BRASIL

Despejo meu lirismo na latrina do Rei.

 

Sufoco o dia como os Pios de Roma, posto trazer em si um novo Sol, que prenuncia algo de novo, de reiterados embriões.

 

Estou noctívago e barroco.

Penso que o momento cansa a vida,  sua vítima dileta.

 

Mas descubro que o país já me aterrou muito mais. Essa falta de traquejo em dor cívica me embaraça: acabo misturando horrores.

 

O que o tempo traz. O que o tempo abandona. O que o país estarrece. O que nos vicia. Se o tempo nos cadaveriza, o Brasil me apunhala aos poucos.

Lâmina afiada nas mídias retalham corpos e credulidades.

 

Confianças extenuadas de tanto atoleiros no barro desta estrada que nos conduz do parto até a morte.

 

Não tenho clarificado em mim se a cada dia sou um brasileiro velho que toma a chuva do tempo ou do país.  Sei que ambos não mais riem de minha idade. Nem o tempo nem a Nação. Mas da esperança, sei não.

A TOPADA

na esquina do semáforo daltônico e estrábico topo com Che Guevara:

boina estrelada
olhar reservado ao futuro

cara de El penado 14

tensas rugas no pano negro

 

vinha pelo peito de um moçoilo

imagino (com maldade) que o confundira com roqueiro da velha guarda

 

Che não sorriu nem olhou para mim

nem leu em meu rosto a poesia de mitificação

 

cruzou-me com indiferença ao som surdo da concertina a ecoar estranhamente por Sierra Maestra

 

um puro sêmen do Korda

nem filho de Rosário nem da mãe

 

30.7.16

JORNADA ÍNTIMA


No espelho,
meu rosto permanece
desde a primeira claridade do dia
como roupa amarrotada
jogada aos pés da cama.

Na rua, um fusca disputa
em decrepitude com o dono
e o banco em que senta. Diz
um bom-dia achado na memória.

O mar me chama e rejeito
a ideia de turismo e cachaça.

Sinto estar no exílio
em qualquer lugar que permaneça:
cidade, quarto ou biblioteca.

Um verso rebate a noite já morta
tentando impor uma cortina
ao que já nasceu devassado.

Mas o dia em meio a tudo isso
traz pequenos afagos ao coração:
os olhos do cãozinho abrem
caminho ao que escondo de mim
tentando suprimir momentos.

Por fim, iluminando o mundo,
minha neta que vem chegando,
anuncia-se como fogo de esperança.

Aí me vem o arrependimento
de não confiar nos bons presságios
da manhã que não abracei.

E de não ter sequer cortado a barba.

17.3.17

O MUNDO EM MARCHA… À RÉ

 

estamos no intervalo do tempo em que soltaram os cães sobre a sobra do que era cidadania

sob rédeas e coleiras nos pescoços dos 99% da humanidade estão aproximando asteroides letais:

falam-se em muros – mulheres obedientes – decretos assinados em ritmo de blitzgried – quiçá a volta da escravatura para no mínimo aos 99% da humanidade – uma degola à tarde outra pela manhã saciando o mundo de Debord

aplicando a volúpia de poder a que assistem desanimados uns 99% da humanidade – os que comem biscoitos da Nestlé – os que tomam Coca – os que levam balas de fuzil e viram alimentos quando se alimentam

por isso pode fazer falta: grãos que são enchem o papo de quem o tem imenso sem fundo furado

(é bom os 1% repensarem e se coçarem senão a farra humana acaba)

TOM


o Tom é tudo
é o acorde que não dói
a nota que sorri
o passarinho assanhado
a nuvem ligeirinha
a mata em jogral
o rio do assobio

o Tom é tudo
é o tom do Brasil sonhado
é o som do sempre nunca mais
é a manhã do amanhã
é o dia que substitui todos os dias
é a chuva da promessa de vida
é o coração

é nosso, o Tom

me dá um abraço, Tom?
é só para eu chorar um pouco
25.1.17