NO FACEBOOK

 

 

  1. O medo

 

O medo se esteira. Aninha-se no cóccix.

Em entranhas de tudo que respira e abre olhos.

O medo se acasala, despeja mais proles

A cada movimento que a Terra meneia;

O medo imantado no ror de cabeças,

As chuvas tisnadas de lâminas afiadas.

Governado pela gerontocracia do tempo,

o medo desencanta. Sem acordes e escalas

Abafa sons e silêncios nas fendas e trapézios.

O medo vem do parto, dos leites maternos,

Escolas, dos afagos proibidos ao corpo.

O medo é a equação destes tempos novos:

Mais a vida se alonga menos temores findam.

O medo não está no ar, não mora no Universo

Nem debaixo das pontes. Está no que somos.

O medo é introduzido como um ácido coletivo,

Com bad trip, cobras e cruzes que alucinam.

O medo sobrevive à morte. Conhece os punhais.

Por isso, a soberba inata, a baba sobre o mundo.

Não há medos no medo. Mesmo sem a face clara,

Apresenta várias vestes à nossa frágil nudez.

O medo é irmão do homem. Se um extirpar o outro,

A humanidade perecerá. O medo se afigura

Ao medo de Montaigne, o medo de sentir

Medo. Como se dizia num velho poema:

O dedo do gatilho na rua

E o dedo do povo na urna,

Grassam o medo de sentir

Medo na Pátria nua. *

 

  1. O ódio

 

Nas redes sociais, o ódio sente-se à vontade

Como fossem sua varanda, seu píer,

Travesseiro, socos na porta reprimidos,

Orgasmos, alimentos, artérias com sorriso

Que engraçam, colorem tais gifs raivosos.

O ódio sai das cabeças antes de se pensar.

Concentra toda uma ancestralidade.

Represada desde os caçadores-coletores,

Do fogo nascendo do atrito, do sílex.

Tudo envolto com a razão oca, partejada

No abstrato que busca, como radares,

O armazenamento da insensatez, restos

De ideias de aparte, imagens de fraturas,

Hoje, guindado à soberania de gritos

Escritos, que se muda, se cala, se quiser

Ser covarde ou vil, sem a digna preocupação

De não ser nem se portar como humano.

Nas redes sociais, o ódio é o Uriah Heep

de Dickens. Atira dardos na alegria,

defeca sobre o amor.

 

O PANO

 

 

No fundo do palco, sentado num praticável.

Olhos na plateia vazia. Levanta-se calmo. Vai até a boca de cena e grita  – Mundo?, como um chamamento.

Começa a dizer um poema para toda aquela ausência. Um soneto desconhecido. Ao fim do segundo quarteto para. Espera ouvir o Coro dos Instintos. Nada.

Olha para as suas mãos: restos de argila usada. Inicia os tercetos. Ao terminar, com o silêncio de tudo, deixa cair a cabeça. Queixo no peito, desata a rir. Ou a rir-se. Não um riso tenso, cascudo. Mas reflexivo, irônico.

Dá as costas às cadeiras vazias. Pensa que nada pode exprimir mais dor que um teatro vazio. E se vai, em busca de outras deixas e falas.

 

 

7.8.20

CANTIGA LIGEIRA

– de donde é que você vem?
– Eu fui além, eu fui além
– Pronde é que ocê vai?
– Vou no acolá do acolá
– E na vinda viu o céu?
– Em riba d’eu, em riba d’eu
– E o vento foi tamém?
– No vai e vem, no vai e vem.
– A poeira alevantou?
– No carcanhá, no carcanhá
– E no rio atravessô?
– Só parei, dei di pescá
– Era noite e era dia?
– De procissão de romaria
– Quem foi junto de você?
– Foi Ninguém Nossa Senhora
– Quem puxô o tal rezá?
– Foi a dona Mariá
– A mais velha do lugá?
– A mais sabida no falá
– E agora o que é que tem?
– Só a gente que sobrô
– cade Deus e cadê reza?
– Ladainha que se preza
– É pra onde você vai?
– Pronde a vida se arribá
– E depois se se morrer
– Vai pro fundo se enterrá
– Penitência no chegá?
– Só se Deus me esperá
– Sabe donde qu’ele tá?
– No acolá do acolá
– Sem jeito de remediá?
– Vai e me espera por delá
– No acolá do acolá?
– No acolá do acolá.

