LEITURA

deparo com a palavra desconhecida

tento intuir o que seja – o que me diz

 

apelo ao contexto da frase

do parágrafo

da história do que já percorri do copo sempre cheio do autor

 

despudorada

rainha e fatal

diz-me tolo

 

no dicionário lá está ela soberba

já sem o mistério de antes

mas com o mesmo sorriso de anjo e meretriz  que adivinho que desde a escolhida

pudesse falaria a ela que a sonoridade que retumba é maior que o seu reles significado

 

talvez a desabasse deste brilho que atordoou minha vida de leitor atento

pobre buscador de vocábulos que me sejam combustão para meus dias

 

não sigo mais a leitura

sobre mim um engano de vida toda

a incógnita que avassala o pensamento: ao ler não sou o dono do meu olhar

as palavras

frases

linhas e a solidão do autor diante de mim é que  me leem

 

no instante de leitura são meus olhos porta de entrada de meu ser

com amável e guerrilheira aventura tomam-me posse

sem licença nem pressa

POETADAS

 

I

ocaso morno

um verso passa e não me leva junto

som seco de fúria tira de toda via a isenção do medo

a noite embrenha-se além de onde estaria e derruba estacas

um doce sorriso (que imantava outros) fica escuro – seca

parece que há noites que rejeitam tardes de sonoridade plena

– pequeno verso viajor, que sejas no mínimo arraiado e carrossel

II

não tragas atonia se vieres em chegada à passos concretos

saibas do zelo nos pisares e pés álgidos de ladrilhos

tenhas a linguagem de Ítaca sem mastros

não retornes ao limbo

assenta ao altar (dói-te todo ouro?)

mas chega ao verso sem abominar caules do lirismo

beija com pudor: a poesia dialogo com todo coração.

III

a graça do prazer fora das ruas

longe da fúria errante da palavra falada e arcaica, submersa às buzinas

a graça é o silêncio e o sentir bem dentro do ventre da terra

fora de toda vida na ditadura de ancestrais

(a tristeza apenas por conta do mar que dista)

a graça será por ser poeta da esquina sem cidade e náusea

IV

a poesia rala recebe mais que indulto

medalha são postas e estudos abdicam do sério viés que finge soturna qualidade

são apenas normas herdadas

ranços ruminados sob os dogmas de sempre

assim decidem o que é/como se faz eugenia de formas:

evertem líricos e às trovas narizes torcem

V

temas inamáveis encafifam o artesanato das palavras

(a poesia rejeita o tálamo)

assim o canto (boca de sapocosturada) vai gritar gols

VI

a poesia cede e o vento (de soslaio) circunda o amor que a tarde beija

bocas de opressâo

silhuetas vermelhas como cascas do enjoo

setas que perfuram a carne em chamas de natureza bélica, ardem:

eufemismo para tesão descarado e incolor

VI

somos censores naturais

cabeça com sete décadas de lembranças

pinçamos as não amargas – as palatáveis: cerejas da memória

as sobras sofrem cortes bruscos com a tesoura do tempo a piratear dentro de nós

fatos convivem com cartas náufragas ao léu no emaranhado de dias

somos os naturais censores de nós mesmos – torturados

VII

beira do dia: há um abismo chamado após que muda de lugar a cada instante, a cada pistache, a cada sangria

um bálsamo de histórias e números e sufoco compõe um borderô de vida

beira do dia: há um abismo e um chamado sempre ávidos onde soçobram cansaços e delírios

por vezes alguma semente

VIII

o poema se alça por si mesmo quando grita e flui

quando as palavras arfam e amedrontam de brilho

pedras de valia, pedaços de mundos unos, desabrochadas placentas

não obedecem a um grito, a uma ação de espreitar a dor, a fúria, seja com olor ou sangue e despejo no caldeirão que o habita, que o recebe, que o hospeda vida afora, onde aguarda o que será a deriva de um sentimento para o transformar em flor, riso ou desabafo noturno: aquilo que a forja criará com vocábulos recolhidos em brenhas de poesia

