NA PRAÇA DAS BANDEIRAS

Dois amigos na rua

Socializam suas pedrinhas

Ao largo das vidas

Que se alteiam do sonho

Antigo, do drop out.

Da margem vejo sobras

Das minhas escolhas

Nas pulseiras de couro

Estendidas na calçada onde,

Tudo que é sujo, limpa-se

Pela ideia de ser livre.

 

Olhos azuis da criança

Presente me denunciam:

O invasor do momento

Em que tudo me divide.

 

Ao lado, gente e mochilas

Esperam, rostos em fadiga,

Ônibus e amanhãs repetitivos.

Encosto junto a elas.

 

Sem a porção de asas

Dos passos anteriores

Desolo-me ante a sujeira

Que assisto como um palco.

 

Tudo é decrepitude e ruir.

Seres humanos corroem

O que respiram. Enfeiam

O que seria suas molduras.

 

Distorcem o que sempre

Serviu a todos, os tapetes

de benquerenças e afagos.

 

Torturam todas as tradições

Do asseio, mortas em fotos

Antigas da cidade do café.

 

Jogam o lixo ao redor

Como se os engolissem.

Miram a fealdade do feito

Como meças ao espelho.

 

O que veem não os abatem,

Antes parece os confortam:

É quando tudo se mostra tardio.

Suas escolhas já os devoraram.

 

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NAS URNAS

A arandela quebrada

Insinua que a tristeza

Instala seu mal cívico.

 

Pela mão que aciona

A tela do irresoluto,

Faz um raio espalhar

Fel como bala por todo

O momento que átimo antes

Flor silvestre em foto era.

 

Inundados para sempre

Sem trégua ou lanche

Que as tardes decorridas

Supriam em vontades

Mais domadas, filhas

Do pensamento, Musas,

Diferentes das coetâneas,

De ausência da Ética

E de tudo o mais claro

Que possa se respirar.

 

Mentes sem armistício,

Longe da flecha da calma,

Olhos do touro no olho

Do matador, às urnas vão

Destilar algo não cívico,

Todo ele à margem de

Le Serment des Horaces.

 

A cidadania rareada

A cada postagem,

Padece de abandono pátrio,

Emudecida pelos dias

De cegueira e entrechoques.

E nossos velhos princípios

A patear sobre este chão

Como um parco alvoroto,

Sequer sonham renascer.

 

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NA JANELA

A moça lá embaixo revolve seu mundo

Dentro da bolsa.

Aflita, desfaz sua paz em segundos.

(de quando comprava loção hidratante)

O medo está entre seus pertences;

Mãos rápidas, trêmulas viajam

No labirinto do respirar fora do tom.

Noto o seu semblante transformar

No rosto de quem canta marcha-rancho,

Penso em pilhéria: achou o Graal.

Fico pensando cá de cima o quanto

Tentamos desvelar o que não sabemos.

O que afligiria tanto assim a moça?

Como não sei, proponho-me nova questão:

Será que foram para ela aqueles instantes

Uma de suas eternidades?

 

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NO BAR II

Não me agrada a palavra humanidades.

Mas humanidade gosto muito.

Amo religiosamente.

Só não concordo que seja um singular.

Dentro dela tem muito mais coisas

Que quaisquer caldeirões de bruxas,

Por exemplo. Pior seria pertencer

Aos aracnídeos ectoparasitas hematófagos.

Apresentar-se, prazer, carrapato.

Humanidade apesar dos defeitos congênitos,

Como dizem velhos boêmios aqui sentados, tem mais bossa.

Ou que é formidável.

Basta acostumar a ser títere da história.

Só isso. O resto é pinuts.