REDENÇÃO

Eu, como Lennon,

não acredito em mais nada.

Nem na minha pretensa indiferença,

nem a tudo que foi acabado,

pronto a ser servido.

Acredito apenas nas minhas inseguranças

tornadas sangue.

(fazem festa dentro de mim)

Mantenho um sorriso largo

atrás da porta

a tomar contas das manhãs.

Assim me absolvo.

2.7.13

BRASIL

Despejo meu lirismo na latrina do Rei.

Sufoco o dia como os Pios de Roma,

posto trazer em si um novo Sol,

que prenuncia algo de novo,

de reiterados embriões.

Estou noctívago e barroco.

Penso que o momento cansa a vida,

sua vítima dileta.

Mas descubro que o país

já me aterrou muito mais.

Essa falta de traquejo em dor

cívica me embaraça:

acabo misturando horrores.

O que o tempo traz.

O que o tempo abandona.

O que o país estarrece.

O que nos vicia.

Se o tempo nos cadaveriza,

o Brasil me apunhala aos poucos.

Lâmina afiada nas mídias retalham

corpos e credulidades. Confianças

extenuadas de tanto atoleiros

no barro desta estrada

que nos conduz

do parto até a morte. Não tenho

clarificado em mim se a cada dia

sou um brasileiro velho que toma a chuva

do tempo ou do país. Sei que ambos

não mais riem de minha idade.

Nem o tempo nem a Nação.

Mas da esperança, sei não.

LUTA

Um poema danado e lutador

como um peixe,

brigou muito para mostrar

que a arte pode servir

de guia ao pensamento

e ajudar a pobres humanos

a se colocarem acima de reses.

Mas de nada adiantou.

Nestes tempos em que vivemos,

o poema danado e lutador,

feito peixe,

caiu na rede.

7.12.17

A TOPADA

na esquina do semáforo

daltônico e estrábico

topo com Che Guevara:

boina estrelada

olhar reservado ao futuro

cara de El penado 14

tensas rugas no pano negro


vinha pelo peito de um moçoilo

imagino (com maldade)

que o confundira com roqueiro

da velha guarda


Che não sorriu

nem olhou para mim

não leu em meu rosto

a poesia de mitificação

cruzou-me com a indiferença

ao som surdo da concertina

a ecoar estranhamente

por Sierra Maestra


desatinado mantive meu dogma maior:

Pelé es mejor que Maradona


30.7.16

LEITURA


Deparo com a palavra desconhecida.

Tento intuir o que seja, o que me diz.

Apelo ao contexto da frase, do parágrafo,

da história,, do que já percorri, do copo

sempre cheio do autor. Nada.

Despudorada, rainha e fatal,

Desafia-me e chama de tolo.

Vou ao dicionário.

Lá está ela. Soberba,

já sem o mistério de antes,

mas com o mesmo sorriso de anjo

e meretriz que adivinho que desde

a escolhida. Se pudesse falaria a ela.

que a sonoridade que retumba

é maior que o seu reles significado.

Talvez a desabasse deste brilho

que atordoou minha vida

de leitor atento, pobre buscador

de vocábulos que me sejam

a combustão dos meus dias.

Não sigo mais a leitura.

Cai  sobre mim um engano de vida toda.
Uma incógnita avassala o pensamento:
ao ler, não sou o dono do meu olhar;
as palavras, frases, linhas e a solidão
do autor diante de mim é que  me leem.
No instante de leitura são meus olhos,
porta de entrada de meu ser, que,
com amável e guerrilheira aventura,
tomam-me posse. Sem licença ou pressa.

27.6.17



JORNADA ÍNTIMA


No espelho,
meu rosto permanece
desde a primeira claridade do dia
como roupa amarrotada
jogada aos pés da cama.

Na rua, um fusca disputa
em decrepitude com o dono
e o banco em que senta. Diz
um bom-dia achado na memória.

O mar me chama e rejeito
a ideia de turismo e cachaça.

