Ao Coutinho, mito do Sec. XX.

 

 

 

 

Alegoria  – Rubrica: literatura.

Sequência logicamente ordenada de metáforas que exprimem ideias diferentes das enunciadas.

 (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

 

&

 

“Dystemporal refere-se à maneira desorientadora e distorcida pela qual o tempo é manipulado e percebido no trabalho (musical).

(Anthony Cheung)

 

 

 

 

 

Capa: Lunar Bird é uma escultura abstrata de bronze de Joan Miró. Foi modelado em 1945, ampliado em 1966 e fundido em 1967. Está no Jardim de Esculturas, Washington, DC.

(Foto do autor)

 

 

 

 

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1.

A passarela dos pobres é longa – uma cobra –

se diz procurando imagem e seu agon:

carros passam – adentram pela sua cloaca,

sem compromisso de horas e licenças.

 

Repito vezes sozinho o verso da tortura sem vingança

– tripudia a (s)chibata do insano –

ao desejado ouvidor que já morreu há anos.

 

O mundo perdeu todos os cheiros reais.

Sobraram novas narrativas e disrupções.

 Abrasamentos quebram a monotonia da neve;

penas fingidas nas notas pretas do piano findam contudo.

Apetência às sobras em horas de sino sem sino mais.

 

Um poema nasce no aipede e rasga a noite

marca barbante.

 

2.

Sombras sobre o corpo –  sobre a alma:

tentativas encapotadas – nada mais ser

que submetido (sepultado)

na supremacia dos crachás

que grassam nesta cidade com donos.

 

Corredores cinzas geram obuses

diante de quem almeje andar.

Mais que isso: soar sua cantoria,

surtar de poesia; ardência lírica

a evolar-se entre casarões mal cheirosos

onde comentários insabidos revoam.

 

Um cansaço sobre os nossos olhos

fecham cortinas a sóis interiores.

3. (e eis que ele se exalta, o irritadiço)

A crônica social ocupa os pátios da arte.

(quem escreve morre de fome – ouro aos fotógrafos)

Abraços e vinho branco versejam acesos.

Sorrisos desconhecem Bocage

e compõem sonetos em meio ao conforto

sincero de não-percepção do vazio de letras.

 

Assim atrevido como nasci – tasco

poundianamente my rasting:

 

POETA é quem tem respeito ao que faz – lê poesia.

                                

POETA DA AUTO-ILUSÃO é quem não sabe o que faz –

não lê poesia.

 

POETA MOUCO é quem sabe que não sabe, mas faz algo que não é.

Mas quer porque quer que seja – o da contrafação.

Diz que lê, mas não há evidências.

 

POETA DO EGO INFLADO tem respeito ao que faz – lê poesia.

Mas não tem respeito pelo que os outros fazem.

 

Falta tinta à pena.

 Falta ter pena.

  Falta a voz que condena;

 

só não faltam

faltas.

4.

Toca fundo essa aspereza.

Tornado circundando nossos pés.

Dia que parece nunca perecer.

Noite longeva de suíças eternas

 –  regras sobre o que nubla.

A face do que os olhos absorvem

fere e  esvazia vapores de alento.

Banhos de assento –  nádegas no cimento.

Quando tudo toca fundo no segundo

ou terceiros partejamentos em algoritmos,

a palavra muda sua face no Zeitgeist

em estiagens de sedes tantas.

5.

Cá estou – eu e o outro eu.

Cá estou – aqui e lá;

aqui manhã em G.

O ciclo terminará noturnal em Em7/9.

 

Lá de dentro avisam que coisas pulularão pontífices;

(esta pipoca do fundo alivia)

terei que ceder porcentagens maiores ao outro:

trocar meu shampoo anti-caspa por uma espiriteira.

 

Olhar no Houaiss starta o trabalho de apuro

que um insano escrevedor de versos falidos um dia anunciou:

inspiração!

 

– Ó vulgo vulgar velejador sem vela,

nunca usas remo?

6. (recuerdos)

Canto sereno que iço

de uma prateleira da loja de caça

e pesca e umas ferramentas menos mortais –  uns dedais.

Canto viajado kms de sentimentos e bloqueios (tentados

e inúteis) surgem na esperança de fruição. Ó deuses, espero!

 

Canto engendrado em artigos das Seleções & Daniel Dafoe.

Desordem em visão calafetada destas ágoras censoras,

inimigas fálicas da poesia de alteamento dos ressurgidos

na vã e inócua tentativa de imaginar o que já foi calçada;

pés descalços (rádio direito trincado) e a Giulia Gentil,

facilitada pela mão esquerda em Clave de Sol – a sinistra.

Enfim a vida cheia de Rubinho, Enrico, Bira e Wladimir

mais uma grande tela com cortina abrindo ao Look for a star.

 

Canto e diretos pontos de luz da memória acendem

quando se toma por tino um alerta aos poucos desvanecendo

e se apresentando como um poema acabado, um filho, um neto.

Daí embora assombro vem e justifica o sereno do verso cimeiro.

(canto de canto

canto de soslaio

agasalho d´alma

versos relicários)

Enquanto a Igreja e as tias desarmavam nossa liberdade, Lobato

passava batido com Darwin na história do mundo para crianças.

 

meninos sempre:

    “vede a luz!”

 

7.

Travessia sobre o vácuo da Ilha de Vera Cruz

desprende o ar (afunila) em torno do torpor

de um verso heroico com acentos marcados

como manhã  de 7 de setembro.

 

A turbamulta sai pelas ruas em protesto.

Não só contra um, mais de um, sejam motivos,

razões e fatos. Membranas difusas nos tambores.

 

Nos tempos do urubu-lixeiro, El-Rey vendia

títulos a toda a gente –  tomava casa no braço,

enquanto a mãe gritava nas alcovas.

Sem que Deus ouvisse.

 

Navios de pau-brasil versus espelhinhos (depois as peças).

 

Tudo começou ali atrás – no tédio da calmaria.

Nunca antes;

a não ser se há documentos quaisquer

de índio propinado por outro por um chão de inhames.

Se isso se deu, provas, por favor.