
 
quando menino
pior que a morte
o olhar penitente
a face da cruz
 
quando menino
esmoía de frente
com visão de goleiro
as frestas de luz
 
 
 
 
VÍCIO DAS CINZAS
”Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente.”
MANUEL BANDEIRA
 
 
Pontilho um sorriso de entardecer
no filamento de uma lembrança 
que agoura a chamuscar o momento.
Acontecimento que se debate.
Ponte arcada soçobrando o tempo
 
a estreitar arranjos impossíveis,
a vasculhar sôfregas tentativas 
de renascimento, parcos consertos,
bandagens no feito, tolos reparos.
O que foi antes passa a ainda é:
 
perfume de hoje, espinho fresco
de ponta acerada, arraigada.
Flama no segundo dorido, sem fim
que se espera, acalora ou alivia
posto ser tempo que não se divide.
 
Brota em mim o desejo de cortina
eterna a exaurir o vício das cinzas.
 
 
 
 
A VELHA BANDEIRA
 
Lá vai o cabelo desalinhado, gris e nazarita.
Lá vai a camiseta sem manga.
Lá vai o desafio andante assobiando Hey Jude.
Lá vai nubívago, entre pernas e fones de ouvido.
(Tudo na rua é colorido, menos ele, traço em nanquim)
Lá vai e passa com o que passou.
Lá vai um tempo embaraçando outro tempo.
Lá vai o velho hippie agarrado a galhos de seu sonho.
Lá vai, sem cair.
 
 
 
DEVASTAÇÃO 
 
penso na região do Araguaia:
lona de ringue sem beijo
civilização maia
impotência sobre o desejo
rastros apagados
veneno de tocaia
ameaça terminal
mastros quebrados 
livro do século XVIII com traça
edênica querência abrasada
 
amanhã pensarei sobre o nada
 
 
 
 
HAICAIS
 
o raio de luz
dentro da noite flutua
partilha da lua
 
fugaz, viça e cai
maneira da cerejeira
ser flor samurai
 
 
 
 
CASA DE ONTEM
 
porta de entrada
imagens do infinito
soberba do tango
passagens e grito
vento pequeno – avencas
quintal e a estante
posto que pouco fica
vago coração distante
 
 
 
 
NOSSO AMOR
 
queres que seja dor? então vem lenta
e vem assim como quem tenta
se puderes traz sal e pimenta
a água deixe na lua – que fique benta
se vieres anda como gato procissão folhagem
sem unhas sem o suor de última viagem
se queres sê a dor mas não a de ferir
a dor raiz – a dor do só dor
a dor do jeito que nem a dor gosta
a dor que intervala (nem sempre disposta)
a dor, se queres ser, a crua ao relento
se queres cinza pinta a aparente
dor da gente – a dor cavada
mina de prata, escora, semente.
 
 
 
 
ENCONTRO
 
quero adormecer neste abraço
quentar a vida neste toque
revoar como pipa multicor 
segurar essa forma no espaço
outro verso
outro eclipse
noutra dor
 
invocar o sabor deste entrelaço
e ungir o que virá
no cumprir do arquétipo que adeja
e ver o estilhaço
desta placidez sertaneja
desflorescer na volta 
a um tempo de cansaço
 
 
 
 
POESIA ANÊMICA
 
desenhados em giz
apagados em giz
fáceis em giz
lá vem festejando o trem que nunca virá
nunca será
não sairá
nem passará pela estação 
de quem espera
de quem suspira
de quem pode marcar
se marcar
se redimir
através de um lirismo
que se desbota a cada passo
do que não se move
 
lá vem festejando o projétil fosco
cheio de gentilezas mas ignavo
afebril
 
versos de brancos dentes
versos que se iludem
não reativos
 vesgos
palavras vulgocráticas
desistentes do poder de seu mistério 
 
 
 
 
VINAGRE
 
a foice e o martelo
o que ficou: que se pensa
no livro de história 
livro de estudar 
chato de ler
morta memória 
uma quarta de cinzas
um pobre samba meu
onde está? escafedeu
 
a foice e o martelo
medrou
assustou
assustou-se
empobreceu
entrou pela goela
ninguém fala mais
libreto de ópera 
ou virou mortadela
nem na net
nem no prelo
 
a foice foi-se
virou ponto cego
da foice à colhedeira
ao martelo sem prego
 
quem sabe ainda volta
logo depois do banho
com roupa mais jovem
e outro tamanho
 
a foice e o martelo
um sonho paralelo
 
 
 
 
CONTO NUM POEMA
 
Ná sétima cornija, num dia de garoa como todos os outros, encontraram-se na ladeira do Verso Manco, sobriamente vestidos, timidamente viventes, Carlos Drummond de Andrade e Fernando
Pessoa.
 
O Carlos, ao ver o outro possuído de Mestre  Caiero, quis ser mineiramente gentil, dizendo logo 
um verso:
 
”sou um homem dissolvido na natureza,
estou florescendo em todos os ipês” (1)
 
Mas o português, com vontade de vicejar em outros mares ou riachos, de forma deseducada, foi
embora num estremecer corpóreo. E apareceu o Fernando, que após sacudidelas, ajeitou os
óculos e pouco solene, murmurou ao colega de grandeza:
 
” – Vou ao Abel!”  (2)
 
 
1) Versos do poema Tempo de ipê, de Carlos Drummond de Andrade.
 
2) Frase dita por Fernando Pessoa, várias vezes ao dia, no escritório do Sr. Moitinho, onde trabalhava de tradutor comercial, quando saia para beber um trago de aguardente.
 
