SOLIDÃO

Leio o Ítaca de Kavafis.

Choro e rio na certeza

de que somos corpos

e sentidos para a vida.

De que há caminhos

absolutos de regalos

e encantadas forças

que a Beleza nos traz.

Mas me faltam outros corações ao redor.

Ouço o amor de Isolda

a Tristão no prelúdio

de semeação de Wagner.

Choro e rio na certeza

que fosse a minha vida

somente este segundo

já seriam estas lágrimas

o que pensamos de eterno.

Mas me faltam outros corações ao redor.

Os passos de Chaplin

e Paulette Godard

no final de Modern Times

me assolam. Choro e rio

na sempre estrada

que leva às escolhas

das vias que trilhamos,

ao belo a que nos leva.

Mas me faltam outros corações ao redor.

Me sobra o medo

que a solitude

possa numa manhã

de primaveras e aves

tornar-se fagulhas

estéticas com o poder

de a qualquer momento

em comoção, explodir-me.

Por isso nego-me a rir ou chorar com quem se veda.

20.3.13

FUGA

Tento em outono

fugir-me em versos

como a procurar

a estrada de terra,

cercada de culturas

sob o pó das árvores.

Daí escapar do mundo

rodeado de intolerância

para o cio da arte.

Desligar de espíritos

amalgamados em folhetins

televisivos, nefastos,

hábeis em transformar

estruturas congênitas,

apagando da memória

a crença de que somos

rios e sonhos.

Necessitamos de nossas matas ciliares.

SOBRAS

Ele sonha

como eu poderia ser.

Ela sonha comigo

cheio de gravatas profundas.

Eles sonham comigo

com olhos como um falso espelho.

Eu sonho mais

(o tempo todo).

Por isso moro no quarto dos fundos

onde mastigo sobras

do que em mim é real

(as derradeiras).

Nas paredes

amarelas escreveram:

(algum prisioneiro

de barbas longas)

Há de prevalecer aos séculos

todas as pragas mosaicas.

2.4.16

O APÓS

Beira do dia:

há um abismo

chamado após.

Muda de lugar

a cada instante,

a cada pistache,

a cada sangria.

Um bálsamo

de evidências de história

de números e sufoco

compõe um borderô

de vida.

Beira do dia:

há um abismo

e um chamado

sempre ávidos,

onde soçobram

cansaços e delírios.

Por vezes,

alguma semente.

19.10.16

Isolar o sol e o sorriso para mais tarde

(na tarde que vazia virá)

Não haveria sentinela para o tempo.

Mesmo assim (por mania),

almejamos a tudo

manhã e notas musicais

notícias

flores

versos,

que depois serão decaídos no papel,

no arquivo com vírus,

na cabeça ácida de olvidamento.

Tudo na vida é muito igual,

cópias.


7.10.15

Somos censores naturais.

Cabeças com seis décadas

de lembranças,

pinçamos as não amargas,

as palatáveis: cerejas

da memória.

As sobras sofrem cortes

bruscos com a tesoura

do tempo a piratear dentro de nós.

Os fatos nos convivem

como cartas náufragas ao léu

no emaranhado de dias vividos.

Somos os naturais censores

de nós mesmos – torturados.

8.10.15

AMAS COMO VÊS; CRIAS

Fora a noite

de dentro

da ogiva em que me destravas.

Fora outros gatos

dentro

do cérebro soturno.

Fora das páginas dos livros

vale o que sonhaste:

árvore solitária.

Que fora do caule

uma folha cai em dança metafórica;

traz algo como a morte.

Fora do invisível

que veda seus olhos e sentidos,

resistes.

Fora de tudo

amas o que inexiste

em mim.


CESTO DE FAGULHAS

Desço pelas ruas pisando a noite.

Fatos mortos se intervalam entre si

sem pausa, como um folheto

em velhos almanaques. Ávidas

recordações espocam transitórias.

O tempo não resiste às lembranças.

O tempo inexiste a um cérebro espesso.

O pensamento rompe qualquer noção

de datas ou agendamentos confusos.


Estou agora nesta madrugada fria

desafiando serenos e ratos,

mas carrego comigo o sol do Rio

ao pensar em pessoas que sei vivas

que caminham na manhã

as quais invento por vontade,

por uma saudade

ou sonoridade de um mar melancólico

na quase certeza de uma dor já evitada.


Atravesso triunfalmente um beijo

de língua que ficou num sábado

qualquer do Universo ou aquele

acorde de quinta aumentada

que faltou para ela quando me agradava

com The shadow of your smile em ré menor.


O que eu quero mesmo é estancar o sufoco

de tanto de mim dentro de mim.

E que o tempo se revigore

e me remova das noites irmãs;

que eu seja apenas passos.


Para a oferenda indivizível de chão.

Sem o espírito da escuridão

e seu cesto de fagulhas,

chafariz de névoas antepassadas.