2009

ESSÊNCIAS DA NOITE

 
 

”Mas esquecemos. O dia perdoa”

Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

SINOS SILENCIOSOS

 

Porto no bolso a espera

na síntese do que emboca,

a cada dia que deslizo

dentro de seus mares.

Que rejeita os sinos

os fogos e o gozo

que morrem em véspera

do que me anunciei.

Tudo se posta tarde,

passado e côncavo

na saudade de mim

qiando nunca fui.

Um espelho torto,

dragão e fomentador

nem me reflete

nem me abjuga;

apenas mostra um rosto

que fustiga o que de mim

escorre e não deixa

nascer o que me conclui.

 

 

 

 

NOITE PASSIVA

 

A noite que não é negra

é noite sem entrega,

sem presságio de noite.

Noite sem refrega.

A  noite que se nega

é a noite de meio termo,

sem tango, que desmaia.

Do que não é enfermo.

A noite que não se regenera

é noite que não se ouve,

silêncio que não se grita.

Grito de garganta fria.

A noite que anseia o dia

é a noite que escapa,

círios que se apagam.

Bola na caçapa.

A noite sem defeito

é noite com trégua.

Algo que não se mira,

noite do não feito,

noite sem escravo,

sem soluço, sem medo

Que se cala e não crava

Unhas no degredo.

Noite que termina,

que fisga espaços.

Nesga pantomima.

Noite aos pedaços.

 

 

 

 

CHORO NOTURNO

”Eis porque minha alma ainda é impura”

MÁRIO DE ANDRADE

 

 

Longe de ti.
Perto de ti não respiro.

Sofro pela inépcia da noite e teu pêndulo.

A que chamas amor – noite vem, noite não.

Pela lógica que é minha e que passas remota.

O não entendimento é quase gráfico,

subalterno a todos os argumentos.

A prisão ao cigarro não é nada free.

Bebo o prazer de ter dor e a fumaça.

 

 

 

 

VERSO DA NOITE II

 

Frívolo cantador de suores distantes,

desvendo o que refuga num poema arrepanhado.

Ante a flor de pétalas dissonantes, se cismo,

retiro do pulsar um abismo de estupor

da angústia ávida pelo fado.

Um salto em torno da vaga por mais alto

a paliçada da trajetória aflita,

cumpro e excluo da madrugada o calor

de que não sei se desdita e encaro

a dor do nada que dentro de mim se agita.

É quando um verso que não morre  alteia

o que está imerso, e na cisão da falsa teia,

salta e à pena ensina: tudo isso que escorre

é o viver na noite finita, que me abrange

como um lago que socorre e ao se enfeixar

com o alvorecer, se jardina.

E como espectro de mera fita, declina.

 

ESTRELA INCÓGNITA

 

A insegurança irrompe-me em qualquer lugar,

em qualquer segundo.

Mas uma estrela de tutela indecifrável,

irradia o sim fecundo.

Uma espécie de aragem de sorriso aberto.

Mãos que ameigam e me trazem de volta ao mundo.

 

 

 

 

NOITE TRANFIGURADA

(Visitando Shoemberg)

 

Vários tons

de cores notas e ânimos

vão somem voam vêm sobressaem do limbo.

Então tecem

 

vários tons da noite.

Noites adentro de vozes

desarmoniosas

em perfeita harmonia de vários humores

pecam afligem sangria da paz

quiçá flores.

 

Vários to s de fixas regras

irão tornar o único desejo reflexos

apanhas

entregas negras de

 

vários tons que colhem do século tecidas curas.

Feridas puras.

Grito no pedestal do seco abissal.

Ciclo onidirecional.

Banza fúsil em ternuras.

 

 

 

 

NOITE ALUCINANTE

 

Potros ao vento,

signos e sonhos,

portos e caudas;

suores medonhos.

Sono de pedra.

Alma ruprestre.

Jaula na noite.

sem viga mestre.

Luar desbotado,

palavra não lida.

Boca fora do tom.

Data vencida.

Beijo estranho

na morte doída.

Alçapão que indica

sem saída.

Inferno, pária,

morsa e aluvião.

Deus inafetivo,

filho de Abrahão.

Amnésia e partida.

Lua de botequim.

Cheiro do riso:

o prazer do fim.

