Por esta fresta me espreito

Por esta fenda me desvendo.

(Armando De Freitas Filho)

 

Uma nota desafinada no piano da sala.

Um fá sustenido ali, na terceira oitava.

Ecoa cacete sobre as cinzas do cigarro

Em dias esgotados de tanta elegia.

Poderia ser em um noturno sem força

Ou numa mazurca que sobre o pentagrama

Marchasse, com o desleixo da tecla preta,

Na exiguidade da falta de um prumo.

Ou ser de um acorde a blue note,

A servir de berço ao improviso

Do ragtime, mais bela; sincopada,

Das polirrítmicas memórias sulistas.

A nota seria um rastro de fogo na sala

Que não existe mais. Ilusão de sonoridade

Como um bicho saindo debaixo da terra,

Filha da tecla desajustada, quase inútil.

Mas, na verdade apenas a aguda locução

De um bico azul, nascida da portinhola

De um cuco no alto do estar só. Também

Ser nota alta como um grito, a embalar

Tardes e intuições, desta de agora quase

Desespero por um piano que, pelo afã

De existir, nunca esteve naquela sala.

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CASA DE ONTEM 6