9.

“Que é que tenho com o mico-leão-dourado? Alguém pode me explicar para que serve um hipopótamo? Ah! vai lamber sabão!”

(Ratinho, apresentador de televisão, ex-deputado, pai de govenador de Estado e ídolo popular)

 

Tomo o pito pelo verso sem fogo,

(frio ou apagado não entendi

direito) que não projetou-se além

do teclado, onde alguma letras

já desgastaram-se pelos tempos

de solidão reinados desde que

resolveu-se no mundo que não

mais se fique sozinho quem tem

a pachorra e a determinação da

valoração da existência muda

toldada pelo abajur da noite,

que atina nossos refolhos

até um amanhecer de graça,

nada morigerado, cheio de nós,

de eles, de vozes e ritmos cheirosos,

bem distante da dentadura

do meduseu Steve Bannon:

o que degela quaisquer flores,

sejam plantadas ou plásticas;

sejam de vida ou de mentira.

Aliás, essa, presente em ambas.

 

Agora que cansado repito

um verso antigo, feito nem sei

que hora, acinte ou desafio.

Aquele dito em surdina, quase

desabafo ou pressa de terminar

o poema que ameaçava alicerçar

um monte de palavras desertoras,

que diz “o café resolve o verso.”

10.

Há poetas que só escrevem

para sua turma de bar.

Bebem bastante e vomitam prédicas.

Craques de palestras: odeiam lágrimas;

poesia feita com uma cartilha

que não se vende nas feiras livres

pela razão simples de não ser livre.

Poesia dos seus antepassados de trincheiras,

das suas vanguardas em luta contra o mofo já mofo.

 

Para mim são versos de garupa,

agarradinhos como namorados na lambreta.

Versos-caudas também é bom: como cometa

cheirando o cu de estrelas já mortas.

 

Haja medo de não parecer gênio neste século chafariz.

Meu cutucão será em forma de rima (bem pobre)

para a qual (eles) também escabujam  o nariz.

12.

a água finda        

o elemento                          excrementos

de suicídios                           de avisos

sobejos

solfejos

da cantoria que se dizia

onde

quando

não acredito                        traz o começo

do fim

se depara com a erosão do sarro

 

(mariantoniete-se: não tem água?

tome ginger ale)

 

tudo sério fica como os óculos e o bigode

do poema do Carlos

 

não brinquemos                 não à alegria

fora odes!                             que venha

o que tiver que vir

e cesse jogar culpa como confete

olhai o rabo, o próprio

14. (dystemporal)

morcegos rasam sobre espiralados ventos

ao lado de folhas que nascem de violinos & cellos

manietados por humanos bebedores de sangue

artificial – notas extraídas em parcimônia

com o oboé refrescante mas de sons escuros

na frígida noite onde se ouve anthony cheung

 

o papel eletrônico custa a entender e estende

palavras que não deveriam estar posto que bocas

escurecem a desejada luminosidade que o espírito

casto pede que se empreenda uma noite prenhe

de música/ silêncio > que se fechem  todos dicionários >

que se amortalhem quaisquer ruídos fora da surdez

que a primeira sensação provocada imanou

16.

Há  caminhos  para outros séculos:

vias outras  de esparsas pinceladas,

aflitivas sedas, outros ópios e anéis,

cabeças e fantasmas clamadores,

enviesados nas trilhas de loucuras

carnais e epilépticas na Casa Amarela

ou nos bares de beijos suicidas

das ruas de Greenwich Village.

Há um poema de Mario Faustino

em transe na terra do Glauber,

uma cena de Marat/Sade,

cordas afinadas e Baden.

Um cartão de $10 de Basquiat.

Há porta (sem chave) cada saída,

quando a arte esfumaça a vida.

Quando não se quer pobre a vida

a viagem se traduz como infinita.

A busca se posta como fome.

A fuga nos remete à escolha,

mais que desejo                 –  a secura,

mais que escudo                –  a arte

e a  arte mais que tudo    – o respiro.

 

(porém –  há cérebros inanes

sem quaisquer viços

e percepção da falta desta poeira)

 

 

 

 

17.

Horas abarcadas, manhã

embaixo do ar. Nuvens

de secretas imagens; olhos

invisíveis e recuos; pálida

vertigem. Fugas cínicas

de imagens do passado.

(o verso em meio nasce,

flutua e se escora em asas,

mas logo ruma ao seu limbo

por caminhos de elefantes)

Há de pôr termo ao sentido,

fincar braços sem amarras,

repicar o velho sino do sono.

Dividir esta babel íntima

com um gole de conhaque.

 

– Quem sabe um fundo de ser

para um infalível mergulho?

18.

 “Por vários ângulos, o absurdo é uma ferramenta organizacional mais eficaz que a verdade.”

MENCIUS MOLDBURG –

Blogueiro da direita americana.

 

Um relativístico a quicar defronte

olhos cansados. Ritos, quase mitos

impregnam-nos de muletas eletrônicas

dos engenheiros do caos,

interventores das mentes pagãs ou não.

 

Mensagens como setas dos pigmeus de Bandar

que nasceram no último pôr do sol,

trôpegas em Android,

já eclipsadas em IOS por louros nas urnas:

ódio em vez de merda nos ventiladores.

 

Não há mais sítio de expiação.

Vivemos um preceder perene

dentro de um brejo.