 

6.8.20 Croniqueta

 

 

 

Tenho um outro amigo (velho amigo mesmo, sujamos o 7 Vidas na lama do Dilúvio) que tem desconfiança em tudo que respira e apanha sol.

Não estou exagerando, é um caso mais de polícia do que para Freud, pois tudo para ele tem um crime, feito cabine telefônica (ainda existem, no UK, as vermelhas?) em filme de Hitchcock.

Mas há muito tempo não o vejo. Mora em outra cidade, e rede social nem para remédio, depois da eleição do Trump. Essa quem me contou foi sua esposa. Acha que tem hacker russo até no filtro de barro São João da cozinha.

Uma vez, um jovem escritor entrou em contato comigo, pelo Skype (já sou freguês antigo) e lá pelas tantas, tirou esta do alforje: então você é um velho amigo do Tem Coisa? Ele me disse que vcs estudaram juntos desde o primário.

Foi de susto que perguntei: – Quem?

Sim, meu amigo tornou-se o famoso Tem Coisa, o destemido leitor das entrelinhas.

(No Plano Collor, fugi dele o tempo todo. E quando tinha de encontrar, levava o violão e desfilava meu parco repertório).

Tem implicância com certas pessoas e não sabe explicar as causas. Apenas levanta uma sombracelha e emite uma tosse lúgubre em meio a um sei não ou tem coisa. O Glauber era um, e dizia ah! o protestante? O FHC, outro. Sobre a privatização da Vale usou um oceano de Tem Coisa!

Certa vez veio nos visitar e mostrei a ele (ainda existia A Cidade impresso) um projeto de uma ponte que o Palocci queria construir sobre a rodoviária. Nem vou dizer o que ele disse. E tinha!

E nunca usou a expressão no plural. O problema era uma coisa só. Única. Pulverizacão divide, enfraquece o inimigo.

A última vez que nos encontramos, andava às voltas com o livro O Presidente Negro, do Lobato. Estavam aprontando alguma contra o escritor. É um tem coisa internacional.

Comecei esta história falando em 7 Vidas. Apenas um calçado baratinho da minha infância. Podem ter certeza que nisso não tem coisa alguma, a não ser a comprovação da nossa estrada, cheio de coisas de todos os jeitos, tamanhos e aromas.

Com o tempo a cataliza-las cada vez em ameaça da velhice. Na verdade, meu amigo já é uma de minhas saudades. Coloco-o sempre no presente, como um protesto contra a danada da sua ausência.

Esta sim, tem coisa.

última vez que nos encontramos, andava às voltas com o livro O Presidente Negro, do Lobato. Estavam aprontando alguma contra o escritor. É um tem coisa internacional.

Comecei esta história falando em 7 Vidas. Apenas um calçado baratinho da minha infância. Podem ter certeza que nisso não tem coisa alguma, a não ser a comprovação da nossa estrada, cheio de coisas de todos os jeitos, tamanhos e aromas.

Com o tempo a cataliza-las cada vez em ameaça da velhice. Na verdade, meu amigo já é uma de minhas saudades. Coloco-o sempre no presente, como um protesto contra a danada da sua ausência.

Esta sim, tem coisa.

2.8.20

Drummondiano

Lula ataca Moro que ataca Bolsonaro que ataca o Dória que ataca o Lula que ataca o Ciro que ataca o Bolsonaro que ataca o Moro que ataca o Lula que ataca o Dória que ataca o Bolsonaro que ataca o Lula que ataca mais uma vez o Ciro que ataca todo mundo enquanto a Natura dá um nó publicitário em todo mundo e tira ouro do nariz do povo

literalmente

1.8.20 Croniqueta

 

E eis que, com o Covid nos prendendo mais que o Felinto Muller (por desfeita, nego-lhe a trema)com o Governo de mais de um ano e meio, eu arrumei
uma contenda brava (a primeira e única)com um grande amigo. Outro dia, ele me fez uma pergunta de sinuca de bico, ou seja, esclarecendo a imagem, daquelas que não posso tangenciar e nem jogar a bola para escanteio. Sendo mais direto, uma coisa ou outra, sem terceira via. (Será que teremos? Sei não.)

Perguntou-me qual laive (perdão, Padre Vieira) eu assistiria? Ou será que disse assustaria?

