POEMA DO POETA LIBERTO

A poesia como filme de Fellini;
sonhos e buscas interiores.
Dessedentadas imagens mais que telas, janelas
no fundo do olhar de caverna
cava aquilo por vezes em xis
outras em estrada rumo ao Sol.
Sempre extração de dores
pois tudo que passa dói,
mesmo as visões de um pião,
fósforos de cor ou a inefável do céu.
(brinquedo que se quebrou
depois que se calaram as vozes
que ralharam a solidão
amiga e tatuagem de infância)
Versos e fita do que somos
dentro de versos e fitas do que fomos
nos passos e as tais urdidas reflexões
mesclam-se na expressão de que podemos aproveitar
estes restos todos de angústia
e perolar esta mesma angústia dando, em poesia,
a bandeja de carregar o que exprimimos.

Sejam fúrias perenes posto que
nada do que fica dentro de nós é anacrônico.
Tudo que fica em nós é tempo abolido,
tempo edênico de Levy-Strauss
(como no velho poema repetido sob a luz de alpendre)
tempo do não tempo do sem tempo
onde residem todas as messes
para uma poesia que se deseja antálgica;
verso de remissão, de expiação que viceja em horas
de se esconder da estética, da teoria e da invenção
assim fincada no que seria da tela do cinema,
da tela do pincel,
do útero do mármore,
do grafite das paredes recuperadas,
das pernas de Niijinski,
do adágio de Ravel na sinfonia-beijo a Gershiwin,
da lente do Sebastião.

A argila modelada e livre
das ambições e dos poderes
sem bruxas e papas a se esteirarem,
da crítica malsã ao simples palpite.

Apenas dedo e olhar
em sonhos remoídos
e a palavra desbotada.

POETADAS

I
ocaso morno
um verso passa e não me leva junto
som seco de fúria tira de toda via a isenção do medo
a noite embrenha-se além de onde estaria
e derruba estacas
um doce sorriso
(que imantava outros)
fica escuro – seca
parece que há noites que rejeitam tardes
de sonoridade plena
– pequeno verso viajor,
que sejas no mínimo arraiado e carrossel
II
não tragas atonia se vieres em chegada
à passos concretos
saibas do zelo nos pisares
e pés álgidos de ladrilhos
tenhas a linguagem de Ítaca sem mastros
não retornes ao limbo
assenta ao altar (dói-te todo ouro?)
mas chega ao verso sem abominar
caules do lirismo
beija com pudor:
a poesia dialogo com todo coração.
III
a graça do prazer fora das ruas
longe da fúria errante da palavra
falada e arcaica, submersa às buzinas
a graça é o silêncio
e o sentir bem dentro do ventre da terra,
fora de toda vida
na ditadura de ancestrais
(a tristeza apenas por conta do mar que dista)
a graça será por ser poeta da esquina
sem cidade e náusea
IV
a poesia rala recebe mais que indulto
medalha são postas
e estudos abdicam do sério viés que finge
soturna qualidade
são apenas normas herdadas
ranços ruminados sob os dogmas de sempre
assim decidem o que é
como se faz eugenia de formas:
evertem líricos
e às trovas narizes torcem
V
temas inamáveis encafifam
o artesanato das palavras
(a poesia rejeita o tálamo)
assim o canto (boca de sapo
costurada) vai gritar gols
VI
a poesia cede e o vento (de soslaio)
circunda o amor que a tarde beija
bocas de opressâo
silhuetas vermelhas como cascas
do enjoo
setas que perfuram a carne em chamas
de natureza bélica, ardem:
eyfemismo para tesão
descarado e incolor

A PORTA DAS SAÍDAS

A minha loucura
não tem o dramatismo patológico
nem provoca sustos e medos.
Nem desanda em gritos
ou salivas voluntárias.

Apenas minha loucura
(que exercito a cada dia)
leva-me aos lugares que quero,
com atos que desejo,
pessoas que sonho próximas.
Traz-me os meus ódios e paixões.

Minha loucura me deixa suportar:
metade do que vivo,
(progrido nesta marca a cada verão)
o tempo que me assa,
pessoas milionárias em auto-afirmações
e o silêncio encarcerado
a que foi o tempo submetido
depois que morreram as revoluções humanas.

Minha loucura só me enfada em tardes
que a dor, próxima da minha loucura,
resolve tangenciar-me com fantasmas
que apagam os archotes
do túnel de minha escuridão
e que só se evadem ao toque de recolher
de uma pequena sineta
acomodada no bolso interno
da bata dourada da minha loucura.
A minha loucura não adentra;
a minha loucura é a porta,
se não entrada, mas de certeiras saídas.
Permeadas com raios de sol que colho,
um a um, quando tenho a aurora,
como hera, serpeando em minhas mãos.

Por isso é bem-vinda,
a todo momento.
Assim que desejar, a minha loucura.

ENFANT TERRIBLE

Você escreve o poema.

Escolhe dois vocábulos
e com grande susto
percebe-os três ou dez mil.

O verso desdobra-se,
alinha-se rebelde,
salta do teclado.

Vida não projetada no seu rigor de poeta.

O poema é criatura sem final feliz.
Que não finda na criação;
ondula e anda centopeia.
Flutua sobre a humanidade.
E a humanidade aí é o poema.

Nada há além de escrever.
Tudo o mais são dois braços embalando a criança
para o sono da tardinha.

Você escreve o poema.
E de tempos em tempos o lê.
A cada é vez é apresentado a ele.
Por isso e mais, na poesia
a vida é achados, sempre.

31.12.2002

O NASCIMENTO


ao theo

uma ideia apenas:

fragância de espera

(que face flutua

que sorriso tem)

seara emotiva de conceber

fluir ao encontro com a luz

– o parto

– o porto

braços como cais

anti partida

bençãos entorno de outra era

agora todo leite aleita um futuro

todo olhar urge a argila

que molda

a forma perfeita que invade a vida

1.4.15