 
 
 
A ONDA
”só as ondas se sucediam,
em cada onda o mar se despindo
sem nunca chegar a nudez”
MIA COUTO
 
Sou invadido por um tempo perdido.
Onda mansa que atinge o fim da praia.
Demora a voltar, querendo ficar.
Traz consigo a incerteza da notícia
dentro de uma garrafa.
Molha-me. Esfria pretensos mergulhos.
Nada grita, nada mostra; corrói.
E a dor que porta, distribui de sorrisos nos lábios
Quando a temo infinita, esvai-se.
E com o rosto ao sol, respiro novamente
na confluência do marasmo de hoje
e um acorde beatle imorredouro.
 
 
 
 
O VELHO G.E.
 
O ventilador da biblioteca traça,
em pêndulo eólico,
um mapa invisível. Distribui
seu aceno simbiótico entre livros. Emite
um grito que o vento abafa,
enquanto uma flanela encalmada
acaricia sua aranha ferrenha.
Gotas de um óleo balsâmico o revigora,
mas abisma a poeira amiga, que o afaga
nas noites sem sopro, de silêncio 
consorte. E assim, efígie do tempo,
aguarda a sua condição humana,
quando a manhã o torna poesia.
 
 
 
 
A POESIA
 
1.
A poesia traz água para quem não tem sede.
A poesia alivia a dor que não se sente.
A poesia verte água que se singra e o bálsamo que suscita.
A poesia assoma o que está sob pedras do aflitivo dos dias.
Atrás dos portais do efêmero, do raso.
O sorriso alardeado na manhã nascente de tristeza,
lágrimas escoadas em meio a festejos de amor,
são outras sedes, outras dores, alteadas 
no momento em que a poesia cava a nossa alma.
 
2.
A poesia acolhe-se à margem do aquém mundano,
Sai em busca do não-comum além cigano.
Sem garras (já se disse nas sombra),
nem masmorras, súbita aparição do usual,
antinatural, provém o homem de outros braços, 
outras rosas, novas pernas, laços, forjas, 
outro mundo que não se vê direto, claro,
enquanto suporta a tralha que de vida escorre.
Com versos revogados no peso dos dias,
a poesia, díspar, manancial e arte,
não trabalha nem morre.
 
3.
Cordata, a palavra aloja-se tranquila, mas inócua.
Assenta ao branco como um leito.
Quieta, sem presságios.
Corto-a ao meio, desalojo-a tangente.
Ela renasce em calor e prova da missão lírica
sem suspeição. E mesmo menor, ínfima de espessidão,
prova do destino de gestar o poder de afago
que o papel domado e silencioso jamais sonhara.
 
4.
E o verso nasce, sopra.
E contém aquilo que não se espera,
não deixa que se vergue.
Não permite a afronta e se cristaliza 
como águas das chuvas que caem,
escorrem e são levadas, amor fati,
sequentes, sábias no seu caminhar
Não importa muito a fugacidade.
O momento é viva, motor e arrimo.
Brota, serve e adormece feliz.
Dentro de cálices de estrelas,
compartilha o espaço com a grandeza
e a loucura, junto à toda poesia do mundo.
 
5.
Versos, têm dois.
O da hora marcada e o outro, fértil.
que nos desencontra.
 
Do verso que se espera é um só fingir de belo.
Verso vaticinado, no patíbulo, amarelo.
 
Mas os pais de nosso delírio, o inesperado,
este que é turba, saltimbanco,
em nossa alma joga dados.
 
 Verso que não se rende ao adivinhar da mente.
Verso que sempre assalta, fustiga, que se sente.
 
Improvável, inaudito, que dói mas alivia.
Se não puder outro nome, que lhe chame poesia.
 
 
 
LEVE FANTASIA
 
”Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia”
CAMÕES – Os Lusíadas – Canto IV 99-2
 
 
Não se retira o medo do amor ao mito.
E passam anos, séculos e se enaltece
Sempre a busca do poder infinito
Que o homem à bula envaidece;
Salta sobre escrúpulos sem rito,
Morde ouro, crava dentes, se esquece
Do brilho da estrela que o governa
E se morre, deseja a glória eterna.
 
O homem é o mesmo do ruprestre.
O mesmo cego da Idade Média.
Mata o que respira, o silvestre;
Coloca os seus muros na ideia
Que ter é a essência de um mestre
Da vida e da luta em alcateia.
Nada foge de sua cerimônia,
Nem a divina mata da Amazônia.
 
Mesmo com o sessenta, flor sonhada,
Nada restou em nada que se ame.
Estamos na caverna, qual morada
Do sempre, sem que a luz do céu derrame
E nos traga a redenção esperada
Ou que a irmã Virtude nos reclame.
Mas sabemos: o tempo envelhece
E a religião nada leve tece.
 
Que também singra em busca de seus mares,
Mas de forma estrana, nos ensina
Que a pobreza de seus antigos pares,
A boa nova que não mais fascina
É o que permeia sempre nossos ares
E arrecadar mais é o que determina
Ao homem buscar valer sua sorte
E enquanto vive, vive a eterna morte.
 
Não se ouve o brado do velho louco
Porque ele já não há neste destino.
Tentar novos gritos é muito pouco
Porque fomos forjados em desatino,
E as nossas vozes neste timbre rouco
Jamais terão a Graça do menino
Que trouxe o amor, mas deixou dilema:
Poder amá-lo sem ler seu poema.
 
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