2005

em busca do verso

 

a elegia datada

 

Em memória de Haroldo de Campos, inventor.

 

 

o homem desta manhã

 

nos olhos fundos

de cada um

no mundo do olho

de cada um

que pudera

 

no orvalho

que insiste

no triste

ovo que gera

mostra o mundo

da palavra mera

 

o homem atrás

do pano de fundo

no limoso poço

– cratera

 

olhar profundo

nos olhos tristes

e  corcundos

a dor jacta:

a dor da era

 

olhar santo

de tanto fundo

que na pele atraca

a funda espera

 

 

 

 

a fome e o planfeto

 

que se leve avante o levante ante

essa coisa de fome de quem não come

de quem não consome e se consome e some

ou fica no mundo ou fica vagabundo

ou se desfaz e não faz se não se faz

pois consegue que um todo negue

a importância e a ãnsia da bravata do lula de gravata

que o mercado acha que ata que o banco atarracha

e usa o riso e usa o siso a imprensa e prensa

a todos que querem que o levante

não se esfomeie irrelevante qual estrela cadente

falar nisso cadê o dente?

 

 

 

 

quem tem medo do homem nu?

 

para Wladimir Herzog

 

 

a foto do fato do homem tratado no porão como rato

na pele pela dita ditadura

que forja suicida e dor sem atadura

cala o gesto

a pena

a fala

e leva à vala

tritura

ama da dor intátil à torpe tortura

mas amador líder a delir o delírio ufano

tripudia a (s)chibata do insano

 

(o nó do peito: regar do fedor da dor do nada feito ao feitor)

 

 

 

revivescente

 

remoer a ferida

retirar a tala

o que atenua

o viver em vão

 

na vida sentida

se o sofrer cala

a poesia crua

arranca um não

 

no alto da vida

(aonde a dor se instala)

o clarão da lua

banha meu coração

 

 

 

 

a briga

 

na rua

a lua

              crua e nua

anuncia

um eclipse

na tua

psique

 

 

 

 

carcará

 

o canto do João

do Vale

vale tanto

que o tanto

é pouco

e um poco

santo

 

 

 

 

roberterasmo

 

”e que na minha idade

só a velocidade

anda junto a mim”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

encanto

 

lua

 

olhar

rua

luar

arder

nua

luaridade

 

 

 

 

mote na morte do haroldo

 

um mundo a cada atómo num segundo a cada mundo num átimo envelheço no mundo

que meço eletronizado cada passo no espaço strangeletizado o aço das cinzas de um laço

do recomeço

 

 

 

pohemeto sonoro para cantar em qualquer andamento

 

ao mago Hermeto Paschoal

 

o tudo toca

o nada canta

a toca toca

toca e canta

até pato toca

e o mato canta

 

 

 

 

a corrente

 

a falada pá de cal sobre o visionário

dos versos com jugo o calvário

ó grilhão ao abecedário

em troca do catecismo

ao dinheiro do egoísmo

ds conversão que o prazer acorrenta ovaciona

todo aquele que deveras teme um outro lado

que a vida tem

 

 

 

revigorar

 

re vidar     re tirar      re mover

tal e qual     o total      do mal

da fala    da sala     e do sal

 

 

 

 

quatro

 

a tarde a chuva a janela a vida

a vida da janela na chuva de tarde tarda a vida

na chuva da janela a janela da vida

na chuva de tarde a chuva da janela

da vida de tarde a vida é tarde

é janela a chuva é vida

a vida sopra a vida morre na tarde

 

(enquanto isso lá fora a chuva e a tarde

se enamoram por um canto de jardim

cá a janela introduz na vida

como um novo amor o olhar

por fim o olhar e o jardim

cumpliciam-se com a tristeza do ocaso)

 

 

 

 

o dízimo

 

a sacola passa

e ultrapassa

a massa

a seita cresce

e escurece

a messe

a plebe

submissa

purga omissa

a sacola cresce

e ultrapassa

a seita

e escurece

submissa a plebe

omissa

 

purga

a messe

e a missa

passa

 

 

poética 1

 

mate não tema

anátema

da gema

mate não

aparte

arremate

o lema

mate não

clame

chame o fonema

embate o tema

poemate

 

 

 

 

sexo

 

não pode evitar meu olhar no seu olhar

meu olhar nos seus olhos

meu olhar nas suas recusas falsas

não pode evitar que me olhe

e que meu olhar atinja por teu corpo inteiro

primeiro o que vê depois a gangrena em seus pudores

não pode permitir que meu olhar vá embora

mas hesita teu olhar para o nada

um jornal

um poema

um não-objeto

nessa eternidade que abandona em todo seu âmago em todas suas febres

em toda sua insanidade

não pode você deixar de me amar

mas você não pode me amar

o quanto seus olhos decretam

somente o olhar amalgama suas dores

 

 

 

em busca do verso

 

prenuncie a letra pronuncie o nome

a palavra profetize

arrume a rima reme

em rumo da não meta

a metáfora fora de uma cor

rente à corrente da vaga

que surge a grave que supre

a suprema forma de canto

qual santo acalanto

poetize

sempre

poetize

quando

 

 

 

 

poética 2

 

me caço

sem laço

não me acho

nem em cima

nem na rima

nem em facho

me calo

no embalo

de quem fugiu

– vassalo

e dormiu

quando o sol surgiu

no gargalo

e ruiu

num pequeno

estalo

 

 

 

 

a eterna paisagem

 

o país dos penitentes dos sem-dentes

dos sorridentes da panela vazia

da vã alforria da lenta agonia

da favela trincheira

do eira nem beira

da xepa da feira

o poder que assola

a falta de escola

do governo esmola

que se travestem de humanos

mas que cada um é pro seu

que se atura como nomenkletura

tudo mesmo os eternos com seus ternos

que ganham reganham

dos que estão em versos lá em cima

logo acima que ensina que a flor fina na surdina

é pedra e  medra do crivo de que  tem o arquivo

que foge da raia dos ossos do araguaia

da sonhadora povoador terra do se terra

que berra que morro mas cerra ao ver s novela

que encerra no peito no leito da pátria varonil

juvenil do céu anil da puta que o pariu