CASA DE ONTEM 6

Por esta fresta me espreito

Por esta fenda me desvendo.

(Armando De Freitas Filho)

 

Uma nota desafinada no piano da sala.

Um fá sustenido ali, na terceira oitava.

Ecoa cacete sobre as cinzas do cigarro

Em dias esgotados de tanta elegia.

Poderia ser em um noturno sem força

Ou numa mazurca que sobre o pentagrama

Marchasse, com o desleixo da tecla preta,

Na exiguidade da falta de um prumo.

Ou ser de um acorde a blue note,

A servir de berço ao improviso

Do ragtime, mais bela; sincopada,

Das polirrítmicas memórias sulistas.

A nota seria um rastro de fogo na sala

Que não existe mais. Ilusão de sonoridade

Como um bicho saindo debaixo da terra,

Filha da tecla desajustada, quase inútil.

Mas, na verdade apenas a aguda locução

De um bico azul, nascida da portinhola

De um cuco no alto do estar só. Também

Ser nota alta como um grito, a embalar

Tardes e intuições, desta de agora quase

Desespero por um piano que, pelo afã

De existir, nunca esteve naquela sala.

.

O MURO

buscando formas

buscando versos

como os óculos,

sem olhos.

(Silvio Zanatta)

 

Fixo no muro de pedras o outro olhar,

O da fantasia. Vejo rostos disformes/

Mitológicos que deveriam assustar,

Por estarem na posição e essência

De espelhos de labirinto prontos,

A vasculhar o que penso (e vejo)

Enquanto doido na banda em que

Transito a maior parte do tempo.

 

A razão – censora da mente – previne

Serem as pedras colocadas por gente.

Supõe um pedreiro que não tinha tempo

Para carregar um escultor em si:

Sobrepôs pedras como seu ofício

No desejo apenas de sonhar um legado.

(jamais pensaria em desvelar espíritos)

Mas o muro ali está; pequenas manchas

Me repartem entre todas minhas faces.

A janela que sequer se surpreende

Como cúmplice do vagar de substâncias.

Os rostos ali pontificam espectros:

Máscaras que um dia terão vida. Aprumam

Versos de como resistir contra a irrealidade.

Pântanos que tendem a deixar estigmas.

 

.

DIA DE VIDA

para Konstantinos Kaváfis, em memória


Atende tua porta ao chegarem
Os desejos; inclina para o lado
Do corpo que foi atingido.
Não esqueças de acolher bem
Ao que pode ser a tua Ressurreição.
Espalha ramos no teu tapete
Onde teus sentidos pisam.
Sê o humano da superfície
Da pele que te retrata.

Não Represes tuas fantasias
Por nenhum pensamento
Que te doa; solta comportas
Em todos teus poros, risos,
E em lembranças marcadas,

Como a dança dos colmos
Dos trigais que um dia viste.
Não te resguardes da canção

Primeira que veio a ti pela manhã

E que te envolveu como hera
E te acompanhou até o ocaso,

Que julgavas exausto, mas que
Ao se declinar, retratou no céu

Em sorriso lascivo, com o olhar

Da imaginação, uma rosa tímida.

E quando o sono que te aguarda,

Ruborescer ante teu dia completo,

Entrega-te como criança: abre

Teus braços e corre ao âmago
E júbilo das atividades vitais.
Nesta hora, toda tua substância

Precisará de descanso, diferente
Da tua alma que, assim que iniciares

O teu fingimento de morte, te velará.

A VIDA, ESSA PLURAL

Nada cessa o filme vida.

Nem a bomba atômica nem praga

Do Deus enérgico, da ira que soçobra.

A vida não é só a vida vivida, os fatos,

O dia, noite. Nem o gozo em arfadas.

 

(Inda há pouco dei vida

A Capitu regenerando seu rosto

Das entranhas de suas sílabas,

Solfejadas em compassos ternários

E altissonantes)

 

A vida preexiste no desejo de se criar

Novas vidas, granjeando encontros.

O amor se põe a sonhar; dobramo-nos.

Por vezes, por acidente biológico,

Nas vontades mais proscritas. Outras,

Sem cultivo, na orquídea da surpresa.

E no quando desgarrado da inocência,

Damos corda à vida que nos despeja

Do presente, ao convívio nefasto

Com os túneis e fímbrias do passado.

 

A vida da cachoeira morta

Pelo homem vive naquilo que a represa:

A fotografia eterna.

E os bandos de pássaros passam

Em tantos para que se note que são tantos.

 

A vida segue clara depois da morte,

Por perto da ausência, cultuada no ar

Ou nas lajes frias como o lamento triste

Do jovem imorredouro, o condoreiro.

 

(Quero a imolação pelo fogo, cinzas rápidas,

Que ainda quentes sejam doadas ao vento meu,

Amigo de vida fremente em muitas estrofes)

 

A vida é o todo de tudo, o mundo no plural.

A vida é assim, muito além do que se respira.

A vida sempre circunda o tempo, beija, ri dele

E o subverte. A vida, enfim, não tem fim.

UM DIA PARA A CRIAÇÃO

“E nasce nu do sonho um desafio.”

MARIO FAUSTINO

 

Desejo ao dia a florada de assombros.

Seu bojo cheio de ocultas aventuras

Que encham olhos, triturem calmarias.

Que sucumba a forma que a rosa traz.

A jornada das árvores de camaleões.

Que a lembrança do último romance

Desapareça com a trégua da zombaria.

Morto para o calendário, além bissexto.

Este dia há de respirar de per si. Incoeso.

Sem fotos que represem o tempo; marcas

Tatuadas no vácuo. Gangrena no ocaso,

A noite do Carlos, que dissolve homens.

Nada de escribas, papiros, alfarrábios.

Um dia em que o Sol nem apareça

E sua presença seja marcada como

A mais olvidada das ausências.

Um dia totalmente iniludível,

Onde não se concretizam sonhos

Nem se reconheçam quaisquer mitos.

Um dia a marcar pele, alma e versos.

MOVIMENTO

O corpo move-se nos sulcos do tempo.
Como carros de bois nos sertões dos livros.
Mesmo parado, sempre ebuliu em si mesmo.

Transforma-se em segundos imperceptíveis.

No que não se escuta no alarido
Do silêncio.

O corpo fina-se em olhos cegos,

Sem o instinto da escuridão. Esvai-se
Como um sono bom.

Dita o compasso da vida.

É o corpo que não para, não o tempo.
O tempo para quando o corpo quiser.