Faço uma ponta no mundo
(fugaz e exclusa) como poeta.
A palavra tornada minha
no nosso colóquio, foge
carregando minhas dores
em suas costas – redistribui
seu afeto por uma ou outra
esquina e esvoaça relâmpago
depois junto ao sol poente
resguarda como se fosse (e o é)
serva da natureza humana.

6.1.17

Chegaste tão mansa
que pensei outra coisa.
Com o sentido ocasional
da surpresa pensei amor.
Há muito só em partidas
sem o que se pense ou doa
chegaste como um sonho
acomodado no passado
da foto
de cigarro entre os dedos
e um olhar de Kerouac.
Chegaste a benvinda
de outrora, chegaste
como quem chega
fora de hora.


5.1.17

(para Fernando Pessoa)
sou alguém desajeitado
o tempo inteiro

quando falo
quando coço
quando amo
quando olho um Dali
quando colho nêsperas
quando mergulho na vida
quando conto piadas limpas

nas mentiras do dia
sou alguém tolamente desajeitado

fumando
as cinzas me desgarram como moscas

só me recomponho nas palavras
que espalho
na argila que modelo
no meu remo de cores

aí, solitário e nu
sou uma poça de água
a refletir uma lua de aquarela
quase humana

18.10.16

A VIAGEM

Folhas soltas no chão e alguns livros.
Janelas de Iñárritu alvoraçam as margens
por onde a trilha se esboçou e se fez
por conta das superposições imagéticas.

Fado sem retorno pela seara iconoclasta
que desembaraça teias e franjas humanas
postas à serviço de inteligências forjadas
e patíbulos de cabeças presas a monitores.

No início, logo na primeira esquina, o fel
na figura de anjo decaído; joga o laço estreito,
mas ares eudemonistas, antídotos, me livram
como livram sempre aos homens que leem.

Por isso, bonança prematura, um livro se abre
em crucifixo, escancara vísceras sob palavras
como um fardo dentro do breu marítimo
e grita ao vento leste que siga seu desterro.

No meio do caminho, um poeta, preso em timidez,
subverte seus próprios versos de cocaína pura,
nascido de calvície, paletó e gravata, de beleza
intensa de quem pode desafiar Juno, caso queira.

De quem se torna pai e mãe da poesia que se faz
do lado explorado do mundo, cantos de arrastar
seus pés em folhas secas, enquanto o movimento
perpétuo da terra, recebe a orquídea redentora.

Além dos rios que atravesso, um cantar socialista
de cheiros de bem-aventurança, mudam o trajeto
de uma humanidade de leis e castigos misantropos,
doando além de amor, ar puro às pituitárias afogadas.

Há vielas de espadas, becos de ritos anunciados,
cavalo voadores, heróis cinematográficos, dores
expostas em palcos, onde egos resplandecem
como chafarizes a bicos de pena já  amarelados.

Mas há o refletir constante, a dúvida em Aristóteles,
o porquê de respostas infalíveis, o abraço que tonteia
quando por caminhos do cérebro adentram em prima
vez flores novas que se elucidam ou se tornam mistérios.

Por fim, dia posto, canto de arrebol, pássaro estranho
e mágico se faz ouvir por todas as ágoras doadas
pela natureza a seus filhos, os que partejam em si,
renascem em si, às vezes cegos, mas sempre vivos.

CELULAR

os olhares mudaram
de direção
– agora só nas mãos

no ônibus no namoro
no passo
(laço na atenção)

na vila
olhar na vala
olhar funil

na fila
olhar sem fala

na vida
olhar que perde
da vida
o que arde,
o febril

o celular mudou de rumo de prosa
o celular mudou de poesia

nenhum olho no olho
nenhum cisco no olho

mudou o motivo
da cabeça baixa
mudou o bom dia
o fone de ouvido
mudou o furtivo

o mundo esqueceu
do mundo
no mundo que já dialogou
com a cortina suspiro
que o gestual uniforme
fechou

o homem que não mais pisca
– agora cisca

27.7.14

BANCO DE JARDIM

Com os estilhaços deste tempo
que espoca o incrédulo,
o obtuso, a falta de luar,
quero para o meu coração
a servência acolhedora
de um banco de jardim
nos abraços a vários mundos.

No abandono dos intervalos
da solidão da minha madeira,
que a praça cativa,  refazer-me
de cada pássaro,
de seus excrementos,
de cada celular amouco,
de seus cantos desgarrados,
de cada passo sem olhos que atravessam
as próprias vidas de cada desgraçado
que sobre mim dorme,
ao manto testemunhal da noite
que deverá ser mais um nada
no desvario do próximo amanhecer.