Sinto estar no exílio
em qualquer lugar que permaneça:
cidade, quarto ou biblioteca.

Um verso rebate a noite já morta
tentando impor uma cortina
ao que já nasceu devassado.

Mas o dia em meio a tudo isso
traz pequenos afagos ao coração:
os olhos do cãozinho abrem
caminho ao que escondo de mim
tentando suprimir momentos.

Por fim, iluminando o mundo,
minha neta que vem chegando,
anuncia-se como fogo de esperança.

Aí me vem o arrependimento
de não confiar nos bons presságios
da manhã que não abracei.

E de não ter sequer cortado a barba.

17.3.17

O MUNDO EM MARCHA… À RÉ

estamos no intervalo do tempo
em que soltaram os cães
sobre a
sobra do que era cidadania
sob rédeas e coleiras nos pescoços
dos 99% da humanidade
estão aproximando asteroides
letais sobre as cabeças
dos 99% da humanidade
falam-se em muros
em mulheres obedientes
decretos assinados em ritmo de blitzgried
quiçá a volta da escravatura
para
no mínimo aos 99% da humanidade
uma degola à tarde
outra pela manhã
saciando o mundo de Debord
aplacando a volúpia de poder
a que assistem desanimados
uns 99% da humanidade
os que comem biscoitos da Nestlé
os que tomam Coca
os que levam balas de fuzil
viram alimentos quando se alimentam
por isso pode fazer falta:
grãos que são
enchem o papo
de quem o tem imenso
sem fundo
furado
(é bom os 1% repensarem
e se coçarem
senão a farra humana acaba)

27.1.17

TOM


o Tom é tudo
é o acorde que não dói
a nota que sorri
o passarinho assanhado
a nuvem ligeirinha
a mata em jogral
o rio do assobio

o Tom é tudo
é o tom do Brasil sonhado
é o som do sempre nunca mais
é a manhã do amanhã
é o dia que substitui todos os dias
é a chuva da promessa de vida
é o coração

é nosso, o Tom

me dá um abraço, Tom?
é só para eu chorar um pouco
25.1.17

O PARTO

O poema se alça por si mesmo. Quando grita e flui. Quando as palavras arfam e amedrontam de brilho. Tornam-se pedras de valia, pedaços de mundos unos, desabrochadas placentas. Quando não obedecem a um grito, a uma ação de espreitar a dor, a fúria, seja com olor ou sangue e despejo no caldeirão que o habita, que o recebe, que o hospeda vida afora, onde aguarda o que será a deriva de um sentimento para o transformar em flor, riso ou desabafo noturno; aquilo que a forja criará com vocábulos recolhidos em brenhas de poesia. Estranhas de novas vidas, parturientes e alucinadas, ao perceber novas roupas, novos condões, as tezes que o poema lhes propôs ao tirá-las de seus berços perenes de um dicionário. Nesse momento, o amor, inesperado e encapsulado aflora como ser matinal, como um rosto aparecido na esquina da vida, curva no caminho do Sol, festa e ar em forma de nuvens a bradar poesia e vitória: está pronto e renascido aquele que vem onda, correnteza e avalanche: o poema e sua história. Vem de mil formatos e tinos e compreensões, vem rasgado, inteiro, alto som de bardo, silencioso como a última dor da noite, bêbado como um acordar, choroso como  abandono, espetáculo como o luar. Chega despejando cactos, redistribuindo beijos, como cálida reprodução de ovos, chega parasita do corpo, aprisionando os sentidos, explodindo vícios, lambendo o chão de tanto orgasmo, sem temer sequer a gaveta que, sabe ser seu destino, sua lápide, seu profundo leito. Vem cumprindo seu papel: o de carroça que traz à tona da vida o desespero de alguém, a inquietude dos seres que não se satisfazem com a dúvida de viver, com a força do cinza, ou com a sempre mente noctívaga e obliterada. Vem para o mundo já se proclamando como o grande mensageiro daquilo que chamamos farsa.

21.1.17