entranhas de novas vidas parturientes e alucinadas

inesperado e encapsulado o amor aflora como ser matinal como um rosto aparecido na esquina da vida – a curva no caminho do Sol

festa e ar em forma de nuvens a bradar poesia e vitória: está pronto e renascido aquele que vem onda, correnteza e avalanche

vem  de mil formatos e tinos e compreensões, vem rasgado, inteiro, alto som de bardo, silencioso como a última dor da noite, bêbado como um acordar, choroso como  abandono, espetáculo como o luar

chega despejando cactos, redistribuindo beijos, como cálida reprodução de ovos, chega parasita do corpo, aprisionando os sentidos, explodindo vícios, lambendo o chão de tanto orgasmo, sem temer sequer a gaveta que sabe ser seu destino – sua lápide – seu profundo leito

vem cumprindo seu papel: o de carroça que traz à tona da vida o desespero de alguém (inquietude dos seres), a força do cinza, mentes noctívagas e obliteradas

vem para o mundo já se proclamando como o grande mensageiro daquilo que chamamos farsa

SOLIDÃO

leio o Ítaca de Kavafis

 

choro e rio na certeza de que somos corpos e sentidos para a vida

 

de que há caminhos absolutos de regalos e encantadas forças que a Beleza nos traz

 

masme faltam outros corações ao redor

 

ouço o amor de Isolda a Tristão no prelúdio na semeação de Wagner

 

choro e rio na certeza que fosse a minha vida somente este segundo já seriam estas lágrimas o que pensamos de eterno

 

 

mas me faltam outros corações ao redor

 

os passos de Chaplin e Paulette Godard no final de Modern Times me assolam

 

choro e rio na sempre estrada que leva às escolhas das vias que trilhamos, ao belo a que nos leva

 

mas me faltam outros corações ao redor

 

sobra o medo que a solitude possa numa manhã de primaveras e aves

tornar-se fagulhas estéticas com o poder de a qualquer momento em comoção, explodir-me

 

por isso nego-me a rir ou chorar com quem se veda

 

20.3.13

FUGA

tento em outono fugir-me em versos como a procurar a estrada de terra,

cercada de culturas sob o pó das árvores

 

daí escapar do mundo rodeado de intolerância para o cio da arte

 

desligar de espíritos amalgamados em folhetins televisivos, nefastos, hábeis em transformar estruturas congênitas, apagando da memória a crença de que somos rios e sonhos

 

necessitamos os de nossas matas ciliares

SOBRAS

Ele sonha como eu poderia ser.

Ela sonha comigo cheio de gravatas profundas.

Eles sonham comigo com olhos como um falso espelho.

Eu sonho mais (o tempo todo).

Por isso moro no quarto dos fundos onde mastigo sobras do que em mim é real (as derradeiras).

Nas paredes amarelas escreveram: (algum prisioneiro de barbas longas)

Há de prevalecer aos séculos todas as pragas mosaicas.

2.4.16

CESTO DE FAGULHAS

Desço pelas ruas pisando a noite.

Fatos mortos se intervalam entre si

sem pausa, como um folheto

em velhos almanaques;

ávidas recordações espocam transitórias;

o tempo não resiste às lembranças;

o tempo inexiste a um cérebro espesso

e o pensamento rompe qualquer noção de datas

ou agendamentos confusos.

Estou agora nesta madrugada fria

desafiando serenos e ratos,

mas carrego comigo o Sol

ao pensar  em pessoas que caminham nas manhãs

que invento por vontade,

saudade ou à sombra de um mar melancólico.

 

Atravesso triunfalmente um beijo de língua

que ficou num sábado qualquer do Universo

ou aquele acorde de quinta aumentada

que faltou para ela

quando me agradava com  The shadow of your smile em ré menor.

O que eu quero mesmo é estancar o sufoco

de tanto de mim dentro de mim.

 

E que o tempo se revigore e me remova 

das noites irmãs;

que eu seja apenas passos,

para  a oferenda indivizível de chão

sem o espírito da escuridão

e seu cesto de fagulhas,

chafariz de névoas antepassadas.