A VIDA, ESSA PLURAL

Nada cessa o filme vida.

Nem a bomba atômica nem praga

Do Deus enérgico, da ira que soçobra.

A vida não é só a vida vivida, os fatos,

O dia, noite. Nem o gozo em arfadas.

 

(Inda há pouco dei vida

A Capitu regenerando seu rosto

Das entranhas de suas sílabas,

Solfejadas em compassos ternários

E altissonantes)

 

A vida preexiste no desejo de se criar

Novas vidas, granjeando encontros.

O amor se põe a sonhar; dobramo-nos.

Por vezes, por acidente biológico,

Nas vontades mais proscritas. Outras,

Sem cultivo, na orquídea da surpresa.

E no quando desgarrado da inocência,

Damos corda à vida que nos despeja

Do presente, ao convívio nefasto

Com os túneis e fímbrias do passado.

 

A vida da cachoeira morta

Pelo homem vive naquilo que a represa:

A fotografia eterna.

E os bandos de pássaros passam

Em tantos para que se note que são tantos.

 

A vida segue clara depois da morte,

Por perto da ausência, cultuada no ar

Ou nas lajes frias como o lamento triste

Do jovem imorredouro, o condoreiro.

 

(Quero a imolação pelo fogo, cinzas rápidas,

Que ainda quentes sejam doadas ao vento meu,

Amigo de vida fremente em muitas estrofes)

 

A vida é o todo de tudo, o mundo no plural.

A vida é assim, muito além do que se respira.

A vida sempre circunda o tempo, beija, ri dele

E o subverte. A vida, enfim, não tem fim.

UM DIA PARA A CRIAÇÃO

“E nasce nu do sonho um desafio.”

MARIO FAUSTINO

 

Desejo ao dia a florada de assombros.

Seu bojo cheio de ocultas aventuras

Que encham olhos, triturem calmarias.

Que sucumba a forma que a rosa traz.

A jornada das árvores de camaleões.

Que a lembrança do último romance

Desapareça com a trégua da zombaria.

Morto para o calendário, além bissexto.

Este dia há de respirar de per si. Incoeso.

Sem fotos que represem o tempo; marcas

Tatuadas no vácuo. Gangrena no ocaso,

A noite do Carlos, que dissolve homens.

Nada de escribas, papiros, alfarrábios.

Um dia em que o Sol nem apareça

E sua presença seja marcada como

A mais olvidada das ausências.

Um dia totalmente iniludível,

Onde não se concretizam sonhos

Nem se reconheçam quaisquer mitos.

Um dia a marcar pele, alma e versos.

MOVIMENTO

O corpo move-se nos sulcos do tempo.
Como carros de bois nos sertões dos livros.
Mesmo parado, sempre ebuliu em si mesmo.

Transforma-se em segundos imperceptíveis.

No que não se escuta no alarido
Do silêncio.

O corpo fina-se em olhos cegos,

Sem o instinto da escuridão. Esvai-se
Como um sono bom.

Dita o compasso da vida.

É o corpo que não para, não o tempo.
O tempo para quando o corpo quiser.

DIRETO DE UM DIA COMUM

No caminho há pausas para o cavalo alado

Que pasta na mente e nos sonhos. Mesmo
Que sejam despojos, insistem em perolarem

Dentro da perplexidade do frágil amanhecer.

Do roto espanto – a vida a estocar frutos/sinais

De que a tudo resiste se há algo que se ame.

Como cola nas patas do inseto sobre o chão

Que exempla a luta frágil, mas fruto do dia

Em que foi de Sol, cães, pessoas sem olhos,

Fúrias e ancoragens até o íntimo ocaso,
Com bares e colcheias (a utopia do entardecer)
A partejar a incerteza de que ainda estamos
No baile em que um sultão, doido de tantos desejos,

Guerreia contra seu tédio e nos intima a dançar.

CHAMAS

 

Dois amigos amam a lua. Outros dois

São solares. Vários se avermelham

Com a face no azul. Enquanto eles diferem,

Eu me tranco num baú.

 

Meus anos de vida pesam

E se espalham em mim. Atravesso

Cordilheiras com a mochila abarrotada.

 

Na memória, um campo pós queimada.

Chamas insistem em não me permitir

Escuridões ou esquecimentos. Dói-me

Constatar que meu tempo é sempre.

 

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PESSOA

 

Da janela do meu quarto Nenhuma flor.

Nem Fausto nem tabacaria.

Apenas o quintal que clama

Por ser um verso (que seja)

De um velho poema sem registro,

Igualmente semeado no cimento.

No que meus olhos acedem.

 

Mais uma vez percebo – flébil,

Que vivo nos fundos de mim

Mesmo. E esqueço de escrever

Que neste quintal não há árvores.

E eis tudo de mim a criar as sombras.

 

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