CHAMAS

 

Dois amigos amam a lua. Outros dois

São solares. Vários se avermelham

Com a face no azul. Enquanto eles diferem,

Eu me tranco num baú.

 

Meus anos de vida pesam

E se espalham em mim. Atravesso

Cordilheiras com a mochila abarrotada.

 

Na memória, um campo pós queimada.

Chamas insistem em não me permitir

Escuridões ou esquecimentos. Dói-me

Constatar que meu tempo é sempre.

 

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PESSOA

 

Da janela do meu quarto Nenhuma flor.

Nem Fausto nem tabacaria.

Apenas o quintal que clama

Por ser um verso (que seja)

De um velho poema sem registro,

Igualmente semeado no cimento.

No que meus olhos acedem.

 

Mais uma vez percebo – flébil,

Que vivo nos fundos de mim

Mesmo. E esqueço de escrever

Que neste quintal não há árvores.

E eis tudo de mim a criar as sombras.

 

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DOMINGO ANTES

Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Bater de asas.

Acordo do sonho que fui buscar
No domingo de silêncios.
Na casa, na rua, na oficina defronte.
(missa, matinê, guaraná)
Deitado no frio ladrilho vermelho
Do alpendre, avencas e histórias
De guerras saídas das Seleções.
A claridade do Sol.
Um pardal se assusta com o calor
Ou com a quietude? O mundo inteiro

Dorme e eu desafio a Gestapo.
Bater de asas.
Desperto para sons aflitos.

Percebo desapontado
Que não é um pássaro.

Sequer um pássaro preso,
Tão familiar para mim.

Apenas o vento na parede
Faz tremular o calendário;

A folhinha da Família Cristã.
É a minha história que se debate.

 

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CAMINHANTE

Sinto correr de minha boca um rio de sombra.

Joaquim Cardozo

 

Nasci. Antes de andar ou falar,

Já sonhava. Não lembro sequer

Algum instante de liberdade.

Preso em projeções fora de mim,

Aprendi lidar com a gangorra,

Determinante de minhas horas.

 

Para não explodir todo o resíduo

Que foi em mim acumulando,

Senti que precisava de evadir-me.

Tomei a rota das palavras e caí

Na solidão rodeada de afetos

Sebastianistas; quase todos planos

A edificar-me como cópia reles

Da gente que o tempo apagou.

 

Hoje, nada sei sobre lucidez.

Apenas que sou o de sempre

Atrás das portas e de poemas.

 

Enquanto escrevo, penso ser rio;

Lento, mas ansioso. Um contínuo

Caminhante em direção ao mar.

 

Como não vou entender a morte,

Não sentirei o fim: acho que um sono

Sem o despertar matutino, sem graça.

 

O depois poderá ser um haiku: três

versos como uma fotografia; inertes.

 

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ELA

E minha alma, sem luz nem tenda

Passa errante, na noite má,

À procura de quem me entenda

E de quem me consolará…

Cecília Meireles

 

Minha alma é conviva da vida,

Desgarrada de quaisquer mortes.

Precisa do ar de que me sirvo,

Da dor que me ativa, do som

Das calçadas. A minha alma

Só mostra do futuro meu medo.

Tudo nela não jaz. Tudo nela

Segue a natureza que me habita.

A minha alma prepara versos

Em estados de argila e despeja

Em minhas mãos que os tomam.

Depois, vestida de alívio, segue

Seu destino de estar atenta

Aos meus passos, que tropeçarão

Nas próximas esquinas e febres.

A minha alma ensina ao meu eu

Que a imite, que embole a vida

E a arte no mesmo balaio,

Desde que se mantenham longe

Vocábulos que não as diferencie,

Os inexatos, que dizem nada.

E quando descanso meu corpo,

Minha alma sonha com caminhos

E se prepara para escalar etapas

Das dúvidas que nasceram antes

Da carga que lhes impôs minha vida.

Quando me sente triste, me agrada

E se desvela eterna, companheira

Para todo o obscuro do amanhã.

Põe as mãos sobre minha cabeça

E diz para em nada se desacreditar,

Que a vida, assim como a poesia,

Em suas essências, são mistérios

Que elevam o Espírito que nos tem.

A minha alma é o meu travesseiro.

 

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NO ÔNIBUS

Escuto a fala da moça

Que explode nas atenções:

Num instante estava vivo

E assim por nada, morto.

Todos os meus sentidos

Perfilam-se babilônicos.

As palavras abarrotam

Minha cabeça de ratos,

Me ensurdecem.

Busco Imaginar o ato, queda?

 

Olho para a rua. Penso

No movimento da Física.

Pela janela, duas mãos

Pequenas comemoram

Um álbum de figurinhas.

Essa dor ausente e rápida

Deita sobre meu ser alívio.

 

Vêm-me jogos de bafo

Sobre ladrilhos vermelhos,

Sombra de verdes avencas.

Conforta-me este antes.

 

Os ratos se evadem.

A surdez definha-se.

O tempo se comprime:

Dá a exatidão dos anos.

 

Um vento resignado entra

E tenta ao rosto o retorno

Na face da persona do dia,

Usada entre rumores de vidas.

 

A moça agora já sorri;

Vive outro instante:

Puxa o cordão e desce

No ponto sem surpresa.

 

Onde a morte, o batom,

E o espelho retirados

Da bolsa, são ofertas

Da vida na mesma bandeja.

 

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