Do presidente Bolsonaro ou uma de música sertaneja?

Fui verdadeiro e respondi de pronto. Prefiro a do Presidente. (Pensei até em lascar um “nosso”, mas seria dar bandeira demais à ironia. Ele poderia não gostar.)

Aliás, antes de prosseguir esta história, tenho que recorrer a uma explicação. Este amigo, a quem adoro, tornou-se este ano, irascível. Sempre foi um gozador, bonachão e ultimamente, está mais pra cachorro doido. Sabe quando um paulistano fala conosco, do interior? Daquele jeito.)
Acho que essas transformações nas pessoas também é um virus.

Pandêmico igual. Ou será a propagação (ou a coletivação) da barata do Kafka?

Ele explodiu! Parecia a Sara doida falando. Zangado feito o anão.

– você vive dizendo que o Presidente tem um vocabulário de 200 palavras e agora vem com gracinha?

– Isso é brincadeira minha. Só pra te provocar, kkk (ia dizer que a Marília Mendonça tem um menor que isso, mas deixei pra lá.) Não é gracinha. Eu prefiro o presidente, sim.

– Eu também. Claro que prefiro. Mas você está mentindo! E depois já deu. Outro dia você disse que ele é contra máscara porque não tem coordenação motora para colocá-la! Já deu, cara! E chamou o Ernesto Araújo de Chanchulé!

– Isso não é meu, quem diz isso é o Sérgio Augusto.

– Já deu! Fui!

– A piada é boa…

E antes de seguir com meus argumentos, desligou.

Parou de falar comigo.

Eu nem tive tempo de dizer que fosse do Almir Satter e do Renato Teixeira, eu optaria por eles. Ou o Boldrin. (Tião Carrero eu até tomo uma cachacinha, ouvindo-o)

Agora um trabalho de Sísifo me espera para fazer melhorar a coisa.
Voltarmos a ficar de bem. Esta situação é doída. Não há políticos que possam substituir a amizade. Amigo é das maiores dádivas que a vida nos legou.
Difícil de definir, de tão sublime.

Já sei o que vai me custar:
Deixar a quarentena por uma tarde/noite e uma garrafa de Old Parr.

E Deus me livre sugerir gelo.

Nem pro meu enterro aparece.

29.7.20 Croniqueta

 

Descubro, neste outono de minha vida, que o grande inimigo da minha existência foi sempre o misoneísmo. Constato o grande quixote que sou contra este mortal oponente, de garras afiadas e outros quetais. (Ave, Maria! Sossega o facho!)

Se me perguntarem o porquê dessa assombrosa* descoberta somente agora, quase aos 70 deste
meu agora desnudado* vilão, respondo a verdade: não conhecia a palavra.

(* Pode dizer e criticar o quanto quiserem, mas que um adjetivo é uma delícia, ah! isso é! Às vezes, até orgástico!)

Diga lá, camarada Houaiss:

“MISONEÍSMO – aversão ou desconfiança em relação a mudanças; hostilidade para com o novo”

E eu já disse até em poema que “quero coisas novas a cada instante / mesmo que elas tenham mil anos. Pedaço de mim pode ser saudade / mas o resto: susto constante” (Poemeto 12, COLHEITA DOS VENTOS (2008).

Antes tarde que o nunca-nunca.

A luta parece longe de terminar. (Expressão de otimismo. O longe para mim é defesa contra o tempo)

Mas cansa mesmo o tal de misoneísmo. Tem representantes dessa escola (só pra dar um certo grau de respeito, chamar logo de chato é… chato) vive para resistir. Respira um ar meio diferente, já fica de cara feia pro vento. O novo corrompe, segundo eles. Sejam cantores, jogadores de futebol, roupas da moda, vereadores, e tudo o mais. Trocou de mecânico? De dentista, até mesmo de bordel, lá vem o “vixe, sei não.”

Não sei até agora como estão sobrevivendo nesta quarentena e das mudanças advindas de. Com as perspetivas de reformulação no pós, já estão cheio de perebas. Alergia neste caso para eles é mais corriqueiro que a propina brasileira.

É praga esse tal. Nessa onda de conservadorismo que grassa nossas vidas, eles estão à toda. Do Itamaraty ao vestiário do Íbis.

Até no Inferno. Dizem que lá nada mudou desde Dante.

Credo! Até arrepia!