 

 

 

 

NOITE SEM FIM

 

cruzes em pé

espada flamejante na  beira na costa

sono delirante

criança amendrontada

fixas ondas cortes rápidos – fixas ondas

viagem interior

vaga atormentada

tapas de cima de lado – do outro

cálice de ouro cheio de incenso

um coro

besouro (imagem cimentada)

cruzes em pé

espada flamejante no dia aziago

nunca terminante, nunca fica o nada

peça de couro vira chicote na plena noitada

vaga chicoteada

declive no quando confete e serpentina

mesmo saudade

mesmo sem retina

declive tesouro

descanso do cálice de tapado

de outro sopro que anima

cruzes em pé

espada e dardo

tarde e noite

chaga e fardo chega e sai

nunca que cai no quase soluço

madrugada se esvai

 

 

 

 

MALUCO REALEZA

 

Raul é tão eterno quanto seu nome ao contrário.

 

 

 

FÉDON

 

noite escura

noite clara

a morte procura

a sabedoria aclara

 

noite escura

noite clara

o plenilúnio perdura

o triste enluara

 

noite escura

noite clara

a espera pelo sol tortura

a eternidade ampara

 

noite escura

noite clara

noûs abjura

o veneno da tara

 

 

 

 

A ESQUINA

 

Ao amigo Mario Pinheiro de Carvalho

 

A esquina era aquela;
sonho e esquisitice de risos sem futuro.
Era da cidade, mas a esquina era dela.
E  nos possuía nas noites em que tentávamos o fardo de viver
descobrindo sustos, despavoridas inquietações,
que se agarravam na essência da fúria probabilista.
A esquina era bela.
Onde sentávamos com o cigarro sem fósforos,
esperando o fogo da juventude aclamar mais um dardo atingido.
A esquina era sequela
aos tempos e vidas incontáveis, de vidas de passagens,
passeios e tristes fracassos e buscas por tentar entender o pão do dia.
Mas a esquina não era ela.
Era a que abrigava conversas sentadas,
madrugadas de um espinho camaleão,
de jogos interiores de cada um que recusava o passo,
antes o estilhaço de se ancorar no insabido.
A esquina era viela.
E por mais espaço, era própria de um pequeno mundo
de pequenos mundos, esconderijos de todas as sensações
em que éramos das cavernas, das inquisições,
do encarte positivista dos pais,
da dormência obliterada de uma fálica nação
sempre a servir-nos uma espera fria,
que, mágica, transformava,
em momentos de esquiva, a esquina em cela.
No meio-fio, rutilantes entraves insinuavam ambições
do que era o próximo segundo,
do que nasceria no amanhã,
no que fiaria nas nossas mentes,
nos livros, nas repetidas conversas, nos filmes,
na canção gratificante de um tempo rico de canções,
maiores que o próprio tempo,
que não deixaram a esquina ser mazela.
A esquina era a cancela
para todos os lados do vir a ser
ou para o alto da escada sem degrau ou rampa
para o acesso de tantos sonhos que,
só ao voar, chegaríamos em tempo de triturá-los
e experimentar o sabor de tudo que a vida,
hábil e dadaísta, proveria a todos enquanto peça
da humanidade que respira como alvorada onde está o tudo:
no meio da esquina paralela.
Nisso, íamos nascendo.
Enquanto o barro secava-se não ao sol,
mas ao cio da lua,
a esquina era a costela.

 

 

 

 

NOITE DE NELSON FREIRE

 

O piano angelita oscila

entre tangível e eldorado.

A mais sensível gota

de existência nos olhos do artista.

Pálpebras que remetem avisos.

Ao íntimo desconhecido,

via mãos grávidas da entrega.

Ao maestro:

cada segundo deve repelir o estatismo de viver.

 

Orbitam as retinas em maio à emoção

compartilhada com centenas de outros olhos

que esteiam o ouvido da noite.

 

Noite de música vista, descortinada.

Noite de cena final na lua da Casa de areia,

Noite de condão, diluvial.

Noite de olhos. Fixos, marejados.

 

 

 

 

SOLIPSISTA

 

A porta aberta, cigarro aceso.

Dentro da noite de dentro do escuro,

ruídos túrbidos atiram pedras no pensamento.

Sem clarão de lua a penetrar no espaço

do homem que vira bicho se não dorme;

que vira lixo se não se domina.

Aguarda-se o que virá.

Sem saber se virá, sem perceber se remirá.

Quanto  mais a noite adentra,

mais a impossibilidade,

adventícia e nêmesis cresce,

para nunca mais desgrudar.

 

 

 

NOCTÍVAGO

”Yo solo describo el mundo. Estoy solo.

La soledad es amiga de los roces del cuerpo.

VIRGÍLIO LÓPEZ LEMUS

 

Temo que seja dor o que escondo

do olhar no espelho.

Temo que seja desta dor o enlace

da melhor parte: a de escombros

da noite, o do momento ateu.

 

Longe dos engates que o tempo traz,

a luta por paz nos alija da mandrágora,

que origina a delícia.

 

Frutificamos pelejas à espera da chuva,

a nos abrandar enquanto debaixo da terra.