CAMINHANTE

Sinto correr de minha boca um rio de sombra.

Joaquim Cardozo

 

Nasci. Antes de andar ou falar,

Já sonhava. Não lembro sequer

Algum instante de liberdade.

Preso em projeções fora de mim,

Aprendi lidar com a gangorra,

Determinante de minhas horas.

 

Para não explodir todo o resíduo

Que foi em mim acumulando,

Senti que precisava de evadir-me.

Tomei a rota das palavras e caí

Na solidão rodeada de afetos

Sebastianistas; quase todos planos

A edificar-me como cópia reles

Da gente que o tempo apagou.

 

Hoje, nada sei sobre lucidez.

Apenas que sou o de sempre

Atrás das portas e de poemas.

 

Enquanto escrevo, penso ser rio;

Lento, mas ansioso. Um contínuo

Caminhante em direção ao mar.

 

Como não vou entender a morte,

Não sentirei o fim: acho que um sono

Sem o despertar matutino, sem graça.

 

O depois poderá ser um haiku: três

versos como uma fotografia; inertes.

 

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ELA

E minha alma, sem luz nem tenda

Passa errante, na noite má,

À procura de quem me entenda

E de quem me consolará…

Cecília Meireles

 

Minha alma é conviva da vida,

Desgarrada de quaisquer mortes.

Precisa do ar de que me sirvo,

Da dor que me ativa, do som

Das calçadas. A minha alma

Só mostra do futuro meu medo.

Tudo nela não jaz. Tudo nela

Segue a natureza que me habita.

A minha alma prepara versos

Em estados de argila e despeja

Em minhas mãos que os tomam.

Depois, vestida de alívio, segue

Seu destino de estar atenta

Aos meus passos, que tropeçarão

Nas próximas esquinas e febres.

A minha alma ensina ao meu eu

Que a imite, que embole a vida

E a arte no mesmo balaio,

Desde que se mantenham longe

Vocábulos que não as diferencie,

Os inexatos, que dizem nada.

E quando descanso meu corpo,

Minha alma sonha com caminhos

E se prepara para escalar etapas

Das dúvidas que nasceram antes

Da carga que lhes impôs minha vida.

Quando me sente triste, me agrada

E se desvela eterna, companheira

Para todo o obscuro do amanhã.

Põe as mãos sobre minha cabeça

E diz para em nada se desacreditar,

Que a vida, assim como a poesia,

Em suas essências, são mistérios

Que elevam o Espírito que nos tem.

A minha alma é o meu travesseiro.

 

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NO ÔNIBUS

Escuto a fala da moça

Que explode nas atenções:

Num instante estava vivo

E assim por nada, morto.

Todos os meus sentidos

Perfilam-se babilônicos.

As palavras abarrotam

Minha cabeça de ratos,

Me ensurdecem.

Busco Imaginar o ato, queda?

 

Olho para a rua. Penso

No movimento da Física.

Pela janela, duas mãos

Pequenas comemoram

Um álbum de figurinhas.

Essa dor ausente e rápida

Deita sobre meu ser alívio.

 

Vêm-me jogos de bafo

Sobre ladrilhos vermelhos,

Sombra de verdes avencas.

Conforta-me este antes.

 

Os ratos se evadem.

A surdez definha-se.

O tempo se comprime:

Dá a exatidão dos anos.

 

Um vento resignado entra

E tenta ao rosto o retorno

Na face da persona do dia,

Usada entre rumores de vidas.

 

A moça agora já sorri;

Vive outro instante:

Puxa o cordão e desce

No ponto sem surpresa.

 

Onde a morte, o batom,

E o espelho retirados

Da bolsa, são ofertas

Da vida na mesma bandeja.

 

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NA PRAÇA DAS BANDEIRAS

Dois amigos na rua

Socializam suas pedrinhas

Ao largo das vidas

Que se alteiam do sonho

Antigo, do drop out.

Da margem vejo sobras

Das minhas escolhas

Nas pulseiras de couro

Estendidas na calçada onde,

Tudo que é sujo, limpa-se

Pela ideia de ser livre.

 

Olhos azuis da criança

Presente me denunciam:

O invasor do momento

Em que tudo me divide.

 

Ao lado, gente e mochilas

Esperam, rostos em fadiga,

Ônibus e amanhãs repetitivos.

Encosto junto a elas.

 

Sem a porção de asas

Dos passos anteriores

Desolo-me ante a sujeira

Que assisto como um palco.

 

Tudo é decrepitude e ruir.

Seres humanos corroem

O que respiram. Enfeiam

O que seria suas molduras.

 

Distorcem o que sempre

Serviu a todos, os tapetes

de benquerenças e afagos.

 

Torturam todas as tradições

Do asseio, mortas em fotos

Antigas da cidade do café.

 

Jogam o lixo ao redor

Como se os engolissem.

Miram a fealdade do feito

Como meças ao espelho.

 

O que veem não os abatem,

Antes parece os confortam:

É quando tudo se mostra tardio.

Suas escolhas já os devoraram.

 

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NAS URNAS

A arandela quebrada

Insinua que a tristeza

Instala seu mal cívico.

 

Pela mão que aciona

A tela do irresoluto,

Faz um raio espalhar

Fel como bala por todo

O momento que átimo antes

Flor silvestre em foto era.

 

Inundados para sempre

Sem trégua ou lanche

Que as tardes decorridas

Supriam em vontades

Mais domadas, filhas

Do pensamento, Musas,

Diferentes das coetâneas,

De ausência da Ética

E de tudo o mais claro

Que possa se respirar.

 

Mentes sem armistício,

Longe da flecha da calma,

Olhos do touro no olho

Do matador, às urnas vão

Destilar algo não cívico,

Todo ele à margem de

Le Serment des Horaces.

 

A cidadania rareada

A cada postagem,

Padece de abandono pátrio,

Emudecida pelos dias

De cegueira e entrechoques.

E nossos velhos princípios

A patear sobre este chão

Como um parco alvoroto,

Sequer sonham renascer.

 

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