O FLERTE

Para o ser criança

 

Sol, trânsito e esperanças

Coletivas, e saltimbancos.

No ônibus, Deus se infiltra.

Camuflado com touca azul,

Olhos abertos que indagam

Encontram os meus. Faço-lhe

Caretas. Comungamos um flerte.

Sorri e dentro de mim nuvens

E paz. E isso me basta: é Deus!

Ninguém mais operaria o milagre

De transformação de instantes.

Mas logo se vai. Embora no colo

De um amor, visualizo-o cocheiro

Da quadriga que bendiz o arqueiro.

E suas setas serão palmas a doar.

Tarde apocalíptica e um sorriso

Banguela cicatriza o mundo todo.

É Deus! Só pode ser!

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OS SINAIS

Quando dobrei a esquina

Não percebi os sinais de

Que o meio da rua deveria

Ser o jorro da minha vida.

Quando subi na calçada,

Por mais que tentasse

Um chamamento da Fortuna,

Não vi os milhões de passos.

Sou muito mais considerado

Do que me considero;

Retribuo sorrisos à larga

Mas fico sério nos espelhos.

Só a palavra me redime.

(tanto fora quanto dentro)

Ganho beijos por elas,

Gozo suas nuances.

De resto, aguardo cores

Pela janela sempre aberta

Como ordens universais,

Pulverizadas em sonhos.

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CAMINHO DA VIDA

Pensando em Kurosawa

 

Na minha cidade não havia bondes.

Mas sei que os perdi. Várias vezes.

Certa feita, peguei o destino e me fui

A um lugar onde não soube remar.

Encontrei bondes que não eram meus.

E meus barcos e velas submergiram

No asfalto de minha indefinição.

Voltei. E continuei vendo bondes

Imaginários, passando dosdeskaden

Defronte meu coração de fantasia,

No relógio imenso e febril da estação

Do trem, que velejava por cafezais.

Talvez por isso não me tinha cais,

Nem mar, baía ou costa navegável.

Apenas vielas e córregos interiores

Pensados como uma imensidão.

Hoje sei que foram vidas que perdi.

Uma a uma se extinguiram no agravo

Do amarelo de abandono. Passei

A locomover-me por versos singrados

Nos trilhos, que se tornaram fábulas

De mim mesmo. Com montanhas, bondes

E lagos. Todos eles de Era uma vez.

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PEQUENO AUTORRETRATO

Passos surreais, docemente barrocos.

(Às vezes penso que bicho é esse.

Oferto-me ao Zoo, perto dos pandas.

Afinal, tenho polegar e cara de afeto).

Gosto de jazz e da língua portuguesa.

Vivo em guerra contra dias obscuros.

A arte de reabrir as covas da alma

Está no alinhavar do que se esconde;

Só os autófagos quebram silêncios.

E definir-se não é senão devorar-se.

Na borda do precipício de tantos totens,

Emudeço as reservas confessionais.

Mas alguns versos saltimbancos

Desvelam meus piões selados.

E me expõe nu como anúncio de morte.

A poesia é pródiga em mostrar as cartas.

Destarte, busco manhãs claras para colher

Um pouco de lucidez para meu caldeirão,

Onde está, sempre fervente, o assombro,

Perene olhar de soslaio na humanidade.

Assim, sou. Ou estou? Sabe-se lá.

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